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terça-feira, 25 de maio de 2010

Maio é o mês das noivas. Conto O Casamento publicado em coletânea.

O Casamento. Isso aconteceu no ano de 2.001, quando um casal de amigos casou a filha. Quatro meses antes do casamento, o pai da noiva pediu para ter uma conversa particular com o genro. A Laura, a mãe da noiva, temeu pela filha e pelo casamento pensando no gênio do marido. O Ernesto era muito sisudo. Ainda mais quando se tratava da filha. Ela era muito curiosa e foi proibida pelo marido de ouvir a conversa. Laura me pediu para ouvir a conversa dos dois, que seria numa confeitaria da cidade. A confeitaria possuía espaços reservados e só havia uma pequena janela que ficava no alto da sala. No lado de fora, do outro lado da janela, estavam as mesinhas ao ar livre, num pátio decorado com vasos de flores. No princípio eu não aceitei fazer um papel desses, mas quando ela me disse que se eu não o fizesse, ela pediria à zeladora do prédio onde eles moravam que fizesse a escuta, eu aceitei. Fiquei com pena do jovem casal. Eles não mereciam passar por isso. Eu, que gosto de finais felizes, resolvi que o casal seria feliz. O moço era de boa índole, gostava de trabalhar e era educado com a noiva. A moça era de uma delicadeza ímpar para com o noivo. Eles estavam calmos, mas os pais agitados demais, na minha opinião. Fui no dia marcado até a confeitaria. Quando o sogro e o genro chegaram ao local, eu me posicionei do outro lado da janela em uma mesa de madeira de imbuia coberta com uma toalha branca, com quatro cadeiras. Naquele dia eu fiz um almoço leve e na confeitaria pedi um café colonial completo, me preocupando mais com o meu lanche do que com a conversa ao lado. De qualquer maneira, o Ernesto começou a falar e eu o ouvi. Começou a discorrer sobre a lua-de-mel, e disse ser o paraíso na Terra para aqueles que se amam de fato. _ Você está feliz, sem dívidas, e o seu pai chega no momento em que você leva umas bolachinhas e suco de uva em uma bandeja para servir à sua mulher. Ele diz que você está incorrendo em um erro grave e que vai acabar sendo capacho da sua mulher se não se cuidar. A mãe da moça chega quando ela dedicadamente e até orgulhosa da atividade, passa as suas cuecas de seda. Diga-se de passagem que as primeiras cuecas do marido são da mais pura seda na opinião da jovem esposa. A mãe diz para a filha que o tempo da escravidão já passou e pergunta quando acabará a folga do marido. Os dois vão torcer para que a festa acabe logo e a vida profissional recomece. Chega a rotina, vem a alegria e o gasto com as crianças. O noivo o interrompeu, cauteloso com o rumo da conversa, para saber, afinal, onde é que ele, o sogro, queria chegar. Ernesto respondeu que ao invés de dar conselhos sobre o casamento, ele preferia contar a sua vida de casado e que Dirceu aproveitasse a sua experiência como quisesse. __Quando a união for formalizada, com o sim, você, Dirceu, ganhará uma família de quinhentas pessoas. Pessoas essas que te chamarão de primo e se você tratar a todos como primos, você morrerá em breve com a pressão arterial alta. Não queira visitá-los. Os aniversários da família bastarão para você se estressar. Eu não quero a minha filha viúva tão cedo. A Renata é tão doce, não merece ficar viúva e família é que nem remédio, em doses excessivas é veneno. Dirceu não abriu a boca e deixou o sogro continuar. _Eu estou casado há vinte e seis anos com a Laura porque eu nunca fui naquelas festas de oba-oba lá no escritório onde as conversas giram em torno da vida sexual das colegas mulheres. As colegas que gostam da noite não são da minha conta. Outro aviso importante é sobre as pessoas que tentarão te arranjar amantes. São aquelas que estão acima de qualquer suspeita, os teus cunhados, os teus sobrinhos quando forem crescidos. Infelizmente, as piores traições começam dentro de casa e com as pessoas nas quais depositamos confiança. Eu contei à Laura que o irmão dela me convidou para uma saída extraordinária após a partida de futebol do São Paulo. Ela não acreditou em mim. Até hoje o assunto é motivo para uma conversa mal-humorada entre nós. Vem à minha lembrança neste momento um caso no qual eu não tive a menor culpa e é motivo de dúvida até hoje para a Laura. Ela discutiu com a vizinha, a dona Rute. Ela teimava em colocar o lixo dela na nossa lixeira e a frente da nossa casa ficava feia com tanto lixo aparecendo. A frente da casa da vizinha ficava limpa e a da nossa casa, suja. A vizinha, de vingança, disse que quis chamar a atenção porque eu tinha um caso com a bela vizinha da quadra abaixo de onde nós morávamos. Ela disse que queria prevenir e ajudar a acabar com este romance. Romance que nunca existiu. A Laura me dava indiretas todos os dias sobre amantes. Aí eu comecei a olhar algumas vizinhas, que eu sabia que eram fiéis aos respectivos maridos e namorados, como mulheres e não mais como vizinhas. Eu disse para a Laura que se ela não parasse de falar em mulheres eu acabaria arrumando uma fora de casa. Falei sério. Fiquei muito nervoso com a aporrinhação. Ela chorou. Não tocou mais no assunto, mas desconfia até hoje. Hoje eu rio com o ciúme dela, mas na época eu não suportava mais. Dirceu o interrompeu para o apoiar. _ Meu prezado futuro genro não faça isso. Não me apóie nesse assunto que a Laura impedirá que você suba ao altar para se unir à Renata. A Laura é muito curiosa e até nem sei como foi que eu consegui falar com você sossegado, do jeito que estou falando agora. A essa altura me achei uma anja gulosa. Comer e ouvir e depois dar a minha versão final, que delícia. Graças a Deus eu tenho um bom coração. Estava pensando no quanto a minha amiga tinha sido irresponsável ao me dar uma missão deste tipo, quando a conversa continuou lá dentro. _A Renata é jovem ainda e certamente irá pedir conselhos à mãe. Mesmo cuidando com o que fala, seja sincero com ela. Eu a eduquei para agir com bons modos e pelo que tenho observado ela te conta tudo o que sente. Cuidado com a sogra. Eu conheço bem a Laura e ela pode, mesmo sem querer, te meter em encrencas. E eu falo dessa maneira porque entre mim e a Laura existe uma cumplicidade. Ela me defende dos meus defeitos e eu a defendo dos dela. Por favor, depois de casado peça para a sua mulher o respeito ao lar que vocês formaram e que os problemas fiquem por lá mesmo. Não os dividam com a mãe, a tia, a madrinha ou a prima. A não ser em caso de doença ou desemprego. Nem com a família dela e nem com a sua. Você sabe como está o seu senso de humor em um certo dia, mas o da sogra nem Deus adivinha meu genro. O genro concordou meneando a cabeça para frente. O sogro continuou a preleção dizendo sobre as desavenças. _Todos nós, em dias desafortunados somos capazes de dizer o que não queremos e nunca pensamos ser capazes de dizer com o intuito de magoar aqueles que nós amamos. Paciência. Acontece. O importante é não ultrapassar as palavras. Saia até a raiva passar. Ela passa. Eu sei bem disso. Houve um dia em que voltei para casa me sentindo humilhado pelo meu chefe de departamento e quis dividir o ressentimento com a Laura. Ela havia despedido a empregada. Naquela época estávamos abonados e pudemos contratar uma empregada. Eu não sabia da demissão. Ela ficou a favor do meu chefe. Depois de cinco dias nos quais não trocamos uma palavra, ela me contou que no ambiente de trabalho havia muita gente conversando ao mesmo tempo e a concentração dela no trabalho estava péssima. Chegou em casa e a Fernanda, que era a nossa empregada, queimou a calça preferida da Renata com o ferro de passar roupas e a Renata retrucou dizendo que aquilo havia sido feito de propósito. A Renata era adolescente e a Fernanda respondeu para ela. Aí, eu entrei e me queixei. A casa quase pegou fogo naquele dia. Eu continuava ali na confeitaria, cansada da comilança, ouvindo tudo, irritada comigo mesma, me sentindo a pior das bisbilhoteiras. Pensei em adentrar a confeitaria e contar tudo. Se eu fizesse isso, o Ernesto sairia de casa para espairecer, mas quando que a raiva passaria? Antes do casamento? Neste momento o Dirceu começou a falar dele mesmo, eu gostei de ouvir ele falar e não saí do meu posto. Com educação agradeceu ao sogro e disse que ele certamente estava preparado para criar uma família. Disse que queria uma família, com os acertos e desacertos que acontecessem. A família dele também tinha as suas situações embaraçosas. Pediu ao sogro que não conversasse com o pai dele sobre aquele encontro. A essa altura paguei o café e saí. Fiquei sem jeito. Eu estava ali para saber o que o Ernesto queria conversar com o Dirceu. O que o moço sentia ou a vida íntima dele não era da minha conta. Não contei para a Laura o teor da conversa, que realmente era séria, mas era particular. Disse que não consegui ouvir nada porque os freqüentadores da confeitaria estavam muito falantes e as vozes se misturaram. Me fingi de surda e disse a ela para confiar mais no Ernesto. Ele, que sempre fora sério, não haveria de causar constrangimento ao Dirceu na véspera do casamento. A cerimônia foi bonita, o jantar estava bom e a conversa agradável. Na saída da festa a Laura me pediu desculpas e pediu o meu sigilo. Eu sorri e respondi que ela jamais confiasse a sua filha à zeladora do prédio onde residia a sua família. Eu guardarei o segredo e não conheço ninguém em que eu confie o suficiente para controlar os passos dos meus filhos. Espero sinceramente que a conversa desses dois seja lembrada por eles como um momento bom. O meu presente de casamento não foram aqueles castiçais, foi a minha discrição diante de tudo o que eu sabia a respeito daquela família. E se não fosse eu? A crônica seria outra.

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