Metamorfose / Crônica do Cotidiano
Abro as janelas e aquilo que alguns acham maravilhoso, pois se trata de vida transformada em vida, me horroriza pela dor que verifico ao ver a lagarta se transformar em borboleta.
Paro para observar.
É daquelas grandes, acho que uma mariposa, negra de asas com cores vibrantes.
Com asas grandes, ela não consegue se arrastar pelo cimento do pátio.
Também ainda não consegue voar. Coloca as asas para cima, unidas, e invariavelmente tomba para um lado.
Num esforço enorme impulsiona o seu pequeno corpo de mariposa e tenta se arrastar, mas o vento a carrega como pluma.
É uma luta entre aquilo que ela acabava de deixar de ser, lagarta ou como se diz de forma coloquial, um bicho cabeludo, daqueles que se fica longe porque causam queimaduras e feridas em nós, seres humanos.
Agora ela tem asas, e não sabe utilizá-las corretamente.
Ela tenta se enrolar e não consegue, virando em torno de si mesma.
Novamente coloca as asas em pé, e as asas se abrem. Quando ela tenta olhar para as asas, toma novamente, como se perguntando como havia conseguido asas, ou que transformação era aquela desconhecida em tudo para a sua vida rastejante.
Que dor! Que sofrimento daquele ser ínfimo sou capaz de observar da janela.
O que ela não se dá conta de perceber é que está viva e que agora vai enfeitar os jardins e apavorar as moças de cabelos soltos.
Saio da janela, deixo a borboleta ou mariposa, algo que não sei distinguir ao certo, livre para lidar com as asas e começar a voar.
Grata pela leitura.
