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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Amigo, você foi um morto muito louco

Amigo,

Quero pegar no seu pé, ainda assimilando o que aconteceu. Três pontos na testa do lado esquerdo, esfoladuras nos braços e pernas, lucidez, médico plantonista dizendo que a tremedeira que você teve era do sistema nervoso (que você não tinha nada além das escoriações), companheiros de quarto dizendo que você estava estressado e falava muito durante a noite atrapalhando o sono dos demais pacientes.

Enfermeiras atenciosas e, somente a enfermeira que ficava permanentemente no quarto atendendo os pacientes me ouviu. As senhoras acompanhantes dos outros pacientes pedindo às outras enfermeiras que me ouvissem. As assistentes sociais me telefonando e eu dizendo que não era da família. Aliás, eles foram ao hospital depois de muitas pessoas procurarem por eles (que família, a sua!). Visita, só depois de morto?

Depois de morto você desceu e subiu pelos elevadores, te carregaram. Do seu corpo morto, só vi os pés, a cabeça era escondida por lençóis, mas também fui chamada para ver o corpo. Pés amarelos hepatite comprovaram a sua morte. Pedi a uma assistente social que fizesse uma investigação e ela, para o bem do hospital, disse que entraria em contato com o posto de saúde para saber como você tinha dado entrada no hospital. Infelizmente, isso aconteceu depois que você morreu. Liguei para o hospital diversas vezes até me certificar de que você não seria enterrado como indigente em vala comum.

Fui ao cemitério para o seu velório, o seu nome estava lá, mas você, ou, o seu corpo simplesmente não apareceu. Você fugiu. A funcionária do cemitério ligou para a funerária e disseram que iriam te mumificar. O velório não é obrigatório pela legislação? Eu fui duas vezes, mas parece que você foi enterrado de noite sem amigos e testemunhas.

Minha família está estarrecida com a maneira de como os fatos se deram. Solto um palavrão: PORRA!

Um abraço da sua amiga, pelo visto a única amiga sincera que você teve na vida. Preciso dizer quem sou? Ah, você sabe que não.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Carta Fúnebre - amenizo a dor com a imaginação.

Carta Fúnebre

Eu ouvi e não acreditei quando me disseram que, Sírio um dos amantes de Sara havia combinado o crime e foram advertidos para que não o fizesse. Jorge Jesus, homônimo do técnico português, havia pedido para que desistissem, mas foi ignorado. A cobiça de Sara foi a de costume e os gozos do seu amante os persuadiram a prosseguir.

Os seus ferimentos pelo corpo foram ignorados, os seus pedidos para que o viessem buscar e as suas esperanças foram alijadas, as minhas palavras foram inúteis. Se não fosse por Jorge Jesus, não sei se teria suportado. Jorge Jesus pediu-me que para o resto dos meus dias tomasse cuidado com Sírio e Sara, pois eles amam o derramamento de sangue, os sanatórios e o sofrimento.

Se eu tivesse como te tirar daquele inferno, certamente o faria. A mãe de um policial pediu algumas informações ao seu respeito e como essas eram irrelevantes, eu forneci. Ela avisou o filho sobre os seus ferimentos e da falta de perícia do IML.

Ouvi de Jorge Jesus, duas semanas antes, que toda a persuasão usou para que não prosseguissem, mas a sedução de Sírio e o dinheiro de Sara tudo consegue. Jorge Jesus pediu-me que eu fosse novamente te ver antes da noite cair, ele sabia antecipadamente o que ocorreria. Agora fico com as orientações de JJ para evitar confrontos desnecessários com esses bandidos de cabala.

Dessa vez não deu para ajudar! Minhas desculpas.

Assinado: mulher de Zaqueu.

Lírio

Lírio   flor de recanto.

Teu significado, pureza,

Uma flor de rara beleza

Em uma janela entreaberta.

O tom invernal a desperta

Para espantar a frieza

E acalentar a certeza

De renovação incerta.

Sempre existirá a rudeza,

Pingos sublimados, tristeza.

Uma esperança encoberta

No alvorecer, descoberta

Na suavizada franqueza

Da sinceridade; presteza

Na articulação e oferta.

Quando se espera a pureza

De uma flor preciosa, (indefesa

No seu bem-estar), desconcerta

A sua afeição pela esperta

Flor, que de amor, na fineza

Dor, te pensará. Gentileza,

Sem afetação mão-aberta.

Quem era Ele?

Quem era ele?

A tarde estava ensolarada e o tempo agradável, nem muito frio e nem muito quente. Juliana aproveitou o clima para ir de ônibus ao centro para comprar umas miudezas. O seu estoque de armarinhos estava vazio, se bem que ultimamente não tinha tempo para tricotar e bordar telas, os seus passatempos preferidos para os dias agitados.

Estava escolhendo alguns novelos de lã para fazer um cachecol quando, ela e a balconista avistaram um homem vestindo um conjunto de moletom cinza sentar-se no chão da praça em frente à loja. Juliana pediu para que a balconista aguardasse porque ela queria observar o homem.

O homem carregava consigo uma mochila preta e, ao sentar-se com as pernas cruzadas sobre a calçada abriu a mochila e retirou o seu laptop e o colocou no seu colo. Pelo movimento das mãos dele, Juliana observou que ele ligava o computador portátil. Ela contou à balconista e ela também parou para olhar aquele homem.

_A senhora reparou que ele tem o cabelo ajeitado, a barba feita e não parece alcoolizado?

Juliana olhava para ele e não entendia até quando o homem levantou o notebook com os braços e começou a gritar:

_Estou filmando vocês. Vocês que passam aqui na praça agora.

A balconista disse que talvez ele fosse um fugitivo de alguma cadeia. O homem recomeça a gritar sorrindo:

_Eu sou um homem sério. Vou ligar para a minha mulher aqui do chão. Alô? Amor, as minhas imagens estão boas no monitor? Atenção vocês todos que estão aqui: ela disse que sim. Eu te amo Nina! Desligou o telefone.

Juliana e a balconista ficam cada vez mais intrigadas com o homem, que ri de si mesmo.

_Atenção praça, eu tenho todas as notícias na minha mão! Alguém quer o meu laptop emprestado. Eu empresto. Nessa praça não há delinqüentes. Eu empresto para quem quiser interagir na internet!

Juliana e a balconista se entreolharam com ar de espanto. Mas o homem persiste no discurso.

_Sabem o que significa esse laptop na minha mão? Significa que eu me sinto impotente perante todas as barbaridades que eu vejo aqui. Eu não posso fazer nada e o mundo se acabando aqui dentro. Aqui dentro coisa nenhuma! Pergunto à praça e aos transeuntes se não sentem a mesma inutilidade das suas vontades e a perplexidade diante dos fatos, das notícias? Fatos que estão nesta caixinha preta. Fatos que todos nós tomamos conhecimento e pela correria do dia a dia vamos deixando as coisas como estão. Empurramos com a barriga até o dia em que nem o estômago agüenta mais engolir.

A balconista sugere que ele é um estressado e a Juliana concorda. O homem grita nomes. Ele não fala palavrões. Ele grita nomes pessoas importantes e diz o que há de errado com elas. Parece um protesto solitário. Centenas de transeuntes passam e, ele ali, sentado no chão da praça. Um patético protesto.

_Estamos em meio à impunidade!

Nesse momento passa um policial da guarda municipal com a sua bicicleta e para. Ele não desce da bicicleta. Ele espera e aguarda as palavras seguintes do discurso.

_Até que enfim alguém me ouviu!

O homem pega o laptop, guarda na mochila preta, levanta-se e tira a poeira dos fundilhos da sua calça de moletom e segue o seu caminho. Ele segue o caminho com a altivez de quem acaba de cumprir a sua missão.

Juliana termina as compras dos quatro novelos de lã para o cachecol e uma agulha nº6 para tricô. Ela comenta com a balconista que cidade grande às vezes parece duas.

Destino e Sorte

Destino e Sorte.

Destino é o que não se busca na sorte,

Vem pronto. Pode ser o louro e o desdouro,

Transcende: é a inesperada, vil morte,

Deus Rá, o mestre da cor vela de ouro...

Cabal na troça do juízo vindouro,

Desfaz o fato e inverte o suporte,

Objeto e causa do efeito, consorte.

Escárnio grave da confiança, estouro.

Fortuna inata: rebuscado aporte,

Afago, dote inesperado, tesouro

Criado, ápice audaz, miradouro

De fato ornado. Desejada, vem sorte...

Carta de Um Pai para o Filho

Curitiba, 10 de julho de 2010

MEU AMADO FILHO ALBERTO

Eu não espero que você entenda esta carta no dia de hoje. Dez anos não é idade para

saber das coisas da vida, por isso eu peço que você a guarde e a leia para mim nos

seus próximos aniversários. Não tenha pressa em crescer para entendê-la, a sua

vivência será única e diferente da minha e da de todos os homens. Por que é assim?

Eu não sei assim também como eu não terei todas as respostas para todos os

problemas.

Eu acerto e erro. Já tive experiências onde não me saí tão bem o quanto desejava e

tive experiências surpreendentes, quando eu nada esperava e tudo obtive. Eu estarei

ao seu lado para ajudá-lo em todos os momentos em que você precisar. Quero

compartilhar as suas alegrias e elas serão tantas que teremos diversão garantida para

nós dois muitas e muitas vezes.

Um homem, meu filho é forte e fraco ao mesmo tempo. A nossa força pode ser usada

somente para o bem, mas o bem depende da nossa vontade e das circunstâncias dos

fatos. A nossa fraqueza são as mulheres. Elas são independentes, mas ainda precisam

de nós. Um homem precisa saber o seu valor e saber ser amado verdadeiramente.

Um dia você me perguntará sobre como conseguir boas garotas, daquelas que

queiram estar ao seu lado para todo o sempre. Eu te direi as etapas para que você

chegue lá. Eu só posso falar por aquilo que eu presenciei e vivi. Por favor não se

esqueça disso.

Peço que você dê prioridade aos estudos e deixe as festas para o fim de semana. Nas

festas vão aparecer aqueles amigos que se excedem, não seja um deles. Se você não

for capaz de se divertir e extravasar sóbrio, você não sabe se divertir.

Ah, lembrei-me de algo importante! Por mais raiva ou ressentimento que você tenhade mim, NÃO EXPERIMENTE DROGAS ILÍCITAS. Hoje você não tem queixas.

Amanhã poderemos discordar e discutir. Esses debates acontecem. Lembre-se que eu

amo você.

Um dia você vai dirigir. Por favor não tente madrugar em uma festa no domingo e ir à

faculdade na segunda-feira dirigindo. Isso não prova que você é forte, mostra que

você é negligente e imprudente. Não corra demais.

Aproveitando o assunto: Não beba demais. Um copo de vinho faz bem, uma garrafa

nem tanto.

Apesar de tudo, aproveite a vida. Futebol, carnaval e namoradas. Um bom trabalho

digno e você terá a oportunidade de envelhecer. Acredite em mim porque a velhice

pode ser boa com livros, cds e caminhadas diárias. O paladar muda com a idade e um

dia você vai reclamar da empada sem azeitonas.

O universo espera que os jovens homens sobrevivam à sua juventude.

As meninas esperam mais de você do que você possa imaginar. Não se engane

pensando que todas as mulheres são iguais. Elas são iguais e diferentes. Somente

você poderá decidir qual delas você escolherá para a sua companhia. Para que isso

aconteça é preciso sobreviver à juventude.

É interessante. As meninas sobrevivem em maior número. Os meninos precisam se

cuidar. Ah! Hoje em dia acredito que as meninas correm os mesmos riscos que os

meninos.

Meu filho, parece que eu me adianto em dez anos nesta carta. Mas, eu não sei se terei

oportunidade para te dizer estas palavras. O trabalho, a responsabilidade com a casa,

as reuniões na escola onde você estuda. Pelo menos parei, pensei e deixei esta

mensagem para você. Ser adulto pode ser sorte, mas tem muito de arte.

Quando você completar onze anos, você lerá esta carta e eu farei a revisão.

Um grande abraço “FILHÃO”, do seu pai.

PS. Acompanha uma bicicleta nova.

Globalização

clip_image001clip_image002Globalização.

clip_image003Carrossel das vontades e ação

clip_image004Onde nada sabemos. Captamos

As vantagens da bola fração,

A girar e girar. Anteparamos,

Rumo certo e transverso . Gestão

Calculada na máquina, vamos

clip_image005Ao debate. Globalização.

Équo, Cavalo alado e intenção;

clip_image006clip_image007Consideram em nós, que pensamos,

Alugar toda a sorte e a emoção

Governar. Dos fatos zoamos

Em galopes com ordenação

Mundial. Pós-modernos. Estamos

clip_image008Revelados. Civilização.

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Divagar sob as raias da razão,

Respirar novo ar. Começamos

A somar os corcéis e a emoção,

Frequentar muitos povos. Unamos

clip_image010O ideal da quimera, intenção

Na viável batalha, a função

De melhor ser. Interpretação.

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Na Medida

Na medida

Meio copo de água,

Maré vazante,

Luar minguante,

Menor que meia-água.

Meio copo de água,

Passar adiante:

O copo ante

Um mar deságua.

Tomar da água,

Deixar o instante

Somar adiante.

Restar sem mágoa.

Tentação dos Deuses–Poesia e Alimento

Tentação dos Deuses.

Estava na vitrine todo arrumado,

Na prática do ofício de fixar atento

À nata, à cereja, ao doce confeitado.

Amado confeiteiro de um refinamento

Que traz nas mãos doce arte. Ser paramentado

Com vestes impecáveis. De um Comportamento

Amostra de elegância, flanar recatado

De mestre. Almofada, descanso e alento,

Espera dedicada ao bolo caprichado.

Pecado capital,a gula lenimento

Apraz em unidade ao sabor atiçado

Por Ló na antiguidade.Prazer e alimento.

Honra ao Mérito

Honra ao Mérito.

Um poeta solidário

Faz da causa

O seu verso partidário.

Dita a pausa

Um poeta solitário,

Comedido,

No girar contraditório

Tão sentido.

Oração no genuflexório

No seu modo.

Sem temer o tema inglório

Vai em frente,

Tange a pena, peremptório

Segue a gente.

Faz o rumo obrigatório.

Cerzidor

Com um lápis, repertório

De amor

Que o invade compulsório,

Sua dor.

Nascimento de um notório

Escritor.

Do saber um divisório

Construtor.

Sua meta: um ilusório

Contrapor

Ao labor. Um meritório

Vencedor.

O viés conspiratório

De si mesmo.

Joguei Dinheiro no Lixo e Estava feliz

Joguei dinheiro no lixo e estava feliz.

Estava cansada de ficar em frente ao computador para verificar os meus emails. Eu queria sair e ter um computador ao alcance das minhas mãos. Pensei nos custos e decidi comprar um aparelho celular inteligente. Dirigi-me até a operadora, vi o preço do aparelho que eu queria. Passei em uma loja de informática e verifiquei o preço de um notebook.

Pelas vantagens que o aparelho celular possuía tais como câmera de vídeo, câmera fotográfica, mp3, fone de ouvido, internet a qualquer hora e em qualquer lugar, comprei-o. O meu sonho de consumo estava realizado, pelo menos foi o que eu pensei no momento da compra.

Saí e usei o meu celular de todas as formas possíveis e em todos os lugares. Estava orgulhosa de possuir um aparelho tão pleno de possibilidades.

Passaram-se alguns meses e um belo dia, percebi que a câmera fotográfica ficava verde na hora de fotografar. O meu aparelho estava na garantia e fui até a loja falar com a revendedora.

A moça foi atenciosa e me tratou com o respeito e a atenção que um cliente merece.

_Vou verificar o aparelho para a senhora e se não houver indícios de mau uso, eu mesma envio o aparelho para o serviço da garantia.

Eu pensei que tinha usado o aparelho corretamente e fiquei atenta ao trabalho da moça. Eu até sorria com o bom atendimento que recebia naquele momento. De repente, ela ficou séria.

_Oxidação senhora? A senhora não levou esse aparelho à praia. Por favor diga que não!

_Levei e a última foto da memória é a minha foto, tirada pela simpática banhista que estava ao meu lado.

Os olhos da moça ficaram marejados, mas ela continuou:

_A sua câmera fotográfica está entupida com sal, areia e a maresia fez o seu serviço.

Eu pedi que ela dissesse mais sobre isso.

_Observe os orifícios da câmera.

Observei os orifícios que estavam com areia dentro. Eu não entendi. Eu não expus o aparelho a tanta areia assim.

Agora ela me mostra a ferrugem. Eu arregalei os olhos.

_Ferrugem! Como aconteceu isso?

Ela foi direto ao ponto:

_A senhora foi à praia quando estava quente e deixou o aparelho ao lado da toalha pensando que ele estava bem protegido. Estava uma brisa morna e a senhora amou aquela brisa suave e refrescante. O telefone tocou e a senhora atendeu. Aquela paisagem agradável, as companhias mais agradáveis ainda. Se não fossem simpáticas, a senhora não pediria para que a senhora ao seu lado tirasse uma foto sua de lembrança. Estou correta?

Ela não só estava correta como me desconcertava a cada dedução.

_Havia uma areia muito fininha que a senhora não percebeu. Essa areia é a alegria do serviço de garantia dos celulares. Ela entra por todos os orifícios dos aparelhos celulares sem ser vista, passam-se três meses e ela aparece assim, uma parte do celular deixa de funcionar corretamente. Depois disso a oxidação causada pelo sal que atrai a umidade para o sistema interno queima o celular inteiro.

Nessa hora me dei conta que a garantia não cobriria a câmera. Perguntei para a moça e ela confirmou a minha hipótese e ainda sugeriu que eu economizasse para consertar o aparelho.

_Um aparelho desses merece um carinho.

Agora, as lágrimas nos olhos da moça caem com mágoa. Eu pergunto por que ela chora, se fui eu a responsável pelo meu prejuízo.

_Eu nunca manuseio esses aparelhos. Pouca gente compra. Agora que pego em um, ele está com areia. Desculpe-me senhora. Isso é muito triste.

As lágrimas dela me confortaram. Senti-me bem melhor ao saber que o problema era meu e não dela. Joguei a garantia no lixo e não sabia. O meu celular funciona, mas sem câmera. Ah, quando eu puder, eu mando consertar. Deixe assim. Espero que ele não pife totalmente, isso já me serve de consolo. Agora, que fique o aprendizado, celular na praia só levo se custar um real e noventa e nove centavos.

Estava saindo da loja aborrecida, mas conformada, quando veio um colega dela e a abraçou.

_Não chore, os celulares da marca que eu vendo também ficam entupidos de areia.

Eu saí rapidinho da loja quando senti vontade de me sentar ao lado deles e os chamar de queridos. Negócios são negócios, mas eles são bons amigos, colegas e profissionais de gabarito.

Estou com um celular parcialmente danificado e me sinto bem. Pode?

Caminhos

Caminhos.

Ser caminhante, dar passos,

Ir sempre em frente. Abraços,

Risos confiantes. Andar

Sobre o asfalto, voltar.

Sobre as pistas os traços;

Marcas das listras, os calços;

Livre o olhar, contemplar...

Sítio fazendo o luar.

Lume de casa, pedaços

Ante o esplendor dos espaços.

Lentas passadas. Chegar

Ciente de recomeçar.

Dia que termina aos maços,

Lida bem feita, percalços

Bem resolvidos. Obrar

Faz o caminho de um lar.

Microciência

Ciência

A ciência traduz a luz

Relativa da saúde

E, com cautela traduz

À razão: o que é e ao que se alude.

Micro conto

 

Queria tanto que a patroa fosse igualzinha a ela. Um dia conseguiu.

_Hoje sou igual a você, não posso te contratar mais.

Perdeu o emprego.

 

Micro crônica: Hoje saí, vi o que vi e fiz o que quis.

 

Micro crítica

Li, revi, curti e critiquei. Parabéns.

 

Micro ensaio

Vejo tantas atitudes desnecessárias que me preservo. Penso.

 

Micro notícia

Saíram apressadas e puf! O salto do sapato ficou no buraco da calçada.

Micro fato

Hoje estou micro porque do micro se vai ao macro, mas do macro não se chega ao micro. Ensinaram-me.

Uma Hora

Ela acordou naquela segunda-feira bem disposta. Tomou banho e tomou o suco de laranja com
granola. Quando saía de casa a mãe perguntou:
_Já vai filha?
Ela disse que sim e foi ao ponto de ônibus. O motorista disse bom dia a ela. No veículo haviam
apenas cinco passageiros. Desceu no centro. Dirigiu-se ao escritório. Era a primeira a entrar no local
de trabalho. Os seus colegas chegaram atrasados.
Ela adiantou o serviço para ir ao banco antes do almoço. Chegou e sentou-se esperando a sua vez
de ser atendida. Estava apreensiva com medo de perder o horário de almoço quando a senhora que
estava ao seu lado disse que eram dez horas e cinco minutos. Ela disse que no seu celular já eram
onze horas da manhã.
_O horário de verão acabou ontem à noite. Disse a senhora ao lado.
Naquele momento ela se deu conta de que ela perdeu uma hora para o resto dos seus dias. Ela
tinha uma hora inteira para gastar no que quisesse. Uma hora vazia. Ouviu sugestões, mas não
aceitou nenhuma delas. Ela tinha uma hora para pensar na sua vida e no rumo e sentido que
desejava para si. Perdera uma hora de sono, perdera uma hora para conversar com a sua família e
perdeu o café com leite quentinho na cozinha de casa. Conheceu o motorista do ônibus, viu
paisagens que quase nunca tem a oportunidade de ver com o ônibus lotado, caminhou por ruas com
cheiro de amanhecer, viu pessoas com rosto descansado, crianças e mães brincando nas praças.
Abriu o escritório, trabalhou tranquila com toda a concentração desse mundo. O chefe deu
permissão para ela sair e ir ao banco. Ela voltaria ao escritório após a hora do almoço.
Na fila do banco descobre que o fuso horário mudou. Ganhava uma hora para si e estava sem
saber o que fazer com essa hora perdida e achada ali. Saiu do banco. Não era hora de almoço, não
tinha que trabalhar naquela manhã. Olhava as vitrines das lojas sem interesse. Tudo o que queria era
se encontrar com o relógio e afinar os ponteiros de acordo com o novo ritmo. Hora perdida, hora
ganha, hora para se encontrar consigo mesma. Esperou o tempo do relógio passar sentada em um
café. Encontrou-se em um pão de queijo com chá na cafeteria mais próxima do banco e sentiu-se
bem.

E a Copa? Seria Nossa… Poesia

Futebol.

Começo a sentir a torcida se agitar, é o futebol. Copa do Mundo. Todos com a camiseta verde e amarela. É a grande oportunidade para deixar a festa tomar conta da gente. Com moderação, com entusiasmo, com pipoca na frente da televisão. Hora de festejar e soltar os instintos porque a festa está aí.

Assisto os jogos da seleção. Ligo o despertador e levanto de madrugada. Está frio, passo café. Acordo a casa inteira quando tem gol. Não choro na derrota. Critico todos os jogadores e o técnico também. A sorte é que ele não me escuta quando eu digo...(rime com o que quiser).

Descarrego nacional, sortilégio federal. Amor , diversão e arte nos dribles. Comentários estapafúrdios são os meus preferidos. A festa nas ruas e, aquelas lágrimas de quem perde o jogo. Será uma reação natural?

Os enfeites nas casas, edifícios, praças e ruas. A decoração agora é essa. O meu café e as minhas mãos se esfregando uma na outra. Meus pés chutando a mesa junto com o jogador que bate a falta.

Minha posição de campo é qualquer uma. Eu não jogo mesmo. Reparo nos cabelos dos jogadores. Sempre tem um mais exótico, um mais certinho.

Vejo o jogador desbocado levando cartão amarelo. A mãe do juiz não joga e não julga. Penalidade máxima. Se o nervosismo não atrapalhar, aquele...centro-avante ou zagueiro, aquele lá, que enxugou o suor com a manga da camisa. Eles suam muito, que vontade de jogar!

Vou pegar a lã e tricotar. Tomo cuidado para não perder os pontos. Os pontos da agulha. Os pontos do jogo o locutor me diz. Cadê aquela corneta para agitar um pouco mais a madrugada?

É tão gostoso ouvir o barulho dos prédios em dia de jogo. Tem torcedor que pede refrigerante e põe gelo. Eu escuto a gritaria. Falta contra o nosso time. Que canelada, seu perna-de-pau! É o máximo que eu sei dizer.

Que venha o futebol, que a chaleira está no fogo!

Patrulha Ideológica

Patrulha Ideológica

Eu quero ser o caminho,

Palavra escrita e lida,

Memória de contos, vida

Passada a limpo,carinho.

Não posso do destino

Ser escrava. Farei da sina

Um mar de emoções. Nina

Minha alma o desatino.

Espero de mim, ao sino

Bradar, seguir minha giga,

Cantar poemas, eu consiga

Na paz do ato contínuo.

Sou nova na arte do hino,

De versos e rimas à prima

Toar. Não entendo cisma,

Versar sobre desalinho.

Jogo da Velha

Jogo da velha.

Não pare, Resista, Tem jogo,

Repare Revire Respire

Que o mundo o imundo, Bem Fundo.

Gira. Sina Siga.

Segure Cansaço. No campo

Bem firme, Retorne Rebolo

Ao mundo ao fundo. Rotundo,

Diga. Siga. Siga.

Termine, Espere, Descanse,

Rateie Retome, Retiro

O mundo, Seu mundo Do mundo,

Siga. Gira. Vida.

Daiane e a escola

Garibaldo se sentiu feliz ao aderir o plano de demissão voluntária na indústria onde trabalhava. Por sorte, ele já havia conseguido um emprego no almoxarifado em outra montadora de automóveis e não precisaria usar esse dinheiro para se manter até conseguir uma nova colocação.

Chegou em casa, conversou com a Janete, sua mulher e, juntos planejaram o futuro de Daiane, a filha única do casal.

_Finalmente podemos pagar um colégio particular. Vamos parar com todo esse medo que sofremos enquanto ela está na aula. Os professores de colégio particular são disciplinados, planejam melhor as aulas, não estão sujeitos a tantas transferências e mudanças como os professores aqui do nosso bairro.

Janete se emocionou com a novidade. No dia seguinte foi providenciar a transferência da Daiane para o colégio “O Maximo”, que era próximo a casa deles. Faltavam três meses para o fim do ano letivo e no próximo ano a Daiane estudaria o segundo ano do primeiro grau nesse colégio.

Começa o ano letivo. Daiane vai às aulas.

Uma coleguinha de carteira pede a borracha colorida dela emprestada e não devolve. No final da aula Daiane pede a borracha emprestada de volta para a coleguinha.

_Sua borracha? A sua eu já devolvi, essa é a minha, que é igual à sua. Você se enganou. Quer que eu pergunte de carteira em carteira? Será que alguma colega pegou a borracha? Se alguém pegou e não devolveu, é porque esqueceu. Aqui nós somos todas boas meninas. Até amanhã Daiane. Que feio duvidar das colegas! Até amanhã.

Daiane falou com a coleguinha sentada à sua frente e às suas costas. Elas garantiram que a Maria Bela tinha uma borracha colorida igual à sua.

Na saída Daiane vê a sua mãe, a Janete, conversando com a mãe da Maria Rainha. Daiane pensou que era uma boa ideia ser amiga da Maria Rainha.

Daiane e Maria Rainha brincaram juntas duas semanas inteirinhas. Na sexta-feira a sua mãe, a Janete, se atrasou e a menina resolveu conversar um pouco com a mãe da sua coleguinha. A mãe da coleguinha sorriu para as meninas e deu conselhos à sua filha:

_Maria Rainha, eu não quero que você seja amiga de pessoas que não estão à nossa altura.

Daiane conta para a mãe da borracha e da mãe da Maria Rainha. A borracha agora tem etiqueta com o nome da menina. Janete espera alguns dias e convida mãe e filha para irem até a sua casa.

_Sinto muito Janete. Eu e a Maria Rainha temos muitos compromissos. Eu tenho trabalho, festa, empregados, a minha vida é uma correria. A Maria Rainha tem que aprender a comandar e eu a ensino. Tenho a absoluta certeza que a Daiane tem a sua roda social, as suas amiguinhas de bairro, as vizinhas e não sentirá a nossa falta.

Daiane cresce e aparecem as festinhas do colégio.

Enquanto a Daiane passava em direção ao carrinho de cachorro-quente ouve duas mães de alunas conversando:

_A caridade consiste em aceitar bolsistas na escola, conviver socialmente com eles definitivamente não.

_Mantenhamos o nosso padrão. Logo as meninas terminam essa fase escolar e se esquecem dessa gente. Preste um pouco de atenção na mocinha, nessa que usa uma roupa que até é bonitinha, mas sem grife. Ela é um mau exemplo às nossas filhas que podem pensar que se viverão bem longe do meio em que vivemos.

Janete foi conversar com a secretária da escola, que a levou até a diretora:

_A convivência entre elas poderia ser melhor, mas meninas são competitivas. A senhora não percebe o problema dentro de casa porque a Daiane é filha única. Ela tem que se acostumar, a vida profissional é assim mesmo.

Acaba o primeiro grau e Daiane se veste de punk. A antiga professora do segundo ano do primeiro grau repara no jeito de Daiane e pergunta:

_O que houve com você, Daiane?

_Posso ser sincera professora? Se não puder, me avise. Porém não me recrimine.

_Diga o que quiser querida.

_Falam da agressividade dos alunos e, muitos alunos acabam passando dos limites e se acabam em confusões. Sei de cada coisa professora, mas por outro lado, a escola finge que não vê e não ouve a violência nos diálogos que acontecem muito, mas muito antes da agressividade começar. Não existem regras de convivência social nas escolas, ou, se existe, está escondida em alguma sala porque ninguém sabe de nada a respeito disso. Eu achei o meu modelo de adulto ideal. Quero seguir esse estilo.

_Estilo punk?

_ Não. Estilo grunge.

A mestra colocou os seus braços nos ombros de Daiane e ajudou além da moça, a Janete e o Garibaldo.

Daiane encontrou o seu futuro. Vendedora de automóveis de uma concessionária de automóveis importados.

De como a personagem Albina Sobreviveu ao Fim do Mundo

De como a personagem Albina sobreviveu ao fim do mundo.

Fiz um pedido para que a Albina fizesse um depoimento sobre o fato e ela não se fez de rogada e enviou-me esta carta:

“Prezada e gentil senhora, é com prazer que falo deste assunto.

Estava eu ali, dentro da autora, e, ela, pensava que não saberia contar histórias. Eu mostrava fatos pitorescos, cenas tristes das ruas e confesso que até mesmo apelei naquele dia em que eu mostrei um homem de 60 anos saindo de uma caixa azul, vestindo um turbante para se cobrir e com uma lâmpada na mão. Na verdade, a aparência dele era um tanto quanto bizarra, mas um fato desses a duas quadras de um quartel daria uma boa história. Em verdade, ela saiu correndo com medo de ficar ali e ser encantada pelo homem; ou ser apontada como cúmplice do homem pelos moradores do quartel, ou do homem mesmo. Qual é a intenção de um homem que sai de dentro de uma caixa azul fazendo surpresa a todos? Próximo a um quartel? Já comecei a inventar histórias e esse não é o meu objetivo nesta carta.

Um dia, enquanto líamos o jornal e verificávamos a programação cultural. Eu digo “nós”, mas ela ainda não sabia da minha existência. Lemos a propaganda sobre uma palestra. Percebi que ela se interessou porque ela ergueu o olhar para o nada, para uma parede sem quadros. Ah, se dependesse dela, não iríamos aquele lugar. Eu tive que dar uma mãozinha para convencê-la. Ela optou pela ida ao cinema, fui junto. Depois de assistir o filme, ela foi comprar pão para o lanche da tarde. Aquele dia estava realmente quente, o que era a minha sorte. Ela se concentrou no volante e no caminho de casa, que passava naquela rua, que tanto poderia ir ao local da palestra como levá-la para casa. O sol veio de encontro ao vidro da frente do carro. Sem enxergar muito bem, ela colocou os óculos de sol que estavam no console. Ela não sabia que eu tinha escondido os óculos de lente cinza no porta-luvas e havia deixado os óculos de lentes amarelo- escuras, quase marrom, mágicos, ao alcance das suas mãos. Eu estava dentro dela e acompanhei o olhar maravilhado dirigido à árvore florida, que estava na direção do local da palestra. Daquele lado da rua o colorido da paisagem mudou, os idosos ficaram mais belos e usavam as suas rugas para sorrir, as crianças mais rosadas e mais doces do que costumeiramente o são, o jornal que estava no chão tinha um aspecto nobre e envelhecido nas suas páginas amareladas pelo tempo. Ela se apaixonou pelo que viu naquele caminho das palestras. Consegui a minha primeira vitória, ela foi assistir a palestra de um escritor. Uma, duas três...sete. Um ano depois eu estava aqui, nascida de mim mesma, disposta a insistir com ela, caso seja necessário. Nós vivemos bem, eu, dentro dela e ela, escrevendo por mim. Você não imagina o que eu ainda quero contar para que ela escreva. O fim do mundo,ou, o meu fim dentro dela seria se eu não chegasse a ter aparecido, logo eu, que sou tão comunicativa. Hoje eu brinco: o fim do mundo? Deixe para outro dia.

Prezada senhora, espero que goste deste meu depoimento e o guarde em uma garrafa para ser encontrado muitos anos depois.

Respeitosamente, Albina.

Conjugação à Parte–Poema

Conjugação à parte.

Separa na dor, a razão;

Repara teu ser, emoção;

Esquece o destino, prossegue

Qual água da chuva que vai.

Sê forte, atura a missão

Que a terra pertence o teu chão.

Plantar com fervor enobrece.

Almeja o fruto, que és pai.

Prepara a semente, menção

Do sol reluzente à ação;

Fortalece, não esmorece,

Da graça da lida te faz.

Pondera à vontade a visão

Cruel do teu mundo, obsessão

À parte de ti. Apetece,

Da sorte o teu feito te sai.

Cena de Casa–Poesia

Cena de casa

Quero limpar o meu armário.

Guardo o capote e os meus sapatos,

Velhas cuecas para cá;

Mantas de inverno para já,

Uso a peça no casaco.

Lavo coberto, o empoeirado;

Seco sem pressa, com cuidado;

Dobro um quadrado, bem domado;

Largo na cama, enfeitado.

Pronto, está cá. Lindo e engomado.

Quarto arrumado, organizado;

Ar renovado, arejado;

Só na janela, debruçado;

Solta um bocejo, está cansado.

_Valha-me amor, o meu obrigado.

Grata ao rebento, filho amado.

Obra repleta de cuidado,

Casa de mãe. Aconchegado,

Graça completa de um traçado

Mágico, lógico e acabado.

Pontos Cardeais

Pontos Cardeais.

ist1_2926811-compass

Das cidades do Brasil

Pego a trilha, doce rio

Do meu amor. Sigo invento

O seu mapa. Vôo lento.

Chico, velho amigo

Recebi o teu abrigo.

Dá tua paz, teu valor

Mansidão e calor.

Guardarei a paisagem

Abraçada à bagagem.

Dos meus sóis, desde o Rio

Grande amor do Brasil

De Janeiro, Nordeste

Centro-Oeste e Sudeste

Brasileiros, pai celeste

São Francisco, o rio

Da nobreza. Sorrio

Através de um sertão.

Descoberta de um lar

Do tamanho de um mar.

Sou do sul do Iguaçu,

Conheci Aracajú,

Colori meus postais

Com os pontos cardeais

Abrigando doce chão.

Do Brasil, um alazão!

Postura–Poesia

Postura

Censura cortado

Cesura, picado

Lisura, vetado

Luxúria pecado

Procura, domado

Censura, vedado

Cesura, isolado

Loucura, afastado

Lamúria, açoitado

Penúria, coitado.

Censura pecado

Cesura, apoiado

Leitura, tramado

Lhanura, calado

Postura, sentado.

Pérolas

Pérolas  

O alto da montanha é gelado.

Alguns poucos escalam sem temer

O frio, a solidão nesse sofrer.

Tremer em gelo e neve, o ensejado.

A noite espelha um céu, gelo estrelado.

O medo espanta a fé sem se conter.

O vento sangra a alma, dói, faz gemer.

O dia chega com sol, iluminado.

Abaixo, uma cascata d’água, pérolas

Que a chuva vagarosamente chora.

Paisagens tão bucólicas são pérgolas.

Na base está um chalé que rememora

Os tempos já passados. Lindas pérolas

Forjadas na dor. Átimo que aflora.

Crônica do Inusitado

Crônica do Inusitado.

Eu estava conversando sobre presentes alguns anos atrás, quando, um amigo me contou de um presente inusitado que recebera.

_Cada um tem a sua profissão, e esse meu amigo me deu de presente uma faca com a gravação feita a fogo com o nome do cemitério em que ele trabalha. Seria para abrir a correspondência, mas eu lá abro a minha correspondência com faca? Não, não tenho preconceitos e nem medo da morte, mas ganhar uma faca grafada com o nome de um cemitério?

Achei muito estranho.

Perguntei se o amigo disse algo com o que ele pudesse saber o porquê de tal presente.

_Ele me disse que era a propaganda do local. Disse que essa era feita de pura prata.

Novamente perguntei sobre o que ele fez com o presente.

_Guardei. A faca era afiada e coberta com prata. A minha mulher não quis usar na cozinha. Eu também não quis usar essa faca para nada.

Disse que era um presente mórbido. Ele disse que talvez fosse e talvez não fosse.

_Pode ser propaganda, pode ser um mau desejo em relação a mim. Ele trabalha com isso, ele vende jazigos. Eu não sou garoto propaganda de cemitérios. Ele que me desculpe.

Disse para que ficasse longe do sujeito.

O tempo passou. Encontrei o meu amigo de novo. Aquele amigo que se encontra de vez em quando. Nós conversamos, eu lembrei daquele presente e perguntei que fim tinha levado aquela faca.

_Continua guardada. Ninguém lá em casa a usou, mas não a jogamos fora. Ela parece uma prova de um crime que não aconteceu. Eu tive uma sensação de que ele desejava que eu fosse para o cemitério dele. Aliás essa foi uma providência que tomei naquela época, comprei um jazigo no cemitério do concorrente dele. Eu não gostei do presente, considerei de mau gosto, mesmo a título de brincadeira. Ele me conhecia bem. Se ele queria brincar, que me desse uma bebida com a marca do cemitério, com uma piada escrita na garrafa. É angustiante receber um presente assim. Está guardada e para quê? Não sei. Eu sei é que eu não vou jogar fora, nem mandar derreter. Essa história eu não quero que seja esquecida, não quero que seja desmentida. Ganhei no meu aniversário. Doeu receber esse presente. A amizade acabou meses depois que aquela faca se interpôs entre nós. Evito até mesmo falar com ele.

_E ele?

_Ele debocha do meu comportamento.Até hoje ninguém sabe o motivo daquele presente.

Eu e mais alguns amigos comentamos que foi o presente de aniversário mais inusitado e de falta de sensibilidade que já vimos.

Rotina

Rotina.

Eu não venço o dia.

Ele me vence.

É essa correria

Que não convence

Nada à poesia.

A aurora anuncia

Que a ela pertence

Minha simetria.

Mesmo que eu pense,

Ria com alegria,

Que me dispense,

Estantes vazias,

Nenhum suspense,

O labor em dia;

Pedra silepse

Me faz a coxia.

Renascer

Renascer

Hora de parar; refletir.

Há caminhos vários; seguir.

Quero com a paz me encontrar,

Halo de minha alma alcançar.

Obra de levar ao porvir,

Paga de sonhar: existir.

Algo desejar: continuar.

De essa caminhada voltar

Nova; renovada ao devir.

Fé, nova alvorada, insistir.

Prova de mim. Certa de amar,

Órbita completa, sou lar.

Um Cavalheiro

Um cavalheiro.scan4069

Era um homem de setenta anos. Apesar da idade, não era aposentado e continuava exercendo a medicina. Ele era clínico-geral. A sua mulher recebeu um convite de aniversário. Não podia comparecer. Naquele dia acompanhava a filha que ia fazer uma videolaparoscopia para o tratamento da endometriose do útero.

Genésio disse para Filomena não se preocupar. Levava o Arnaldinho para o colégio, o seu primeiro neto, filho da Hortênsia, que é a sua filha.

Apesar de ser médico, no seu consultório aguardava o telefonema da sua mulher dizendo que tudo estava bem, que a Hortênsia já estava em casa.

O telefone toca:

_Fi, como foi o procedimento?

_Ainda não foi. A Hortênsia está fazendo os procedimentos necessários para a realização da videolaparoscopia. Estou ligando para te pedir um favor: você manda flores para a Sibila. Ela foi tão gentil em me convidar. E depois, os filhos moram fora, o marido morreu e ela continua tão doce. Ela poderia ter se transformado em amargor, mas continua do jeitinho dela.

_Pode deixar que eu já ligo para a floricultura. O Tomio é meu amigo, depois eu pago para ele. Por favor me ligue para contar que está tudo bem.

_Está bem. Um beijo. Tchau.

Ele mal desligou e ligou para a floricultura:

_Alô. Tomio? Eu preciso que você mande flores para uma senhora. Ela é muito delicada, doce como jabuticaba madura.

_Pode deixar comigo doutor. As flores estarão lá às três horas da tarde.

Sibila recebeu as flores com surpresa. Trinta e seis rosas na cor champagne sem espinhos. A casa estava com convidadas para o café da tarde. Ela admirou as flores de longe. As convidadas ao verem os vasos com violetas e margaridas que elas trouxeram de presente ao lado daquela enorme cesta de vime cheia de flores sentiram-se enciumadas. Sibila tratou com o mesmo carinho todas as flores recebidas e até comentou com as amigas que a floricultura podia ter se enganado.

Enquanto isso, no consultório, o doutor Genésio recebia o telefonema da mulher dizendo que a cirurgia saíra conforme fora planejada. Arnaldinho estava com ele no consultório e deu vivas ao sorriso do avô.

_Vamos para casa. Está tudo bem. Abraçou o neto e foi com ele até o estacionamento pegar o carro para irem embora.

No dia seguinte, antes de ir ao consultório, ele passou na floricultura para pagar o Tomio.

_Quanto eu te devo com as flores?

_Um salário mínimo.

_Repita, que eu não ouvi direito.

_Um salário mínimo.

Ele pagou as flores e perguntou o porquê do Tomio enviar flores tão caras. Tomio disse que ele havia falado em jabuticaba, uma fruta que causa mal estar a ele, se comida em excesso.

_O que a jabuticaba tem a ver com as flores Tomio?

_Nada doutor. Tomio ria muito da zanga do médico.

_Não é engraçado, mas dessa vez passa, hoje eu estou feliz.

Passam-se quarenta e dois dias. A filha está bem, a mulher e o neto estão bem. É chegada a hora de contar sobre as flores enviadas à Sibila.

_Conte que foi um engano. Eu gosto da Sibila e não quero pensar que você, aos setenta anos está me traindo. Disse Filomena.

Genésio pensou e ligou para a Sibila da sala de casa para que a Fi pudesse ouvir.

_Sibila, amiga de minha esposa. Você mereceu as flores que eu jamais dei à minha esposa.

_Quando eu as vi, eu adivinhei que havia um engano.

_Sibila, quero que saiba que sou um homem espiritualizado. Paguei um salário mínimo pelas flores. Creio que você foi merecedora das flores que recebeu. Um carinho de algum sistema. O Shakespeare falou em breves palavras sobre os mistérios dessa terra em que vivemos. Eu pude pagar e vou perturbar o Tomio, mas a afeição e a coincidência foi o que me surpreendeu. Estou feliz pelas flores que você recebeu. Um abraço meu e um beijo da Fi.

Antropofagia–Poesia

Antropofagia

O ser que se devora sem vontade.

E lenta, a emoção perde a identidade

De si mesmo. Arauto da fortuna,

Lamenta-se. Sucesso da metade

Ausente. Dor ressaca, dor verdade.

O preço pago é vazio, lacuna.

No outro aguça a fome que apetece

De si mesmo, a fome atividade;

Que surge e vem de forma inoportuna.

Anima-se, bicho homem divindade,

Antigo fim será modernidade.

D’uma digna espécie se enraivece.

Capitu, Macunaíma e Carla Aparecida de Menezes

Capitu, Macunaíma e Carla Aparecida Menezes.

Carla Aparecida assistiu a palestra oferecida pela direção da escola aos alunos.

_ “Os livros de leitura obrigatória para o vestibular se encontram na biblioteca. Recomendamos a leitura desses livros durante os quatro anos finais do primeiro grau de ensino. Os alunos podem ler com calma e apreciar o conteúdo dos mesmos”.

Professores a alunos discutiram o assunto em sala de aula e negociaram pontos na média escolar mediante um resumo de livro lido. Antes do teste bimestral uma apresentação é feita para que os alunos mostrem aos seus colegas que realmente leram os livros.

Chega à vez. Carla Aparecida de Menezes é chamada pelo professor, que naquele momento se transforma em Macunaíma e começa a apresentação.

_ Garota, gostei do seu resumo. Apenas uma pergunta e você pode se sentar.

Carla sorri.

_ Capitu traiu Bentinho?

_Traiu sim, Macunaíma. O filho dela, o Ezequiel, em nada se parece com o pai, que é Bentinho.

Macunaíma retrucou:

_O meio ambiente influencia a nossa formação. Será que a presença constante de Escobar naquela casa não ajudou o comportamento de Ezequiel e o menino simplesmente copiou os hábitos do amigo do pai dele?

A garota se desculpa:

_Fui maliciosa e julguei precipitadamente Capitu, que era uma boa esposa para Bentinho.

Macunaíma a provoca:

_Quem disse isso? Bentinho flagrou os olhares de Capitu a Escobar. Não uma única vez, vária vezes.

Carla Aparecida ficou ruborizada e, sem jeito, respondeu que talvez não tivesse lido a parte principal do livro.

_ Professor Macunaíma, eu li com atenção e até posso dizer que me distraí com a leitura. Pelo o que o senhor me diz, eu não fiz tão boa leitura. Eu fiz um bom resumo.

Macunaíma disse que o resumo valia os dois pontos e anotou no livro de chamada.

_ Falta uma conclusão.

Carla Aparecida sentiu vontade de fugir da escola. Os colegas a observavam boquiabertos. O Macunaíma a inquiria. Um colega, que estava sentado na segunda fila, protestou e disse que conhecia a Carla Aparecida e que ele foi testemunha que ela leu o livro inteiro.

Macunaíma não se conteve:

_ Você quer é passar o recreio conversando com ela, anotar o número do celular na sua agenda e afastá-la do estudo. São más as suas intenções. Deixe que eu pergunto.

O menino, de doze anos, fica de mau humor. A sala se assusta com Macunaíma.

O tempo não passa. Quarenta e cinco minutos em meio àquelas perguntas. Uma vez que ele a defende, outra vez que Capitu está nos quintos dos infernos.

Carla Aparecida cansa, perde a timidez, o rubor, a vergonha e o medo da nota.

_ Macunaíma, eu não sei se Capitu é ou não é adúltera. Penso que a vida é dela, o corpo é dela, o marido é dela, e o Escobar, se for amante dela, que se dane. Quer saber? Eles que se resolvam. Não é problema meu, que ainda nem namorei!

Após estas palavras, Carla Aparecida de Menezes tremia. Pálida, olhava para os colegas que retribuíam o seu olhar com uma interrogação. Qual seria a intenção de Macunaíma? A tensão, os olhares que se entreolham no desconhecimento da causa. Um silêncio profundo se faz, nem rabisco de caneta em papel se ouve. Toda a classe se volta para Macunaíma. Faltam cinco minutos para acabar a aula.

Macunaíma olha um por um dos garotos e garotas e quebra o silêncio.

_ Muito bem, garota! Ninguém sabe se ela traiu ou não traiu Bentinho. Essa era a resposta que eu queria.

Toca o sinal que marca o final da aula. Macunaíma sai satisfeito. O próximo a ser lido é ele.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Crônica de Um Congestionamento

Crônica de um congestionamento.

De repente, o ônibus parou. Um congestionamento à frente. Enfado com a certeza da demora e no atraso da chegada. Alguns passageiros acendem as lâmpadas e lêem livros e revistas; outros ouvem música nos seus aparelhos de som portáteis; alguns outros fazem pequenos lanches. Os precavidos avisam a família pelos celulares:

_Onde você está?

_Na serra.

_Em que altura?

Os sons dos celulares se revezavam. Três filas de caminhões dos diversos tipos e finalidades, automóveis de passeio e ônibus lotados de passageiros com destinos diversos morro acima. Avistava-se à medida que as curvas apareciam cordões de luzes vermelhas no alto da serra e abaixo, no pé da serra.

Carros de passeio estacionados em descampados ao lado da rodovia. Motoristas fora dos seus veículos conversando e tomando água.

_Estou sentindo cheiro de fumaça, alguém está fumando dentro do ônibus. Reclama a passageira do banco da frente.

_O cheiro não vem de dentro. A senhora não viu o caminhão ao lado enfumaçando? Ele perdeu uma das lonas do freio. Resposta da senhora sentada nos fundos.

Duas horas se passam e o ônibus não percorre os vinte e sete quilômetros de serra. Naquele momento não estavam em lugar algum, a serra é propriedade da União.

Um rapaz sai do carro paralelo ao ônibus e tenta atravessar a rodovia.

_Que loucura! Passageiros murmuram.

Um caminhão carregado com ácido está à frente do ônibus. Um homem sentado em dos bancos do meio do veículo se apavora.

_Se esse caminhão vazar, todos nós estamos mortos.

_Vire essa boca para lá. Estamos bem. Não se preocupe.

O motor do ônibus morre e o motorista tem que dar a partida. O Ônibus anda para trás ao pegar a partida. Na serra, congestionamento, o ônibus anda para trás. Silêncio sepulcral dentro do veículo. Ninguém diz nada para ninguém.

Os aparelhos celulares voltam a tocar.

_Onde você está?

_Na serra.

_Três horas?

_Pelo menos estamos subindo, vagarosamente, mas subindo.

Uma placa luminosa na estrada avisa da queda de barreira alguns quilômetros adiante.

Avistam-se mais um grupo de motoristas no posto da Polícia Rodoviária Federal. Um motorista sai do seu veículo com pressa e desmaia. Os policiais dão um sinal avisando que ele está bem.

Uma ponte. O caminhão com dupla carreta à frente treme sobre a ponte e ameaça tombar. A ameaça não se concretiza. O ônibus treme ao passar sobre a ponte.

_Deve ser excesso de peso. Essa ponte precisa ser vistoriada.

Tem-se a impressão de se ouvir grunhidos de alguns passageiros. Eram gases e roncos orgânicos de protesto.

Cinco horas de viagem. Os aparelhos celulares disparam sobre os passageiros.

_Estou bem perto, mas indo devagar. Estamos quase no final da serra. O motorista é muito bom. Você me espera mais um pouco? Brinca um passageiro com algum membro da família dele.

O ônibus atravessa o trecho da estrada com barreiras.

_O ônibus está em uma velocidade acima do permitido? Pergunta uma senhora de peruca caída para um lado.

_Nós estávamos quase parando, eis porque estranhamos a velocidade agora.

Sete horas de viagem, das quais, cinco horas passadas em 27 quilômetros.

O ônibus termina a viagem. Confiança renovada dos homens nos homens, nas máquinas e em Deus. Milhares de pessoas dependentes entre si. O sucesso de um é o sucesso do outro. Milhares de pessoas sãs e salvas e sem um arranhão. Nada para noticiar.

Gente

clip_image002Gente.

Gente que eu desconheço,

Encontros,

Abraços.

Gente que eu conheço,

Enganos

Bizarros.

Gente que me conhece,

Lembranças

Passadas.

Gente que me desconhece,

Surpresas

Bem gratas.

Gente que eu surpreendo

Com atos

Estranhos.

Gente que me surpreende

Com mimos

Tamanhos.

Gente que eu amo,

Que eu ardo

Febril.

Gente que me ama

De graça,

Gentil.

Meninos Ao Mar – Poema

clip_image002Meninos ao mar.

Passa um veleiro longe da praia.

Magros meninos correm felizes,

Faz-se nas velas vários matizes.

Ondas, babados, sol que se ensaia.

Homens que pescam grande arraia

Redes de pesca em mãos de petizes,

Festa na areia dos fãs aprendizes.

É caravela nova, se espraia.

Barco navega, some da vista.

Jovens marujos perdem a pista.

Voltam-se ao campo, sós e alegres.

Dormem ao som das ondas entregues.

Cálidos ventos sopram a vista,

Novas marés, corsários imberbes.

O Meu Jardim

O meu jardim.

Menina pequenina,

Bem cedo,

Acorda doce e frágil.

Descobre nova rima

Com medo.

Escreve poesia.

Sofrida a sua sina,

Desterro,

Velhice deixa inábil.

Lembranças de “per si”,

Apego,

Memória que razia.

Amor que ilumina,

Sossego,

Carinho e presságio,

Vivência. A vida ensina,

Remédio,

Saudade que aprecia.

Música–Poema

Música.

Música, musa da antiguidade

Reina absoluta sobre os sentidos,

Cura e afeto para os combalidos,

Moto-perpétuo da mocidade.

Doce vento da perenidade,

Sombra invisível dos tempos idos,

Lumes em claves de sol; sonidos

Para chegar à sonoridade.

Faz-se vibrante, esparge pelo ar

Leve som, signos breves e afáveis.

Rimas são mínimas, tempo arte.

Move-se o fá, o si, sons mais graves,

Graça, conquista em sóis memoráveis.

Ode e canção, ritmo a bailar.

Moeda–Poesia

MoedaMoeda

Gira, gira sem quedar

Sobre o mundo o seu poder.

Abre portas se brilhar,

Vista alegre de se ter.

Corre e muito a espalmar,

Ouro e cobre a alumiar;

Vil metal a se prender.

Sofre, sofre ao se largar;

Sob a terra a se esconder.

Lama, lodo a inundar;

Cara a cara corromper.

Limo e lata a se lixar,

Poço, água a naufragar;

Pede ajuda a quem puder.

Roda, roda, faz vibrar;

Pede paz ao seu viver.

Para o homem cobiçar

Doce reino de entreter;

Casa, lar organizar.

Brinca e chora ao projetar;

Sente, sabe se enganar.

Crônica

clip_image002Senhor Diretor da Revista Pitorescus

Eu, Honório Lápis, empregado desta empresa, fui até a cidade de Copis, meu campo de trabalho, acompanhado pelo motorista, que dirigia o carro da Revista, a fim de estudar o estranho comportamento dos cidadãos daquela cidade.

Cheguei ao hotel da cidade por volta do meio-dia na data de treze de dezembro. O hotel Pitorescus, o único da cidade, é simples e confortável com televisão, frigobar e som ambiente no quarto. Senti o clima que enfrentaria ao preencher a ficha de entrada no hotel. Os recepcionistas falavam apenas o suficiente para atender os hóspedes. Não conversaram, não perguntaram de onde eu vinha. Pediram os meus documentos para verificar a veracidade do contido na ficha. Perguntei sobre os pontos turísticos da cidade e eles me disseram para ir à outra cidade, que ficava a cem quilômetros dali.

Instalei-me no quarto reservado, tomei banho e saí para conhecer a cidade e almoçar em um restaurante. Passei na sorveteria ao lado do hotel e lá obtive o nome e o endereço dos três restaurantes da cidade: Bom Garfo, Gourmet e Sirva-se. Optei pelo Bom Garfo, uma churrascaria rodízio. Pensei encontrar nesse lugar a classe média do local. Restaurante cheio. Comida boa. Fui bem servido em uma mesa co dois lugares. Aceitei o café depois do almoço. Fui bem servido e muito bem isolado. Eu agradeci na saída, pelo bom atendimento e elogiei a qualidade da comida. Muito saborosa, diga-se. Eles sorriram e se entreolharam. Não abriram a boca.

Pensei ter escolhido o lugar errado. Aproveitando para caminhar e ajudar a minha digestão, saí em busca de algo para comprar, também uma desculpa para conversar com os vendedores e vendedoras da cidade.

_Desculpe, não temos o artigo no momento.

Não consegui começar um, um diálogo sequer. Uma cidade sem guarda-chuvas! Pensei na possibilidade de eu ter me transformado em um extraterrestre antes de entrar na cidade. Resolvi me beliscar... A dor era incrivelmente humana.

Passei em frente à igreja. Missa às dezessete horas. Igreja lotada. Por mais que eu sorrisse com ares de indulgência, não fui digno de que um vizinho de banco me desejasse um pouco de paz. Pelo bem da verdade, os meus vizinhos de banco sequer me olharam.

Voltei ao hotel aborrecido, mas concatenei uma estratégia. Fiz um lanche rápido e avisei a portaria que, se alguém me procurasse, eu estaria na praça tomando um ar fresco e lendo um livro.

Saí munido de câmera com microfone embutido e um livro lido pela metade nas mãos. Caminhei cinco quadras até chegar ao meu destino. Ruas vazias, luzes fracas, barulho de cigarras e grilos nos jardins das casas. Sentei-me na lateral do banco de três lugares, de madeira, pintado de branco.

Oito e meia horas da noite. Solidão. Resisto à tentação de voltar ao hotel. Concentro-me na leitura.

Nove horas da noite. Avisto um homem vindo em minha direção. Parece um bom sujeito. Vestia calça social, sapatos esportivos e camisa social de mangas curtas. Eu me animo. Finalmente conseguiria uma entrevista.

Ele se aproxima, eu digo boa noite.

_ Moço, a cidade tem dono. Temos o nosso modo de viver e não gostamos de estranhos. Gostamos menos ainda de gente como o senhor, empregado de revista. Quem manda aqui é o “Seu Napoleão”. Ele organiza tudo por aqui. Ele quer o moço fora, bem longe daqui. Veja que ele é bom, ele está avisando.

Vim embora. Trinta e cinco mil pessoas que aceitam e se submetem ao comando de um fazendeiro, empresário, chefe político e se duvidar, dono de todos os parafusos da cidade.

Diante do exposto, o motivo de uma matéria sem entrevistas.

Respeitosamente,

Honório Lápis.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Microcontos e Trovas

Microcontos

1- Bia vivia traindo, fingindo e mentindo.

Graças à sua doença, compreendeu

Quanto estava errada.

Curada a doença, a alma ficou sadia.

2- Os seus colegas eram um policial federal,

Um militar e dois eram policiais civis.

Agradecia todos os dias,

Porque tinha um bom caráter.

3- O seu amigo ficou doente.

O seu amigo era muito rico.

Ele nada pode fazer.

Sentiu muito a sua morte.

4- Aquela prostituta não é boa e nem má.

Ela é uma prostituta. Pena, pena.

Amanhã é o dia da sua formatura.

Outra moça tomará o seu lugar?

5- Ele era mau. Muito mau.

Escondia as suas faltas.

Quanto pior era,

Vingava-se de si mesmo.

A culpa era o seu castigo.

6- Ele reconhecia

A qualidade dos trabalhos

Seus e dos outros.

Cada dia melhor,

Esforço concentrado no feito.

7-Ela queria o mundo igual a si própria.

Um dia, ela encontrou alguém.

Não viu ninguém.

8-O homem comanda. A mulher obedece.

À mulher compete. O homem agradece.

A mulher faz a escolha do homem?

A escolha é sua: Será?

Trovas

Choro menos do que rio.

Pago menos, hoje vivo.

Cada um compra o que quer,

Riso, pranto e bem-me-quer...

 

Da paz com os outros:

Vivo bem com toda gente,

Trato todos sorridente,

Quer meu bem, eu agradeço;

Quer meu mal? Eu não mereço!

 

Da casa arrumada:

Lavo limpo, bordo e pinto

Nessa lida só, eu não minto.

Digo e sinto o meu prazer

Que é tão bem te conhecer.

Oferenda

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Oferenda

Preto velho rezador

Manga sempre do sofrer,

Cala a mágoa deste amor,

Benze logo se doer;

Solta incenso e mais vapor,

Sopra vento a te correr.

Preto velho, um sonhador

Nessa vida de tecer.

Brinca, ri do seu favor;

Manga pede pra comer.

Pede manga ao Criador,

Dá-lhe manga a se perder.

Preto velho, um coador;

Faz o mal se corroer.

Da visagem, pega a dor,

Sabe o jeito de esconder

Mau-olhado sem temor,

Deixa o siso mangador.

Pintura

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Pintura.

Cores, formas, texturas e sabores,

Água, tinta, pinturas sobre tela.

Graus opacos, sorrisos de aquarela,

Hábeis mestres, sublimes são os pintores.

Pega forma, pincéis são narradores;

Voz e modo selado com cautela.

Grafam, borram metódica cartela.

Claro quadro forjado sob ardores.

Óleos rasgam cordéis que o compõe.

Sete artes, contraste que se investe

Para a obra radiante que se expõe.

Alma aberta aos afetos dos quais veste,

Arma sábia, cultura que se impõe.

Fato, festa etérea. Inconteste.

Zum

clip_image002 Zum.

Abelhas brincam entre as flores;

Na busca ingrata, rumo de mel.

Perdidas, voam ventre de cores;

Nas ruas surgem vindas do céu.

Abelhas zunem, zombam das dores.

Ferrão: do cravo urdido, o seu fel;

Ferido à pronto, lança dissabores.

Alheio aos passos, alhures ao léu.

Metidas, morrem várias em vão;

No cimo, mesa, copos, no chão

Pisadas, n’água fria de sabão.

Obreiras sugam, zoam: ação.

Conduzem finos cones: cartel.

Seduzem belas flores: amores.

O Vendedor de Sonhos

sonhos

O vendedor de sonhos passava todos os dias lá em casa, na Rua das Amoras, para ver se nós, moradores, comprávamos alguns e, quando meus netos passavam o dia comigo, eles adoravam os sonhos de nata.

Seu João era pontual, às três e meia horas da tarde, ele passava na rua empoeirada de saibro, na sua bicicleta bastante usada, mas em bom estado de conservação, pintada de verde-água, com a cesta de vime amarrada na garupa, carregada de sonhos. Ele apertava a buzina do guidão e anunciava os sonhos recheados de goiabada, nata, creme e doce de leite.

Ele ainda hoje chama a todas as senhoras pelo nome de dona Maria. Ele diz que se parar de vender sonhos, ele se acaba em tristezas. O filho é dentista e pode sustentá-lo, mas ele não quer. As conversas com os fregueses, que ele agora conhece os nomes, dão o doce sabor à profissão. As crianças gostavam e ainda gostam de conversar com ele, uma figura querida, de cabelos brancos bem cortados, barba feita, sorriso de piano, vestindo calças e camisa branca com listras finas azuis claras e tênis branco, que usa para indicar a higiene na confecção do seu produto. Ele ainda conta as aventuras da sua melhor amiga, a bicicleta.

No tempo em que eu morava naquela rua, ele dizia que já tinha atravessado um rio raso para fugir dos cachorros ferozes que haviam fugido de uma casa amarela que ficava na quadra debaixo da minha. Nós ficávamos atentos para descobrir o jeito com o qual ele se livrou dos cachorros e como atravessou o rio.

Mudei de endereço. Comprei um apartamento. Meu neto Afrânio mora na casa agora. Ele casou. Apressadinho aquele menino. Estou feliz. Vou ser bisavó. De repente, me deu uma vontade de saber se eles estão bem. Vou telefonar para eles. A Lucinda deve estar em casa.

_Desculpa vó, tenho que desligar, a conversa está boa, mas o Afrânio acabou de abrir o portão na frente da casa e eu tenho que atendê-lo.

_Tudo bem Lu, eu gosto de me lembrar do tempo que eles eram pequenos e fico me demorando ao telefone. Fique à vontade, depois nós conversamos.

A Lucinda ficou triste de não me dar alguma atenção, que ela pensava ser obrigatória. Eu nem me incomodei, mas o fato foi que ela me ofereceu um chá no sábado.

_Vó Esmeralda, venha aqui. Eu e o Afrânio sentimos saudade. A senhora pode passar à tarde, no domingo, com a gente aqui em casa? A mãe vem aqui também. Vou fazer uma reunião pequena, mas há de ser agradável.

Escuto a voz do homem. É o seu João que passa. Mais uma vez com os sonhos.

_Posso chamar o seu João para uma xícara de café? Vocês permitem que eu faça desse homem um convidado?

Eles permitiram, e eu, Esmeralda, o convidei para um café.

Ele agradece e, meio desajeitado, entra na cozinha para um cafezinho.

_Vamos para a sala tomar o café?

A educação no nosso tempo era assim. O vendedor não entrava pela porta da sala a não ser que fosse convidado. Éramos mais amigos do que hoje. As conversas na cozinha geravam confissões. Era bom aquele tempo. Eu fui educada naquele tempo. Deve ser por este motivo que penso assim. Assim, assim e não assado.

Seu João já tem idade, a bicicleta não é a mesma de outrora. A bicicleta é azul clara.

_Nos conte alguma história da sua bicicleta, disse o Afrânio.

Ele conta dos dias de chuva, dos dias muito quentes, ele conta do neto dele, que é técnico em informática. Ele conta e conta e conta. Ficamos em silêncio. Os olhos do Afrânio brilham, os da Lucinda se abrem muito curiosos, os da mãe da Lucinda riem com carinho, os meus se encantam de novo.

As aventuras continuam a encantar as novas crianças crescidas, as que estão por vir e a todos que o conhecem.

- Obrigado pela tarde de hoje vovó, digo eu, me sentindo superior ao tempo. Outros netos que irão compartilhar o café com os sonhos e o seu João.

Arrependimento

Arrependimento.

Divide a faca o que existe e parte,

O que era inteiro vira um pedaço.

E o que era perto está agora em Marte,

Lua minguante no alto do espaço.

Sem gravidade, como descarte,

Corpo celeste sem risco e traço.

A faca algoz não permite aparte

Porque comanda firme o compasso.

Lua cansada se torna cheia,

Iluminada, a Terra clareia.

No esconderijo a faca reflete:

Enrubescida se viu contrita

Sua atitude a chama maldita!

Fender a lua não lhe compete.

Loucura – Poesia

LOUCURA

Onde está a lucidez que eu perdi?

Na razão ou na escada de um lar?

Na canção do poeta que li?

Meu penar não me deixa lograr

As quimeras. Em vão, vêm de mim

Disparates em franco galgar.

Separada de mim, vou por aí:

Estilhaços de espelho. Azai...

Intempérie. Ventar, vem toar.

Breve Ensaio Sobre a Mídia Impressa e a Mídia na Internet

Breve ensaio sobre a mídia impressa e da mídia na internet.

Escrevo sobre a discussão da aceitação e da leitura dos jornais e das revistas impressas ou disponíveis na internet.

Fiz a seguinte experiência neste ano de 2.009: durante seis meses analisei os dois jornais impressos que assinei este ano, o jornal Gazeta do Povo e o jornal Folha de Londrina. Acessei sinultaneamente, pela internet, diariamente. Os jornais O Globo e o Jornal do Brasil, ambos do Rio de Janeiro. Os outros jornais que eu acesso na internet não entraram na pesquisa e fiz um parâmetro entre duas edições de uma mesma cidade, mas de veículos diferentes.

Em primeiro lugar analisei as minhas fontes impressas, as suas notícias, visões, comentários e os seus conteúdos culturais. Analisei igualmente os conteúdos dos outros jornais e as suas disponibilidades para leitura. Essa análise me fez compreender a necessidade de se dar prioridade ao jornal que fala da minha cidade, que é Curitiba. Entendo que as populações vizinhas e da própria cidade de Londrina não podem deixar de ler as notícias da sua região e mesmo assinando os jornais da capital do Paraná, devem acompanhar o trabalho dos seus jornais locais.

Feito isso parti para a comparação da leitura e observei a facilidade com a qual eu consegui ler a mídia impressa. Algumas páginas e cadernos desses jornais saíram de automóvel comigo e frequentaram filas de espera; outras páginas e cadernos eu guardei por dois ou três dias até que eu tivesse tempo para lê-las. Eram assuntos de interesse permanente ou que tinham a ver com o meu dia a dia, ou ainda mereciam uma reflexão para uma melhor tomada de posição frente a um assunto. Os jornais na internet dificultam uma leitura mais detalhada. Eu posso acessar o jornal O Globo do dia de ontem, mas raramente o faço. Quando leio é por uma indicação de um conhecido que me aponta para um artigo interessante. O Jornal do Brasil é de uma leitura mais leve e a sua página principal agrega uma série de conteúdos e uma indicação de artigos que podem ser acompanhados semanalmente e realmente, leio alguns artigos aos domingos. O jornal O Globo oferece um conteúdo completo nas matérias da internet, mas nem todos os conteúdos indicados na internet são liberados ao leitor não assinante. São políticas diferentes, mas válidas.

Parti para uma análise do meu tempo em relação aos diversos conteúdos dos quatro jornais. Se não houve tempo para ler todos os conteúdos dos jornais impressos, o tempo para ler os conteúdos na internet foi menor. A internet cria uma área cega no leitor, que se perde em janelas, guias, emails e, no final das contas, alguns assuntos que seriam de imprescendível leitura não são vistos e lidos.

Com esse estudo aconteceu uma percepção inesperada. Senti falta de uma fonte de informação de São Paulo e de algumas revistas de interesse permanente. Assinei a revista Piauí e não a jogo fora quando acaba o mês. Espero o meu tempo de leitura.

Tomei também a decisão de não ler romances na internet. Com o livro em minhas mãos eu volto o número de páginas necessárias e releio trechos que me pareceram essenciais naquele livro. Os ebooks me trazem poesia, contos e crônicas. Alguns ensaios curtos também são interessantes de se ler.

Cheguei à conclusão que a mídia na internet não substitui a mídia impressa e que ambas são fundamentais para uma boa atualização. Penso que cabe ao leitor a seleção dos artigo impressos e na internet, essa seleção será uma maneira para o leitor se organizar e achar o seu tempo de leitura.

Vazio–Poesia

Vazio

Preciso me esvaziar

Das dores,

Do luto a perdoar.

Preciso me esvaziar

De flores;

Em um pires gotejar.

Preciso me esvaziar

Em águas,

Em lágrimas me espumar.

Preciso me esvaziar

Vazio,

Venha aqui me abraçar!

Vazio de esvaziar...

Calmo,

Sereno, recomeçar.

Confusão no Purgatório

VOLTA AO MUNDO EM DUAS HORAS.

Angelina ouviu no seu rádio-relógio, na segunda-feira, de manhã cedo, seis horas da manhã, que no centro da cidade de Curitiba haveria, durante a semana, uma campanha de prevenção de doenças metabólicas. Resolveu que não perderia esses testes de saúde.

A irmã da moça, Juliana, contrariada, disse para ela que não fosse. Ela era uma menina que possuía certas posses e lá certamente haveria uma população carente, a campanha era dirigida àquelas pessoas que tinham dificuldades para se cuidarem. Ela podia simplesmente usar o plano de saúde e fazer os exames em um laboratório credenciado para ficar sossegada.

Angelina explicou que no centro da cidade os testes seriam feitos com apenas uma gota de sangue e se tudo estivesse bem, ela não precisaria ir até o laboratório colher sangue.

A irmã mais velha torceu o nariz, reiterou o pedido para que ela não se expusesse à toa no centro da cidade. Quanto mais apelava, mais a teimosia encontrava Angelina renitente.

No dia anunciado, Angelina acordou cedo, fez jejum e chamou um táxi que a levaria do bairro Ahú até o centro de Curitiba.

O motorista, um senhor de origem oriental, nascido no Japão, quando soube o motivo da corrida, contou que há dez anos não procurava um médico. Depois que soube que tinha colesterol elevado, triglicerídeos e osteoporose, voltou aos hábitos dos seus ancestrais, começou a comer muito peixe, legumes e verduras e a praticar mini-golfe. Convidou a passageira para conhecer o mini-golfe, um golfe jogado em várias pistas pequenas de cimento com taco e bola específicas para a sua prática. E ele freqüentava porque eram aceitos brasileiros de outras origens naquele clube de tradições orientais. Assim ele conhecera os nossos costumes e passou a falar e compreender a nossa língua.

Angelina agradeceu o convite e, como a corrida terminou, desceu próximo à Praça Osório buscando a tenda branca com os olhos e observou uma fila de sessenta pessoas. Entrou na fila e ficou calada, observando a fila, os seus integrantes e não sentiu vergonha de estar ali, era gente no meio da gente. Uma delícia.

Depois de alguns minutos, Angelina se sentia tão de carne e osso como todo o povo que estava na fila.

Uma emissora de televisão apareceu na praça para filmar o movimento da feira de saúde. A senhora que estava atrás dela se animou bastante com a presença dos repórteres. Perguntou à moça se o seu cabelo estava bom, ansiosa por aparecer na televisão. Angelina riu-se e respondeu que ela estava bem arrumada.

Um louco, daqueles que perambulam pelas calçadas sem eira nem beira, rodeou a tenda branca da saúde. Gritava o mendigo que “o médico tinha que ver a circulação da cabeça aos pés e que só aquilo de consulta não bastava”, o que para ele era pouco. Repetiu a mesma frase tantas vezes que chamou a atenção para si, não somente da fila, mas da equipe de saúde e dos jornalistas. Nisso aparece outro mendigo, que se encostou de um lado da tenda e gritou:

_Basta! Agora é a minha vez de falar.

Na sua frente estavam dois senhores. Um deles comentou que no tempo do chicote, aquilo não existia, ou o homem entrava na linha ou o chicote cantava. O outro senhor confidenciou à moça que o colega era bisneto de um feitor. Ela ficou boquiaberta com a situação.

E a fila continuava com muita gente à sua frente e mais umas cinqüenta pessoas na espera atrás dela, na fila de Angelina. Alguns transeuntes cortavam a fila ao meio para atravessar a rua e brincavam com Angelina perguntando se a fila emprestava dinheiro, ou se a fila era daquelas que valiam à pena. Até mesmo porque naquela manhã fria e chuvosa de quinta-feira as pessoas pareciam felizes e dispostas naquela fila de colher sangue.

O tempo foi passando e a fome de Angelina aumentando. Eram quase onze horas da manhã. Agora estava próxima a sua vez de ser atendida. Já não era sem tempo, pensava.

A enfermeira a convidou para sentar-se e preencher a ficha. Neste instante a pressão arterial do médico responsável subiu. Ele teve uma crise de nervos e dividiu a fila em três. Todos os possíveis pacientes que esperavam na fila e estavam aguardando a vez de a moça ser atendida, passaram à sua frente. Enquanto ela preenchia a ficha, a fila fazia exames.

Angelina saiu da fila e foi tomar um café no quiosque. Ela tomou o café com adoçante pensando nos maravilhosos doces árabes que se mostravam enfeitando o balcão de vidro. Perdeu a pressa e a vontade de fazer qualquer exame naquele dia. Estava se divertindo e se perdeu do seu objetivo inicial.

Apesar da fome, ela voltou à fila. Escolheu a dos exames que a interessavam. Com a determinação de uma guerreira se postou novamente na fila. O médico responsável, ainda atordoado com a quantidade de pessoas, começou a distribuir senhas para o atendimento. Ele mesmo cortou os papéis e começou a distribuí-los modificando novamente a ordem de atendimento.

A paciência da moça foi-se embora. Angelina saiu da fila, olhou a carteira, entrou na loja de som e comprou um cd. Ainda revoltada, foi até uma pastelaria chinesa próxima dali e comprou alguns pastéis para o almoço. Pegou o táxi de volta para casa. O motorista era português. Ela não acreditou porque fora trazida por um motorista japonês do Japão e estava voltando com um português de Portugal. Curitiba tem várias etnias, é uma cidade plural, mas era muita coincidência. Podia muito bem ser conduzida por um polonês, um italiano ou um francês, todos nascidos em Curitiba, netos ou bisnetos de imigrantes. Os dois motoristas eram estrangeiros originários dos seus países. Enfim, o motorista veio de Portugal há cinco anos e disse que o Brasil lhe oferecia oportunidades porque era um país em expansão, o povo vivia contente e dava vivas a tudo.

Chegou em casa. Pagou a corrida e desejou felicidades no seu trabalho na capital do Paraná. Felicidades para o motorista, a sua mulher e o seu filho de cinco anos.

Ao entrar em casa a sua irmã Juliana a aguarda e quer saber o resultado dos exames.

_Exames, que exames? Eu dei a maior volta ao mundo que se pode fazer em uma única quadra nesta cidade. Eu dei a volta ao mundo nas últimas duas horas! Valeu para o resto dos meus dias.

Volta ao Mundo em Duas Horas

VOLTA AO MUNDO EM DUAS HORAS.globo

Angelina ouviu no seu rádio-relógio, na segunda-feira, de manhã cedo, seis horas da manhã, que no centro da cidade de Curitiba haveria, durante a semana, uma campanha de prevenção de doenças metabólicas. Resolveu que não perderia esses testes de saúde.

A irmã da moça, Juliana, contrariada, disse para ela que não fosse. Ela era uma menina que possuía certas posses e lá certamente haveria uma população carente, a campanha era dirigida àquelas pessoas que tinham dificuldades para se cuidarem. Ela podia simplesmente usar o plano de saúde e fazer os exames em um laboratório credenciado para ficar sossegada.

Angelina explicou que no centro da cidade os testes seriam feitos com apenas uma gota de sangue e se tudo estivesse bem, ela não precisaria ir até o laboratório colher sangue.

A irmã mais velha torceu o nariz, reiterou o pedido para que ela não se expusesse à toa no centro da cidade. Quanto mais apelava, mais a teimosia encontrava Angelina renitente.

No dia anunciado, Angelina acordou cedo, fez jejum e chamou um táxi que a levaria do bairro Ahú até o centro de Curitiba.

O motorista, um senhor de origem oriental, nascido no Japão, quando soube o motivo da corrida, contou que há dez anos não procurava um médico. Depois que soube que tinha colesterol elevado, triglicerídeos e osteoporose, voltou aos hábitos dos seus ancestrais, começou a comer muito peixe, legumes e verduras e a praticar mini-golfe. Convidou a passageira para conhecer o mini-golfe, um golfe jogado em várias pistas pequenas de cimento com taco e bola específicas para a sua prática. E ele freqüentava porque eram aceitos brasileiros de outras origens naquele clube de tradições orientais. Assim ele conhecera os nossos costumes e passou a falar e compreender a nossa língua.

Angelina agradeceu o convite e, como a corrida terminou, desceu próximo à Praça Osório buscando a tenda branca com os olhos e observou uma fila de sessenta pessoas. Entrou na fila e ficou calada, observando a fila, os seus integrantes e não sentiu vergonha de estar ali, era gente no meio da gente. Uma delícia.

Depois de alguns minutos, Angelina se sentia tão de carne e osso como todo o povo que estava na fila.

Uma emissora de televisão apareceu na praça para filmar o movimento da feira de saúde. A senhora que estava atrás dela se animou bastante com a presença dos repórteres. Perguntou à moça se o seu cabelo estava bom, ansiosa por aparecer na televisão. Angelina riu-se e respondeu que ela estava bem arrumada.

Um louco, daqueles que perambulam pelas calçadas sem eira nem beira, rodeou a tenda branca da saúde. Gritava o mendigo que “o médico tinha que ver a circulação da cabeça aos pés e que só aquilo de consulta não bastava”, o que para ele era pouco. Repetiu a mesma frase tantas vezes que chamou a atenção para si, não somente da fila, mas da equipe de saúde e dos jornalistas. Nisso aparece outro mendigo, que se encostou de um lado da tenda e gritou:

_Basta! Agora é a minha vez de falar.

Na sua frente estavam dois senhores. Um deles comentou que no tempo do chicote, aquilo não existia, ou o homem entrava na linha ou o chicote cantava. O outro senhor confidenciou à moça que o colega era bisneto de um feitor. Ela ficou boquiaberta com a situação.

E a fila continuava com muita gente à sua frente e mais umas cinqüenta pessoas na espera atrás dela, na fila de Angelina. Alguns transeuntes cortavam a fila ao meio para atravessar a rua e brincavam com Angelina perguntando se a fila emprestava dinheiro, ou se a fila era daquelas que valiam à pena. Até mesmo porque naquela manhã fria e chuvosa de quinta-feira as pessoas pareciam felizes e dispostas naquela fila de colher sangue.

O tempo foi passando e a fome de Angelina aumentando. Eram quase onze horas da manhã. Agora estava próxima a sua vez de ser atendida. Já não era sem tempo, pensava.

A enfermeira a convidou para sentar-se e preencher a ficha. Neste instante a pressão arterial do médico responsável subiu. Ele teve uma crise de nervos e dividiu a fila em três. Todos os possíveis pacientes que esperavam na fila e estavam aguardando a vez de a moça ser atendida, passaram à sua frente. Enquanto ela preenchia a ficha, a fila fazia exames.

Angelina saiu da fila e foi tomar um café no quiosque. Ela tomou o café com adoçante pensando nos maravilhosos doces árabes que se mostravam enfeitando o balcão de vidro. Perdeu a pressa e a vontade de fazer qualquer exame naquele dia. Estava se divertindo e se perdeu do seu objetivo inicial.

Apesar da fome, ela voltou à fila. Escolheu a dos exames que a interessavam. Com a determinação de uma guerreira se postou novamente na fila. O médico responsável, ainda atordoado com a quantidade de pessoas, começou a distribuir senhas para o atendimento. Ele mesmo cortou os papéis e começou a distribuí-los modificando novamente a ordem de atendimento.

A paciência da moça foi-se embora. Angelina saiu da fila, olhou a carteira, entrou na loja de som e comprou um cd. Ainda revoltada, foi até uma pastelaria chinesa próxima dali e comprou alguns pastéis para o almoço. Pegou o táxi de volta para casa. O motorista era português. Ela não acreditou porque fora trazida por um motorista japonês do Japão e estava voltando com um português de Portugal. Curitiba tem várias etnias, é uma cidade plural, mas era muita coincidência. Podia muito bem ser conduzida por um polonês, um italiano ou um francês, todos nascidos em Curitiba, netos ou bisnetos de imigrantes. Os dois motoristas eram estrangeiros originários dos seus países. Enfim, o motorista veio de Portugal há cinco anos e disse que o Brasil lhe oferecia oportunidades porque era um país em expansão, o povo vivia contente e dava vivas a tudo.

Chegou em casa. Pagou a corrida e desejou felicidades no seu trabalho na capital do Paraná. Felicidades para o motorista, a sua mulher e o seu filho de cinco anos.

Ao entrar em casa a sua irmã Juliana a aguarda e quer saber o resultado dos exames.

_Exames, que exames? Eu dei a maior volta ao mundo que se pode fazer em uma única quadra nesta cidade. Eu dei a volta ao mundo nas últimas duas horas! Valeu para o resto dos meus dias.

Sob Encomenda

Sob Encomenda.

Quero que tu faças para a minha graça

Versos caprichados. Deve ser simpática e

Leve a poesia, que esteja junto à praça

Lida, sem o empenho grave da gramática.

Gente conhecida passa lá e se engraça,

Fica em boa forma de maneira empática.

Ouvem com precisa cortesia e ela grassa

Por entre os passantes e seduz enfática.

Sê tu convincente na tua obra inteira

Para que o ledor não se esmoreça em verso

Nem te manifeste em desalinho imerso.

Rindo e divertindo o povo com a beira,

Pára tu e pressente a festa no converso.

Vê tu a primorosa face d’uma leira!

Angústia

Angústia.

Uma folha de papel em branco sobre a mesa, a luz da lâmpada amarela, o homem de olhos vermelhos de tanto esfregar, o café, o adoçante e o pão de queijo. Vivido, sessenta anos, sente a angústia de não conseguir se exprimir. Palavras inexatas de uma insônia insana. As ideias desaparecem em instantes como relâmpagos longínquos. Ele descrevia as tantas emoções já viveu, mas essa era inexprimível.

Cinco anos, um acidente na calçada em obras no centro da cidade. Os joelhos esfolados e as calças perdidas com aquele dois rombos na altura dos joelhos. Doeu um pouco, mas não o bastante que o impedisse de dirigir de volta para casa. Os transeuntes o olhavam como a um mendigo quando ele foi em direção ao seu carro estacionado numa vaga apertada e a uma sensação estranha percorria os seus pensamentos.

Em casa, tirou as calças e colocou uma bermuda, fazia calor. Lavou os joelhos com água e sabonete, passou água oxigenada 10 volumes e sentou-se no sofá da sala com um jeito apatetado. Não tinha o que fazer, o dia de trabalho no consultório estava perdido. Dentista há trinta e seis anos. Dez anos na cidade de Carlópolis examinando e tratando de bocas e dentes com problemas. Às vezes, dores de cabeça ocasionadas pela má oclusão dentária. De repente percebeu o engano que fora aquela formatura em odontologia. A cada dia que passava, mais ele pensava em dar uma prótese dentária para os seus pacientes e não vê-los nunca mais. Antes dos joelhos esfolados e das calças rasgadas ele já estava na miséria. A miséria que a odontologia significava na sua vida.

Lembrou do último congresso no qual esteve presente. Era um extraterrestre no congresso. Não se entrosou com a turma. A coordenadora bem que quis animá-lo naquele jantar de 2.004, mas o que ele sentiu foi a angústia de estar longe de casa.

Os joelhos ali, em cima da banqueta de madeira em frente ao sofá, latejando. Foi naquele dia que ele largou a carreira, se afastou dos amigos e resolveu mudar de vida. A vida mesmo vivida de calças rasgadas e joelhos esfolados poderia ser melhor do que aquele amargo que sentia ao adentrar o consultório sorrindo, com os seus dentes brilhando e dizendo que não ia doer nada enquanto o paciente estivesse com a anestesia. Dependendo da situação, depois da anestesia viria o atestado médico e a recomendação para as aplicações de bolsa de gelo para evitar sangramentos desnecessários.

Pegou o telefone, a agenda, e, ali mesmo, naquele sofá, ligou para todos os seus pacientes e transferiu-os para os seus colegas da clínica.

Os colegas interferiram tentando mudar a sua atitude, mas cada palavra servia de reforço para a sua tomada de decisão. Vendeu a cadeira e os instrumentos de trabalho. Ficou sem nada. Mesmo que quisesse não voltaria à antiga profissão.

Conhecedor de higiene, rapidamente conseguiu a licença da prefeitura de Carlópolis e começou a fabricar salgados assados. Queria trabalhar. Alugou um quiosque no parque de diversões para vender os seus produtos. Os seus clientes continuaram os mesmos, se tornou conhecido na cidade como o doutor que virou vendedor de salgados.

O que angustiava era não ter contado ao Renato, o seu filho, também dentista, que mudou de profissão. O filho seguiu a profissão do pai e foi mais longe. Era professor de uma conceituada universidade em Lisboa.

Aquele segredo mantido discretamente do filho era o tormento, motivo da angústia e de noites mal dormidas com a consciência pesando.

Esses pensamentos que surgem a noite durante as conversas com a mulher só aumentam o remorso. Educaram o filho para se transformar em um homem de bem. Homens de bem não enganam os filhos. Pegou firme a caneta, a empunhou como um soldado quando vai à guerra e escreveu:

“Meu filho,

Embora pareça tarde para ensinar as coisas que acontecem na vida, há um ensinamento que eu não te passei, no qual eu falhei. A questão é sobre a grande certeza que se tem nesta vida. E, por favor, não me leve a mal. Estou bem de saúde e o assunto não é a morte. Tenho certeza que alguém em algum lugar nesta cidade perdeu uma lente de contato. Ao comer os morangos com nata servidos no restaurante do parque de diversões ao lado do meu quiosque de salgados, quase me afoguei com ela. Ela grudou em um morango e eu a retirei com o polegar e o indicador de dentro da minha boca.

Beijos do teu pai e da tua mãe.”

Finalmente Renato pai teve uma boa noite de sono abraçado à sua mulher.