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domingo, 30 de janeiro de 2011

Quem era Ele?

Quem era ele?

A tarde estava ensolarada e o tempo agradável, nem muito frio e nem muito quente. Juliana aproveitou o clima para ir de ônibus ao centro para comprar umas miudezas. O seu estoque de armarinhos estava vazio, se bem que ultimamente não tinha tempo para tricotar e bordar telas, os seus passatempos preferidos para os dias agitados.

Estava escolhendo alguns novelos de lã para fazer um cachecol quando, ela e a balconista avistaram um homem vestindo um conjunto de moletom cinza sentar-se no chão da praça em frente à loja. Juliana pediu para que a balconista aguardasse porque ela queria observar o homem.

O homem carregava consigo uma mochila preta e, ao sentar-se com as pernas cruzadas sobre a calçada abriu a mochila e retirou o seu laptop e o colocou no seu colo. Pelo movimento das mãos dele, Juliana observou que ele ligava o computador portátil. Ela contou à balconista e ela também parou para olhar aquele homem.

_A senhora reparou que ele tem o cabelo ajeitado, a barba feita e não parece alcoolizado?

Juliana olhava para ele e não entendia até quando o homem levantou o notebook com os braços e começou a gritar:

_Estou filmando vocês. Vocês que passam aqui na praça agora.

A balconista disse que talvez ele fosse um fugitivo de alguma cadeia. O homem recomeça a gritar sorrindo:

_Eu sou um homem sério. Vou ligar para a minha mulher aqui do chão. Alô? Amor, as minhas imagens estão boas no monitor? Atenção vocês todos que estão aqui: ela disse que sim. Eu te amo Nina! Desligou o telefone.

Juliana e a balconista ficam cada vez mais intrigadas com o homem, que ri de si mesmo.

_Atenção praça, eu tenho todas as notícias na minha mão! Alguém quer o meu laptop emprestado. Eu empresto. Nessa praça não há delinqüentes. Eu empresto para quem quiser interagir na internet!

Juliana e a balconista se entreolharam com ar de espanto. Mas o homem persiste no discurso.

_Sabem o que significa esse laptop na minha mão? Significa que eu me sinto impotente perante todas as barbaridades que eu vejo aqui. Eu não posso fazer nada e o mundo se acabando aqui dentro. Aqui dentro coisa nenhuma! Pergunto à praça e aos transeuntes se não sentem a mesma inutilidade das suas vontades e a perplexidade diante dos fatos, das notícias? Fatos que estão nesta caixinha preta. Fatos que todos nós tomamos conhecimento e pela correria do dia a dia vamos deixando as coisas como estão. Empurramos com a barriga até o dia em que nem o estômago agüenta mais engolir.

A balconista sugere que ele é um estressado e a Juliana concorda. O homem grita nomes. Ele não fala palavrões. Ele grita nomes pessoas importantes e diz o que há de errado com elas. Parece um protesto solitário. Centenas de transeuntes passam e, ele ali, sentado no chão da praça. Um patético protesto.

_Estamos em meio à impunidade!

Nesse momento passa um policial da guarda municipal com a sua bicicleta e para. Ele não desce da bicicleta. Ele espera e aguarda as palavras seguintes do discurso.

_Até que enfim alguém me ouviu!

O homem pega o laptop, guarda na mochila preta, levanta-se e tira a poeira dos fundilhos da sua calça de moletom e segue o seu caminho. Ele segue o caminho com a altivez de quem acaba de cumprir a sua missão.

Juliana termina as compras dos quatro novelos de lã para o cachecol e uma agulha nº6 para tricô. Ela comenta com a balconista que cidade grande às vezes parece duas.

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