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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O Vendedor de Sonhos

sonhos

O vendedor de sonhos passava todos os dias lá em casa, na Rua das Amoras, para ver se nós, moradores, comprávamos alguns e, quando meus netos passavam o dia comigo, eles adoravam os sonhos de nata.

Seu João era pontual, às três e meia horas da tarde, ele passava na rua empoeirada de saibro, na sua bicicleta bastante usada, mas em bom estado de conservação, pintada de verde-água, com a cesta de vime amarrada na garupa, carregada de sonhos. Ele apertava a buzina do guidão e anunciava os sonhos recheados de goiabada, nata, creme e doce de leite.

Ele ainda hoje chama a todas as senhoras pelo nome de dona Maria. Ele diz que se parar de vender sonhos, ele se acaba em tristezas. O filho é dentista e pode sustentá-lo, mas ele não quer. As conversas com os fregueses, que ele agora conhece os nomes, dão o doce sabor à profissão. As crianças gostavam e ainda gostam de conversar com ele, uma figura querida, de cabelos brancos bem cortados, barba feita, sorriso de piano, vestindo calças e camisa branca com listras finas azuis claras e tênis branco, que usa para indicar a higiene na confecção do seu produto. Ele ainda conta as aventuras da sua melhor amiga, a bicicleta.

No tempo em que eu morava naquela rua, ele dizia que já tinha atravessado um rio raso para fugir dos cachorros ferozes que haviam fugido de uma casa amarela que ficava na quadra debaixo da minha. Nós ficávamos atentos para descobrir o jeito com o qual ele se livrou dos cachorros e como atravessou o rio.

Mudei de endereço. Comprei um apartamento. Meu neto Afrânio mora na casa agora. Ele casou. Apressadinho aquele menino. Estou feliz. Vou ser bisavó. De repente, me deu uma vontade de saber se eles estão bem. Vou telefonar para eles. A Lucinda deve estar em casa.

_Desculpa vó, tenho que desligar, a conversa está boa, mas o Afrânio acabou de abrir o portão na frente da casa e eu tenho que atendê-lo.

_Tudo bem Lu, eu gosto de me lembrar do tempo que eles eram pequenos e fico me demorando ao telefone. Fique à vontade, depois nós conversamos.

A Lucinda ficou triste de não me dar alguma atenção, que ela pensava ser obrigatória. Eu nem me incomodei, mas o fato foi que ela me ofereceu um chá no sábado.

_Vó Esmeralda, venha aqui. Eu e o Afrânio sentimos saudade. A senhora pode passar à tarde, no domingo, com a gente aqui em casa? A mãe vem aqui também. Vou fazer uma reunião pequena, mas há de ser agradável.

Escuto a voz do homem. É o seu João que passa. Mais uma vez com os sonhos.

_Posso chamar o seu João para uma xícara de café? Vocês permitem que eu faça desse homem um convidado?

Eles permitiram, e eu, Esmeralda, o convidei para um café.

Ele agradece e, meio desajeitado, entra na cozinha para um cafezinho.

_Vamos para a sala tomar o café?

A educação no nosso tempo era assim. O vendedor não entrava pela porta da sala a não ser que fosse convidado. Éramos mais amigos do que hoje. As conversas na cozinha geravam confissões. Era bom aquele tempo. Eu fui educada naquele tempo. Deve ser por este motivo que penso assim. Assim, assim e não assado.

Seu João já tem idade, a bicicleta não é a mesma de outrora. A bicicleta é azul clara.

_Nos conte alguma história da sua bicicleta, disse o Afrânio.

Ele conta dos dias de chuva, dos dias muito quentes, ele conta do neto dele, que é técnico em informática. Ele conta e conta e conta. Ficamos em silêncio. Os olhos do Afrânio brilham, os da Lucinda se abrem muito curiosos, os da mãe da Lucinda riem com carinho, os meus se encantam de novo.

As aventuras continuam a encantar as novas crianças crescidas, as que estão por vir e a todos que o conhecem.

- Obrigado pela tarde de hoje vovó, digo eu, me sentindo superior ao tempo. Outros netos que irão compartilhar o café com os sonhos e o seu João.

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