Lugares Bonitos

Lugares Bonitos

http://frasesemcompromisso.blogs.sapo.pt/

O blog da Nina, menina que lia quadrinhos.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Vamos orar por nossos amigos / postagem especial

Orar pelo próximo é unirmos ao Bem Maior que há no mundo.

Deus nos abençoe nas nossas boas intenções.

Um abraço, Yayá.

Corolário Epistêmico

Corolário Epistêmico

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Esse amor, Rio de Janeiro,

Vem nesse ar de mar inteiro,

De um passeio e de Ipanema

Com seu charme de Iracema.

 

Do cajá e de fevereiro,

De uma casa de ferreiro,

Se conjuga o sol em tema,

Ao cantar verso em fonema.

 

Nesse mar alvissareiro,

No quiosque de um doceiro,

Amendoim se faz poema,

Passarinha em seu cinema.

 

Esse amor que é de janeiro,

Num carinho bagunceiro,

Trouxe paz, findou dilema;

Quero mais desse problema.

 

Não sabia que esse carteiro

Me traria do seu canteiro,

Esse bem, esse episteme,

Corolário de um sistema.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Ócio de Verão

Ócio de Verão

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Desocupado poema

No seu calor preguiçoso,

Sem sombra ou rede ou cinema,

Nenhum gelado ditoso.

 

De nordestino teorema;

Às tais paragens, ocioso.

Nenhum refresco de tema:

Calor..., calor engenhoso.

 

Vem fevereiro e, de emblema,

O mês inteiro manhoso,

À Curitiba da gema,

De clima frio, ou, duvidoso.

Sobre a Complexidade da Existência da Alma/ Filosofando…

Sobre a Complexidade da Existência da Alma/ Filosofando

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O ponto comum entre as diversas correntes do pensamento humano é a existência da alma, com diversas denominações tais como espírito, dentro da vida.

Considerada como o meio da comunicação com o divino nessa existência, ela tem a função prática da manutenção da condição espiritual do homem enquanto animal racional que é.

A alma de cada um, no entanto, desenvolve o seu relacionamento particular com a existência extracorporal, chamada divina por livre arbítrio.

O mistério da existência divina é então revelado ao ser humano conforme a sua ligação com Ele, respeitadas todas as características individuais de cada um.

Interessante é observar que o relacionamento individual com o ser divino dificilmente pode ser transmitido de forma satisfatória de uma pessoa para outra pessoa.

Dessa forma, temos a partícula divina não revelada e sem contato com as dificuldades humanas, mantendo-se num plano superior ao da condição humana.

A alma existe independentemente da vontade humana, muito embora o ser humano possa buscar o contato com a situação divina de acordo com a sua vontade.

O contato da partícula divina com o humano ocorre nesse plano superior e nem sempre entra em contato com a vontade humana em particular.

Esse contato divino com o humano se fosse possível a sua tradução física, explicaria algumas relações interpessoais de afeto não conduzidas por nenhuma vontade humana, mas conduzidas pelo amor entre os seres humanos. Não digo dos amores catalogados e familiares a essa condição como o aperto de mãos e a convivência social.

A condição divina da alma permite o inesperado reencontro de almas distantes, bastando para tanto que essa condição de amor exista dentro da alma nesse seu relacionamento particular com a existência divina.

Assim acontecendo, o que é para ser triste, pode ser bom, dependendo da disposição da alma em contato com a partícula divina, que, em última análise, determinará a experiência e o seu reflexo no plano físico.

Não existe relatividade no contato divino, existe a determinação divina diante das circunstâncias encontradas no plano físico da condição humana.

Diante da busca humana, a condição divina decide.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Boa Música

Boa Música

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Sempre há o amigo gozador, aquele que não perde o amigo porque não o desmerece com as piadas.

A amiga Dione brigou com o namorado. Embora ninguém comentasse, o namoro era considerado desfeito desde o final de semana no qual ela saiu com os amigos comuns do casal e não convidou o Dirceu, seu namorado que havia ficado em casa pensando que ela passaria a noite estudando para o vestibular.

O amigo do Dirceu convidou-o para sair na semana seguinte. Foram em lugares dançantes.

Dirceu não olhava para nenhuma garota e, o amigo, consolou-o:

_Dirceu, não existe somente uma Maria na face da Terra, pois a única foi uma e foi santificada. Se você continuar assim, logo acorda sem saber o que é namorar. As garotas, em geral, são boas moças, sinceras, querem compromisso sério. Vamos nos divertir enquanto você não encontra a sua cara metade.

Saíram algumas vezes e o Dirceu, aborrecido.

Ele telefonou várias vezes para a Dione, mas ela perdera o interesse nele, o jeito era se conformar.

Dirceu era um bom sujeito, mas nenhuma garota o interessava de fato. Preferiu ficar sozinho a namorar por namorar.

O amigo não desistia de fazer Dirceu contente:

_Eu sou bom e sei que existem muitas garotas boas para se conversar. Nós vamos sair até que você encontre-se com uma delas.

A companhia do amigo era boa e distraia a tristeza do Dirceu. Ele e o amigo ficaram parceiros das saídas dos finais de semana.

Um dia, sentados na calçada do Largo da Ordem (Ponto de encontro de jovens e intelectuais na cidade de Curitiba no mês de janeiro, mês da Oficina de Música de Curitiba), voltaram ao papo sério do Dirceu.

Não se sabe de onde, chegou uma moça, sentou-se no colo do Dirceu e o beijou várias vezes no rosto, dizendo que não mais frequentaria o Largo da Ordem após a resposta do Dirceu se queria ou não namorar ela.

O amigo virou-se para o Dirceu e disse:

_Não te falei? Você é que está cego para as boas garotas.

Dirceu convidou a moça para sentar-se à mesa com eles e conversaram até o amanhecer.

Questão resolvida. Dia sem estudo é dia de música falada.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Treinamento

Treinamento

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Certa vez, um gerente de recursos humanos de uma empresa, propôs aos funcionários em condições de participarem da sua equipe, o seguinte exercício: passaria uma semana inteira pensando apenas nos próprios interesses, dando prioridade aos seus interesses sem pensar na empresa, na família, nos assuntos da comunidade em que viviam, enfim, viveriam em função deles mesmos. O exercício também consistia em não fazer mal a ninguém, mas não intervir nas maldades dos outros, deixando que cada assunto que não fosse o próprio interesse ficasse à parte da vida deles.

Passada a semana ele chamou os funcionários para uma reunião onde as suas experiências seriam compartilhadas com os colegas. Nessa reunião todas as emoções sentidas durante a semana seriam compartilhadas.

Chegaram os funcionários, todos aborrecidos, alguns irritados e outros, tristes.

A reunião começou e os relatórios anotados foram expostos aos demais colegas.

O gerente de recursos humanos pediu para que alguns funcionários fossem à frente da sala e dissessem das suas emoções.

Adalberto foi o primeiro:

_Amigos, é difícil pensar desse jeito. Normalmente estou envolvido com a comunidade, procurando as melhorias possíveis no que tange a qualidade de vida para todos. Mas nesse tempo, observei alguns problemas com a condução das necessidades da minha comunidade e hoje me sinto omisso. Não sei se aguentaria mais uma semana sem me envolver com eles, eu realmente gosto da minha comunidade. Dentre o que observei, as premissas falsas foram as que mais me incomodaram. Mas eu estava em treinamento e pensei em mim mesmo. A vontade que eu tenho é sair dessa reunião e ir até lá para dizer o que pode ser feito e onde estão os nossos problemas. Aliás, vou dizer a vocês agora, a fiação elétrica precisa de reforma, senão haverá falta de luz cada vez que um único passarinho pousar na rede.

O gerente riu-se porque durante a reunião de recursos humanos ninguém o poderia ajudar e disse que podia se sentar. Não demoraria muito e ele poderia voltar para casa para discutir o problema da falta de luz com os vizinhos.

O gerente chamou Efigênia para contar da sua experiência:

_Eu perdi o treinamento. Eu quis pensar somente em mim, mas um amigo precisou de ajuda. O problema dele era emocional e, como eu o conheço há muitos anos, eu conheço as dificuldades pelas quais ele passou. Estou me sentindo ótima, mas, se eu tivesse pensado em mim mesma, eu teria ido ao desfile de modas que antecipou a próxima coleção outono-inverno. Eu não estou arrependida de perder o treinamento porque o momento para o qual eu me dediquei essa semana foi bom.

Ao ouvir essa história, outra participante pediu a vez para falar e o gerente, permitiu:

_Eu estou me sentindo péssima pelo mesmo motivo. Um amigo precisou de ajuda, mas eu fui ao jantar de inauguração de um restaurante. O meu amigo conseguiu a ajuda de que precisava, mas a mágoa que eu causei nele me fez chorar. No entanto, eu quis fazer o treinamento e fiz direito, é o que importa.

O gerente de recursos humanos não comentou e pediu para que a Efigênia se sentasse.

O Nivaldo pediu para contar da sua experiência:

_Eu pensei que seria fácil. Saí daqui fui para casa, avisei a todos que passaria uma semana em treinamento e pedi que todos os problemas que surgissem fossem resolvidos por eles, pois enquanto isso eu ficaria pensando em mim e fazendo tudo o que me interessasse fazer sem pensar em ninguém. Estou aliviado que a semana tenha chegado ao fim. Vi a minha mulher pagando dez vezes vinte reais a mais numa panela enquanto eu estava no café com alguns amigos que eu não via há tempos. O meu filho de quinze anos colocou alguns piercings no nariz e está parecido com um índio botocudo, mas ele pagou com a mesada e eu não me meti com ele. Conversarei com ele hoje à noite. Eu não sei se sou desatualizado, ou se ele se aproveitou da minha semana de treinamento. É impossível se ter uma família quando se é egoísta. Eu fui egoísta, pensei apenas no meu treinamento e agora estou com uma panela de pressão de inox na cozinha que custou quinhentos reais. Vocês sabem o que ela faz com a panela de pressão? Ela cozinha meio quilo de feijão por semana. Pelo menos ela gastou o dinheiro que sobrou do mês passado...

O gerente pediu a ele que parasse. Disse ao funcionário que estavam em reunião, não num confessionário medieval. Ainda assim, preocupado com as consequências no relacionamento familiar, perguntou se entre ele e a esposa o relacionamento estava bem.

_Entre eu e a minha mulher as coisas não estão bem, melhoraram significativamente. Eu pensei em mim e ela pensou nela e chegamos a um acordo satisfatório.

O gerente de recursos humanos estava satisfeito.

_A semana foi produtiva e todos estão de parabéns, inclusive a senhora que chorou, mas não ajudou o amigo. Quem somente pensa em si mesmo sofre e não estende a mão a ninguém. O objetivo dos recursos humanos é realizado a partir do princípio de que todos participam de uma comunidade, no nosso caso, a empresa. A empresa diminui o seu lucro à medida que os seus funcionários trabalham insatisfeitos. A satisfação do funcionário é sinônimo de lucro. Nenhum empresário se motivaria a lidar com recursos humanos se não houvesse retorno para o seu negócio. No entanto, o nosso ponto de vista dentro da empresa é que não existiria empresa se não existisse o homem e o homem feliz trabalha melhor. Essa é a premissa da existência do departamento de recursos humanos dentro de uma empresa. Aqueles que se dispuserem lidar com os nossos ideais terão o desempenho financeiro da empresa em plano inferior ao da boa condição de ambiente de trabalho para o funcionário.

Um lanche foi servido aos participantes. Os funcionários participantes estavam contentes pela ausência da pressão psicológica por parte do gerente de recursos humanos da empresa. A empresa estava de parabéns e era bom estar ali.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Lógica

Lógica

Papai diz a verdade,

Mamãe diz a verdade.

Papai é pura lealdade,

Mamãe, fidelidade.

Papai é carinhoso,

Mamãe é doce gostoso.

Papai nunca mentiu,

Mamãe assim consentiu.

Papai é bem responsável,

Mamãe é bem responsável.

Nesse poema perfeito,

Resta um passo refeito.

Foi a do dia de mentir,

Esse dia há de sorrir.

Papai diz a verdade,

Mamãe diz a verdade.

Papai é pura lealdade,

Mamãe, fidelidade.

Papai é carinhoso,

Mamãe é doce gostoso.

Papai nunca mentiu,

Mamãe assim consentiu.

Papai é bem responsável,

Mamãe é bem responsável.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Um Homem Triste

Um Homem Triste

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Aguinaldo tudo tinha, vida boa e confortável, estudos e princípios, elegância e espírito aguçado.

Filho de industriais, buscava no conhecimento o sentido de existência tão magnífica em meio a esse mundo repleto de contradições irrelevantes.

Levantava-se cedo, caminhava nas areias de Guarujá, trabalhava disciplinadamente e à noite, metia-se em estudos existenciais.

O seu pai, preocupado com o filho, que, tendo tudo, não saía para se divertir, era introspectivo e guardava para si todo o questionamento que a sua filosofia trazia, comentou sobre o filho com a esposa.

Houve depois, um dia no qual sua mãe o chamou para conversar.

Aguinaldo, de espírito humilde, contou à mãe que o seu objetivo de vida era estudar a espiritualidade humana. Não queria sair com os amigos, não queria festejar, mas estava bem do jeito em que se encontrava.

A mãe, alvoroçada com a resposta, contou ao marido como o filho pensava.

O pai disse que os jovens quando não tinham o que fazer, inventavam os seus problemas.

Passaram-se alguns anos. Aguinaldo estava com vinte e oito anos, mas com a vida que tinha aos dezoito: não vivia, estudava a vida e os seus porquês.

Era hora do jantar. Pai e filho trabalhavam juntos e jantavam à mesma hora.

Enquanto conversavam amenidades após o jantar, o pai olhou para a mãe, que consentiu sobre o assunto à mesa de refeições, e disse:

_Aguinaldo, você terá que se casar.

O filho sorriu dizendo que não tinha interesse em se casar e que os estudos filosóficos lhe bastavam para viver.

A mãe o ouviu e disse:

_Você está enganado sobre esse assunto. Eu tenho um só filho e a sua obrigação enquanto filho de industrial é ter filhos.

Mais uma vez Aguinaldo sorriu. O assunto não tinha cabimento na vida dele.

A mãe dele repetiu:

_Você se casará em um ano, querendo ou não. Na nossa família todos deixam sucessores, você também o fará.

Aguinaldo surpreendeu-se com o tom da conversa e olhou para o pai.

O pai dele concordou com a mãe dele e disse:

_Você tem um ano para se casar. Lembro que você trabalha comigo e que eu posso te demitir na hora em que eu quiser; sou seu pai.

Aguinaldo respondeu com cinismo, dizendo para a mãe que ela que arranjasse a esposa que se submeteria a esse tipo de casamento.

O pai dele disse para que não desafiasse a autoridade da sua mãe e nem respondesse a ela. Ela tomaria conta do casamento dele.

A partir do dia seguinte a mãe de Aguinaldo procurou a moça que precisava de um filho para amar, nunca um marido a quem confiar.

A proposta que parecia impossível para Aguinaldo era o sonho de algumas jovens, que por sua vez, não acreditavam nos homens mais do que fontes de reprodução.

Por mais que os parentes e amigos pedissem para que o pai e a mãe dele desistissem dessa ideia, houve quem a achasse interessante.

Aguinaldo casou-se e teve o filho, saudável e forte conforme os seus pais desejaram.

Aguinaldo continuava a pensar na existência e a levar a vida que levava enquanto solteiro. Até procurava não incomodar a sua esposa, lendo na sala de estar ou no outro quarto do apartamento.

A mulher, com respeito ao marido Aguinaldo, disse que se ele quisesse poderiam se separar, pois o herdeiro era saudável e ela acreditava que a família dele não o incomodaria mais. Deu a liberdade para que ele levasse a vida que desejava cada vez mais voltada às pesquisas de motivos e porquês da vida humana e os problemas existenciais.

A família de Aguinaldo concordou com a separação, mas no dia seguinte, após a assinatura do divórcio, o pai dele o demitiu e o deserdou.

Aguinaldo ficou sem ter o que comer e foi para uma grande cidade onde poderia desenvolver os seus projetos pessoais.

Toda a cultura dali em diante seria pouca para comer o seu pão num meio inculto, que sempre seria inculto diante de todo o estudo daquele homem. Ainda assim conseguiu dar aulas para sobreviver e conviver com professores.

A espiritualidade se fez guia e viga de uma casa por fazer.

sábado, 25 de janeiro de 2014

História de Amor

História de Amor

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Epitácio era idoso. Oitenta e dois anos.

Com olhares vivos e expressivos conversava com todos os seus parentes e amigos. Também gostava de receber visitas para tomar o seu chá de eucalipto acompanhado de bons amigos e conversas amenas.

Interessante observar que a maioria dos seus parentes e amigos tinha um conceito semelhante a respeito dele: calmo, inteligente, com ideias aguçadas e moderadas nos gestos, tanto de vestir quanto de falar.

Pela simpatia, quase nunca tomava o seu chá desacompanhado. Havia gente na casa dele, os seus convidados, todos os dias da semana.

Marlene até então nunca havia ido a casa dele, apesar dos convites.

Epitácio ofereceu especialmente um livro raro para que ela o levasse até a biblioteca e o deixasse para os estudiosos, mas o presente a aguardava na casa dele, junto com o chá de eucalipto.

Marlene riu-se da estratégia e da delicadeza e foi até lá.

Marlene era uma mulher impaciente e foi com a intenção de não se demorar mais do que meia hora na casa dele.

Com o livro sobre a mesa, veio o bule de chá com as xícaras de porcelana antiga numa bandeja trazida pela empregada.

Na parede, as fotos. Epitácio e sua esposa, já falecida.

Marlene não conhecera a esposa dele, mas elogiou a foto:

_Essa senhora é a sua esposa? Pela foto, percebo o carinho do casal.

Marlene mal acabou de elogiar e ele contou o que o pensamento dizia:

_Eu me casei aos sessenta e dois anos. Pensava eu, antes, que o casamento era feito de obrigações e compromissos que amarravam a vida do sujeito. Quando a minha família disse que eu estava idoso e que não saberiam como cuidar de mim caso eu ficasse doente, tomei a decisão de me casar. Fui pragmático e propus casamento para a Augustina, que era solteira também. Disse a ela que ela estava ficando idosa e que provavelmente teria dificuldades caso ficasse doente.

Propôs a ela casamento nessas condições.

Ela aceitou. Casaram-se e viajaram em núpcias.

Algo improvável aconteceu. Voltaram da viagem apaixonados, um pelo outro.

Marlene deduziu pela foto e sorriu, mostrando o seu pensamento a ele.

Ele, arguto, percebeu a ideia contida no sorriso. Diante do sorriso, concluiu o seu raciocínio:

_Marlene, eu critiquei quando você e o seu marido se casaram. Eu disse que vocês eram crianças imaturas. Eu disse que era um absurdo dois jovens de vinte e um anos se casarem sem ter casa própria, pagando aluguel, trabalhando dia e noite em nome de um casamento que, em minha opinião se desgastaria em pouco tempo. Você está casada há quarenta anos. Eu fiquei casado dez. Eu peço desculpas a você porque, se eu soubesse o que era esse amor, eu teria me casado aos dezoito.

Marlene se comoveu. Epitácio não precisava pedir desculpas, pois o que aconteceu com ele foi que o amor chegou atrasado, mas chegou. A vontade naquele momento era de ficar conversando com ele a tarde inteira, mas considerou impróprio qualquer consideração a respeito do assunto abordado.

Agradeceu o chá, com toda a humildade vinda da mais profunda sensibilidade que aquele momento traduziu em seu âmago.

Agradeceu ao livro que levaria para a biblioteca naquele instante, pois acabara de cancelar todos os compromissos daquele dia.

Sem pressa dirigiu-se à biblioteca, pensando na vida.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Achados no Espaço

Achados No Espaço

Versão Brasileira: Eriberto Calumba

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Uma nave espacial lançado em 2021 de nacionalidade luso-brasileira, com destino a Netuno parte de São Luiz do Maranhão, com os astronautas João Silva, Manoela Estevã e José Raimundo, irmão por parte de pai de Manoela.

Como alguns leitores podem apreciar com algum comentário, deixaremos na dúvida quem casou com quem, como e onde. No entanto, Manoela arrastava os olhares para o João.

Andam que andam, ou melhor, navegam no espaço sem fim e se perdem no meio do caminho.

No espaço sideral não tem dia e não tem noite, mas apareceu um holofote de laser e os tripulantes, perdidos, seguem a luz colorida de efeitos espaciais.

Manoela foi quem avistou o planeta à primeira vista:

_Avisto a Terra. Tomara que caiamos no Brasil.

Bendita a língua de Manoela. A nave espacial caiu no Brasil.

João e José apertaram as mãos e se cumprimentaram:

_Estamos salvos!

Estranharam que não houve nenhum resgate por parte da agência espacial.

_Eles pensam que estamos no caminho de Netuno, disse José para a irmã Manoela.

João foi resoluto e abriu a porta do disco voador, dizendo:

_Vamos ao encontro deles depois de sabermos onde estamos. O Brasil é grande!

Os irmãos concordaram e saíram.

Logo acharam a placa da cidade onde estava escrito:

”Bem vindo à Mariana.”

Restava aos três astronautas irem até a panificadora para confirmar se realmente estavam no estado de Minas Gerais.

O dono da padaria estranhou a pergunta e pensou que eles estivessem de chacotas com ele.

_Sim. Estamos em Mariana, no estado de Minas Gerais, e o hoje é o dia vinte e cinco de abril de 2010, três dias após a data comemorativa do Descobrimento do Brasil por Pedro Alvarez Cabral na data de 22 de abril de 1.500. Satisfeitos?

Eram inteligentes os astronautas e pediram pães de queijo com café e nota fiscal.

Foi muita sorte que tinham moedas válidas no bolso para pagarem os seus lanches.

Os três estavam ávidos pelas notas fiscais e elas confirmaram que eles haviam voltado no tempo.

Manoela, que tudo sabia de engenharia e nada sabia de desenvolvimento, perguntou ao dono da panificadora:

_O senhor pode nos informar onde é a estação do metrô que nos leva a Balo Horizonte? Vamos até o Rio de Janeiro de trem-bala e de lá partiremos para o Maranhão para consertarmos o nosso veículo.

O dono do estabelecimento respondeu que precisava trabalhar e que eles fossem amolar em outro lugar.

Diante das dificuldades que apareceram, ficou combinado que Manoela desmontaria o disco voador enquanto João e José iriam procurar serviços como eletricistas para conseguirem recursos, nada tinham no bolso além de algumas moedas para café e pães de queijo.

Foi trocando chuveiros e consertando velhas fiações que eles conseguiram comprar as passagens para o Maranhão, passando pelo Rio de Janeiro.

Com o disco voador devidamente embalado e com os três em mútua ajuda, chegaram à estação rodoviária de Mariana.

Quando o ônibus chegava à estação do Rio de Janeiro, Mariana escutou algo parecido com tamborins.

_De onde vem este som, perguntou ela para o amigo e para o irmão.

Todos os passageiros do ônibus caíram na risada e começaram as perguntas:

_A moça não assiste à televisão? Desde quando?

João e José perceberam a galhofa sobre algo que era normal para os outros.

João, o decidido, perguntou com uma resposta:

_Queremos mostrar a ela essa festa. Onde encontramos os instrumentos musicais?

Os passageiros, pensando que a gozação continuava, indicaram todas as direções possíveis. Esse era o som em muitos lugares da cidade.

Eles desistiram de ir ao Maranhão, deixaram o disco voador guardado no guarda-volumes da rodoviária e foram em busca do som.

Manoela, eufórica, gritou:

_Energia! Combustível para o disco!

Segundo os cálculos de Manoela, ela poderia encaixotar alguma reverberação das caixas de som ligadas às tomadas elétricas numa quantidade suficiente para abastecer o disco e voar na velocidade do som até alcançar o meio da luz de laser que os trouxera até aquele tempo.

Com o dinheiro conseguido com o trabalho de eletricista em Mariana, compraram pranchetas e papéis para que Mariana colocasse o projeto no papel. Eles eram engenheiros mecânicos e ela era a engenheira elétrica projetista.

De caixa de som em caixa de som conseguiram toda a energia elétrica de que precisavam.

Surgiu então um novo problema, um lugar para montar o disco voador.

José disse a João para que permitisse a Manoela que fizesse as próximas perguntas aos cidadãos da cidade. Somente ela sabia das especificações técnicas para o lugar adequado onde a energização do disco seria feita.

Encontraram um sujeito simpático para com Manoela e a avisaram para fazer a pergunta a ele.

Manoela foi precisa:

_Por favor, onde é que eu encontro um lugar onde ninguém ligue para ninguém, todos estejam ocupados com suas atividades e pensem que tudo vale à pena quando se trata de dinheiro.

O sujeito observou-a da cabeça aos pés pensando que a moça precisava fazer dinheiro com serviços rápidos. Talvez algum serviço de entrega em domicílio de restaurante de luxo. Sim ele sabia a resposta e a forneceu de boa vontade:

_Aqui no Brasil a isto se chama São Paulo.

Os três astronautas embarcaram para São Paulo na rodoviária do Rio de Janeiro.

O ônibus passou pela Avenida Marginal do Tietê.

Manoela acabava de descobrir o lugar ideal e contou aos outros dois:

_À noite montamos! Aqui, bem em cima do rio.

Esperaram na rodoviária até anoitecer e se dirigiram com as caixas onde estavam o disco voador desmontado e o combustível para o Tietê. Dessa vez, encontraram o metrô.

Enquanto montavam o disco, alguns pedestres e motoristas de automóveis perguntaram do que se tratava aquela montagem.

Eles temeram as perguntas sobre televisão, objeto inexistente na época do futuro, de onde eles vieram. Os aparelhos eram de tela ultrafina computadorizada e a variedade de opções, imensa.

João foi breve à resposta:

_Estamos lidando com teatro experimental.

Depois de tanto esforço finalmente conseguiram arrumar e abastecer o disco voador.

O combustível funcionou e conseguiram chegar ao lugar de onde partiram, mas com a diferença de um dia atrasados a tempo de anular o efeito laser.

Continuavam perdidos, mas sem voltarem no tempo.

Avistam um disco voador e ele tem placas do Maranhão na frente.

_Vieram nos buscar, disse José.

De fato, foram salvos e voltaram para a Terra.

E estando no futuro, foram enviados à Bahia para um descarrego de mãe de santo.

Deus pode ser brasileiro, mas, tenha dó!

Eis que dum paticumbum.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Poema Acordeonista

Poema Acordeonista
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Sobre o ar dos acordes complexos,
Na ébria sinergia desse som;
Quânticos momentos convexos,
São da teoria e desse tom.

Ondas que percorrem amplexos
Cíclicos, distintos de dom,
Gêmeos na harmonia e seus reflexos
Práticos, ao toque e ao bombom.

Física e conversa de som,
Sopra o remexido em anexos
Óticos, na luz do acordeom,
Caos de pentatônicos ecos.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Conversa de Homem

Conversa De Homem

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Eliseu pediu ao amigo que o acompanhasse até a agência bancária onde faria o depósito para o filho. Ele estava nervoso e não queria ir sozinho.

Chegaram à agência. Eliseu foi ao autoatendimento enquanto o amigo o aguardava ligeiramente distante conforme determina a boa educação.

Eliseu pegou o comprovante e o guardou no bolso da camisa.

O amigo ficou em posição para sair da agência com Eliseu, quando ele começou a falar com a máquina em atitude de desabafo:

_ O dinheiro está enviado, meu filho. Como se dinheiro bastasse! Não conversamos desde o Natal passado e não posso te contar das minhas experiências. Eu gostaria que esse dinheiro te contasse do quanto eu fiquei feliz quando a sua mãe engravidou de você. Não sei se a sua mãe te conta dos bons momentos que tivemos juntos... O que me deixa indignado com esse depósito não é a mensalidade da sua escola, quero dizer para você que eu não sou um pai ausente. Eu gostaria que você me telefonasse para contar dos seus amigos, dos seus colegas e professores, das suas dificuldades pessoais. Eu gostaria de conversar com a sua mãe em tom amigável para que ambos pudéssemos conversar com você ao mesmo tempo. Mas, desde aquele dia em que eu liguei para ela contando que compraria para você o Xbox como presente de Natal, eu desisti de conversar com ela. Ela disse que se eu levasse o Xbox para você, ela o trocaria por dois pares de tênis e algumas calças jeans de marca conhecida. Agora, tudo o que temos é o dia da visita. Por que é que a sua mãe pensa que eu não posso te dar um brinquedo? Por que é que eu tenho que ser aquele homem sério, incapaz de se divertir no Natal?

O amigo aproximou-se da porta de saída, em dúvida se saía ou não, mas voltou o passo e esperou o amigo desabafar com a máquina.

Eliseu falava sem se dar conta da situação patética em que se encontrava.

_E agora? A sua mãe pensa que pode arcar com a sua educação sozinha, mas não deveria. Não é uma questão de dinheiro! Eu quero conversar com você, praticar algum esporte, jogar bola, eu quero ver você crescer, eu quero que você me ouça, eu sou bom pai. Qual é o recibo que paga uma família? Você sabe o motivo da separação minha e da sua mãe? Eu digo: ela pediu dinheiro emprestado para pagar a clínica de estética e eu disse que além de não ter dinheiro para supérfluos, não existiam clínicas de estética que fizessem milagres. O casamento acabou, mas eu não tive a intenção de ofender. Pode o amor se transformar numa balança de pesos e medidas do departamento de estradas e rodagem? Justifiquei-me e disse a ela que a amava do jeito que ela era. Não adiantou. O casamento acabou.

O desabafo continuava e o amigo do Eliseu ficava pálido perto da porta de saída da agência bancária.

O segurança observava os homens, o Eliseu e o seu amigo, mostrando disposição para interromper o desabafo.

O amigo, vendo a situação com clareza, aproximou-se e colocou a mão no ombro de Eliseu, avisou da hora e disse que tinham que voltar ao escritório.

Eliseu, cansado, ainda olhando para a máquina, disse:

_Tudo se resume a dinheiro?

O amigo movimentou a cabeça, discordando da afirmação, e respondeu:

_Não! Eu sou seu amigo e você pode conversar comigo quando quiser. Eu te ajudo no que você precisar. Quem sabe você se reconcilia com a sua mulher, ou, quem sabe você permanece separado, mas mantém o bom relacionamento com o seu filho. Eu te ajudo naquilo que você decidir, sem perguntar o porquê. Mas você pode me contar, eu estou ao seu lado.

Eliseu olhou para o amigo reconhecendo que precisava de um amigo naquele momento.

Saíram juntos, caminharam algumas quadras e o amigo pagou um café para Eliseu recobrar as energias.

Chegaram ao escritório como se nada tivesse acontecido e bem dispostos.

Conselheiro Sentimental / Interesse Geral

Conselheiro Sentimental

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Edson Prado, o repórter do blog, recebeu uma correspondência.

Ele me pediu gentilmente para responder a questão que aflige a leitora numa das postagens do blog.

Transcrevo a seguir, a pedido do repórter do blog, carta e resposta.

“Estimado Edson Prado, estou com um problema profissional e peço a sua sugestão, pois sei que, a dificuldade pela qual passo provavelmente muitas outras professoras passam.

Eu leciono numa escola particular e gosto muito das minhas colegas e da diretora, atenciosa e dedicada aos alunos.

Numa conversa na hora do recreio, enquanto olhávamos as brincadeiras das crianças, a minha colega Silmara contou que estava grávida.

Nós a abraçamos e desejamos todas as felicidades para a gravidez dela.

Silmara disse que iria trabalhar durante a gestação e, após o nascimento do bebê, ela tiraria a licença maternidade, perguntando se, nos poucos dias em que tivesse que fazer exames, eu a substituiria.

Eu acho a gravidez linda, a Silmara é boa pessoa e, enfim, disse que a substituiria na sala de aula nos dias em que ela fosse fazer os exames.

Passaram-se duas semanas e começaram os enjoos. Algumas mulheres enjoam durante a gravidez, sei disso, tenho filhos. A diretora me avisou e eu a substituí.

Para mim a substituição seria tranquila porque trabalho pelo período da manhã e a Silmara trabalha à tarde.

Depois, foi o exame pré-natal e eu a substituí.

A Silmara é uma profissional responsável, volta assim que pode e trabalha com afinco, portanto deixo claro que não tenho queixa dela. A diretora é sensível e ajuda-nos a trabalhar num ambiente de coleguismo e amizade. Ao escrever essa carta não quero que pensem que eu estou criticando alguém.

Quando ela chegou ao quinto mês de gestação, ela precisou fazer repouso. Eu a substituí durante os oito dias de licença para o repouso.

Ela entrou no sétimo mês de gestação e eu estou mal. Por esses dias, um aluno me pediu para desenhar para ele e eu comecei a chorar.

O meu emprego, que era o de professora, se transformou em dois. Pela manhã eu dou aulas e, à tarde, eu cuido da gestação da Silmara.

O que é que eu faço, pois fui eu que me ofereci para a substituição da Silmara durante a gravidez. Estou sem tempo para mim e todas as minhas colegas me elogiam pela amizade que dedico à Silmara. Choro à toa e estou sem tempo para mim. Depois que o bebê nascer, eu terei a classe dela por quatro meses para lecionar.”

Resposta de Edson Prado:

“_Cara leitora, sinto muito. Se puder, explique a sua dificuldade para a sua família e faça de um sábado ou domingo o “seu sábado ou, o seu domingo” e descanse da maneira que preferir. Mas, descanse. Ainda terá pela frente o período da licença maternidade com as crianças da sala da Silmara. Você precisa repor as suas energias para que não fique doente ao enfrentar o excesso de atividades.“

O blog permite apartes de interesse geral.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Hoje sem Razão / Reflexão

Hoje, Sem Razão / Reflexão

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Nem posso ou devo ter razão, pois sonhei com Freud, Jung e Lacan. As minhas amigas psicólogas que me perdoem, não estudei o comportamento humano além de um ou dois livros, bem lidos, diga-se.

Mas no sonho, numa conversa descontraída, Freud dizia que fora mal interpretado em algumas das suas colocações.

Disse-me ele, que explanou as suas teorias, teorizando o comportamento sexual, quando gostaria, na verdade, de dizer que algumas causas do comportamento humano tem origem única e exclusivamente na sua condição física.

Também disse do seu por que ter exemplificado a partir desse ponto comum a todo o ser humano, em tese. Porque todas as características físicas diferem de pessoa para pessoa.

Foi simples para alguém com pouco conhecimento na área, como eu, mas disse:

_Não existem duas digitais iguais e o sentido do tato a partir das mãos difere de pessoa para pessoa. E é a partir do tato que se observa muito do que se experimenta: do alimento à moeda. Fui rude, mas se tiverem alguma sensibilidade, perceberão as minhas metáforas feitas com a intenção de não ofender a ninguém, chocando toda a sociedade de uma vez propositadamente.

Jung achou interessante a explanação daquele que fora o seu contestador, e disse:

_Eu também tenho as minhas falhas, doutor Freud. A teoria que desenvolvi baseada na ideação também não foi sem metáforas. Reconheço que usamos subterfúgios para contar dos nossos estudos sobre a alma humana. A ideação como resposta aos conflitos, quando não objetivam uma solução prática, são práticas frustrantes. Os sonhos são mais úteis ao sonhador que para aqueles que o sonham a menos que o sonho mostre uma característica física desconhecida para o sonhador tais como as manifestações das doenças físicas por meios de sonhos, aquilo que o povo chama de “aviso” durante o idear. Concordo que o comportamento prático da sociedade em que vivemos nos levou aos subterfúgios.

Freud concordou e disse:

_A minha fama não é das melhores devido ao subterfúgio que usei para as minhas colocações.

Jung refletiu e corroborou a fala de Freud:

_ A minha fama é de louco. De alguém que sonhou por meses a fio desistindo até mesmo de comer para sonhar. Sinceramente, alguém em sã consciência pensa ser possível escrever toda essa teoria sem um pedaço de pão? Toda a sociedade pensa que é possível.

Freud então interveio:

_Nesse caso, fomos obrigados a usar os subterfúgios sexo e sonhos.

Ambos se divertiam com as suas metáforas, quando Lacan interrompe a conversa agradável dizendo:

_Vocês têm que discutir! O ser humano é um animal e se entende através do instinto. É a partir do instinto primário que o ser humano desenvolve todas as suas capacidades intelectuais e emocionais. Esse foi o meu subterfúgio para atingir toda a sociedade. Vocês me deixaram num mato sem cachorro! Vocês não sabem o quanto suei para descobrir um recurso adequado para explicar a minha teoria sobre o comportamento humano.

Os outros, Freud e Jung o chamaram de bruto.

Depois de tais considerações, posso dizer que vou tomar café. Foi muita psicologia para uma só cristã.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Falando de Cinema / Crônica do Cotidiano

Falando de Cinema

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A cultura não existe para mim se eu não a permitir na minha vida.

Igualmente, os meus gostos óbvios todos conhecem e são música e literatura respectivamente.

No entanto, o cinema faz mais parte de mim do que eu mesma imaginava. Assisto filmes, aliás, como a maioria de nós, aqui no Brasil, assiste, seja na televisão ou no cinema.

Surge agora uma nova mania na minha cidade, que é a de Curitiba, a de assistir filmes indicados por amigos.

Devo dizer que a ideia é deliciosa porque sai do circuito cinematográfico geral, intelectual, ou ainda, comercial.

Os amigos compartilham pontos de vista da sua cultura individual, dando espaço para que o outro amigo tire as suas próprias reflexões ao assistir esse ou aquele filme.

Não existe convite para assistirem juntos ao filme. Existe apenas a indicação para que o outro amigo, ou, amiga o assista numa hora de folga qualquer.

São generosos e dizem onde locar o filme que eles assistiram geralmente filmes sem expressão de bilheteria, filmes fora do circuito das salas de exibição.

São ideias e imagens levadas ao encontro da vontade de se fazer algo diferente. Chega a ser engraçado, pois boa parte da população tem acesso às TVs por cabo. Mas o filme em questão passa a ser especial, é uma indicação.

Ninguém deixa de ir ao cinema, mas reserva uma hora para dar uma assistida na visão que o outro amigo tem de filme bom. É como se o amigo estivesse contando da sua perspectiva de vida através deste ou daquele filme.

Quando a minha amiga disse para assistir sem falta o filme que provavelmente vou assistir, avisando que é tema de discussão filosófica e que a história é muito boa, eu fiquei curiosa.

A partir dessa nova onda que se cria por aqui, penso que, dentre nós, logo surgirá um crítico de cinema. A sétima arte é uma cultura pontual e diversificada, com filmes das mais variadas origens culturais.

A minha amiga ainda me disse:

_É filme sem romance, mas com muitas reflexões. O filme é bom porque não se perde tempo com essas tolices.

Certo. É domingo. Vou assistir a esse filme.

sábado, 18 de janeiro de 2014

The Best Teacher Ever (A Melhor Professora de Inglês)

The Best Teacher Ever (A Melhor Professora de Inglês)

 

Ela era ainda jovem, tinha no máximo vinte e dois anos. Casada e, ainda sem filhos. O marido iria trabalhar numa empresa fora do Brasil e ela iria com ele.

Praticamente recém-casada, com uma bagagem de vida difícil, era órfã e a família, as irmãs e irmãos a apoiavam nessa vontade de viajar com o marido por um período de dois anos ou mais.

As aulas de conversação eram interessantes, muitas perguntas e respostas.

Alunos não costumavam mentir.

Nenhum dos alunos ou professores costumava mentir.

Um professor havia sido engraxate num país estrangeiro e contava em detalhes o porquê da sua tentativa de imigração ser frustrante, desaconselhava a atitude aos alunos.

Outro professor veio da África e amava o Brasil, porque aqui não se desmaiava de fome, dava para ser pobre no Brasil sem morrer de fome. O fato é antigo, Michael Jackson já morreu e a música We Are The World era contra a fome.

Eram histórias e mais histórias da vida real, não se sabe o motivo, mas dificilmente alguém usava de subterfúgios no relacionamento escolar.

Até mesmo a discussão dos relacionamentos era sentida pelos alunos.

Houve o dia em que a diretora virou-se para as alunas e disse o que era o seu casamento:

_Eu me apaixono várias vezes por ele. Estávamos quase nos separando, mas vejam as flores que ele me mandou para dizer que eu tinha razão. Estamos em nova lua de mel.

Aquela escola era diferente, era baseada em sentimentos.

Mas revê o dia da repreensão. A professora, em sala de aula, repreendeu a aluna em frente aos demais. Foi a melhor repreensão que alguém já fez em sala de aula:

_You must to learn how to speak this sentence: It’s is none of your business.

Tradução - (Você tem que aprender a dizer esta frase: Não é da sua conta.).

Cada um que cuide da sua vida vendo no outro o seu semelhante e o ajudando sempre que possível. As perguntas tornaram-se fora de propósito para o objetivo da escola, que era o ensino básico da língua inglesa, sob o ponto de vista America e com o conteúdo doutrinário dos mórmons.

Era necessário aprender a dizer não às perguntas que visassem à violação da privacidade do indivíduo. Até onde um aluno poderia saber da intimidade do outro? Essa era uma questão de segurança pessoal e foram os seguranças da escola que advertiram a diretoria.

Aquela repreensão veio ensinar que as aulas de conversação eram saudáveis e que os alunos eram bons, mas a equipe de segurança as escola havia detectado pessoas que ficavam próximas das salas de aula para conhecer as diversas situações expostas em sala de aula, chegando mesmo a intervir numa tentativa de assalto em frente ao local depois que uma senhora, também aluna da escola, havia contado da sua viagem e dos passeios realizados no Canadá.

A equipe de segurança da escola fez mais, se expôs e contou aos alunos adultos como os fatos se davam.

A equipe de segurança não era formada por policiais. A política da escola era determinante na decisão da condução da segurança dos professores e dos alunos.

Passados alguns anos, a escola fechou. Os proprietários mudaram de ramo de atividade. O dono era engenheiro eletrotécnico e foi convidado a trabalhar numa grande empresa pelo mérito em lidar com recursos humanos.

Não haveria outra igual.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O Dentista Chamado Jesus / Séc XX

O Dentista Chamado Jesus

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O Dr. Jesus era um homem diferente, às vezes maltratado pelos colegas por suas ideias arrojadas para a época do século XX.

O tratamento dentário, antigamente, era dolorido, as anestesias, além de caras, causavam efeitos colaterais em alguns pacientes, eram anestesias fortes em doses mínimas. As mulheres grávidas não podiam tratar dos seus dentes e, algumas crianças com problemas de saúde, também não.

A população optava pela prótese dentária não apenas pelo preço, mas também pelo desconforto do tratamento.

As próteses, chamadas de dentaduras, eram feitas em vários materiais e preços, o que fazia com que alguns dentistas fizessem o seu mês com uma dentadura.

O Dr. Jesus sofria com a dor dos seus pacientes, mas gostava de ver a população sorrindo com todos os dentes. Atencioso com todos, era especialmente educado com jovens adolescentes e grávidas. Tratava adultos, mas muita gente o considerava esquisito porque tinha ideias futuristas, dizia que, haveria, no futuro, um tratamento sem dor e que grande parte da população haveria de querer conservar os seus dentes.

Nenhum paciente com dor de dente queria ouvia as suas ideias de futuro, apenas os jovens e as grávidas, na esperança de que ele amenizasse alguma dor.

Os dentistas eram de certa forma, rudes, avisavam da dor e do preço da anestesia, perguntavam alguns aspectos da saúde do paciente e decidiam se o canal dentário seria tratado com ou sem anestesia, com o bloco receituário dos analgésicos do lado. Muitos homens fortes ficavam descansando na cadeira da sala de espera após arrancar algum dente no seco, quando o dentista fornecia gratuitamente o remédio para a dor e aconselhava o paciente a esperar a dor diminuir na cadeira da sala de espera antes de sair pata pegar a condução.

A senhora grávida e a adolescente conversavam em tom de voz baixa na sala de espera, era para elogiar o que a maioria criticava. Os tratamentos dele demoravam e, muitos desistiam de se tratar com ele.

As duas comentavam que era demorado, de fato, mas que ele não deixava o paciente sentir dor.

A senhora grávida era Mariana e disse que parecia um sonho ter o bebê e poder tratar o dente, com problemas de canal, sem anestesia e sem dor. Ele estava tratando o canal com um algodão e algum remédio para tirar a sensibilidade do nervo. Demorariam ainda vinte dias, mas o dente dela estaria bem quando o seu filho viesse ao mundo.

Para a adolescente, ele contou que a tirara de um colega seu. A ética dele estava em tirar a dor, não em ensinar o quanto era dolorido tratar de um dente.

Gina ouvia a grávida com atenção, mas lembrava das palavras do Dr. Jesus:

_Eu vi aquela obturação próxima ao nervo sem anestesia. Eu passei pela sala dele na hora em que você reclamava de dor. Fiquei indignado, uma criança que logo sonhará com prótese e, justo alguém que tem esses dentões fortes como os seus! Agora o seu tratamento será sem dor e o que ensinarei é o procurar a ausência de dor em todo e qualquer tratamento odontológico.

As mulheres, a grávida e a jovem, estavam aborrecidas com as críticas ao dentista. Nenhuma das duas sentiu dor nenhuma durante o tratamento do canal do dente.

O Dr. Jesus aconselhava as duas a serem econômicas, pois, sonhava ele, que, os tratamentos sem dor, seriam caros quando a nova anestesia fosse desenvolvida.

Mas a época e os sonhos não combinavam muito e aconteceu que o Dr. Jesus ficou idoso e se aposentou, sem prestígio e sem homenagens.

Onde se viu um dentista sonhador com a dor desaparecida?

Nesse caso, o que valeu foi a intenção.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Vende-se

Vende-se

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Estava pensando outro dia se, por acaso eu me encontrasse com Solange.

Hoje, Solange deve ser uma senhora, assim como eu.

Contaria a ela que a casa do avô dela está à venda.

Aquela casa construída com argila e pedras britas com areia de rio.

Aquela casa onde eu e ela ficávamos sentadas em cadeiras de madeira polida junto à sua avó, que nos servia sanduíches com shimia (comida típica, uma conserva feita em casa com pouco sal e algum azeite de oliva) e bolinhos fritos na hora.

Aquela casa onde o avô passava com o balde grande carregado de terra de argila e agente via o fio de prumo e as estacas de madeira.

Nós duas ficávamos tanto tempo naquela observação que não tardou e logo chegavam, também para assistir a construção, a minha mãe e a mãe dela.

A construção parecia uma lareira aconchegante, o avô dela construía, a avó dela servia, nós olhávamos e, a minha mãe contava histórias; ela gostava de contar histórias, de falar.

O avô e a avó tinham perdido uma filha, apegaram-se à minha mãe naquele seu jeito conversador.

Acabei por virar neta também e também ouvi os ensinamentos que a Solange recebia.

Solange não tinha ciúmes de nada, a mãe dela não deixava; sabia da dor de perder uma irmã.

O avô chamava os pais e irmãos para ficarem com ele, gostava de ensinar como se fazia a argila para construir uma casa. Meu pai não teve coragem. Não adiantou a boa vontade do homem. Meu pai jamais tentou comprar tijolos e fazer argila, o jeito dele era outro.

Ao fogão de lenha todos nos reuníamos, eram singularidades da existência.

Quantos ensinamentos, meu Deus, quantos!

Havia um respeito, que hoje se pode chamar de santo.

Naquela casa construída de argila, outra família se fez. Nunca mais fomos os mesmos, nunca mais.

A distância entre o campo e a cidade se fez de fato e de dentro para fora. Eles também não foram mais os mesmos, éramos da cidade e a cidade mostra o seu concreto nos edifícios, as micro-ondas e os pratos congelados.

Eles compraram micro-ondas. Depois, lembro que eles se mudaram para outra cidade.

Aquela casa à venda conversa comigo, contando de toda a sua história de construção.

Não, não a quero comprar. Seria saudade demais. Que o comprador possa ser feliz naquela casa de argila, com eu pude ser.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Sol de Verão

Sol de Verão

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Não me diga do que eu sei,

Mas, confie em mim; pois que sou,

Como o espelho que limpei.

 

Se me vir, fui eu que deixei.

Sigo claro nesse vou,

Dessa luz não me apaguei.

 

Sou benigno e me espelhei

 

Ao brilhar, retrovisor.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Transliterado Indriso

Transliterado Indriso

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Movimento elíptico de translação,

Questionando o umbigo em giro e rotação

Vem compor sistemas gravitacionais.

 

De tangente em gente, a transliteração;

Na Via Láctea em suave navegação,

Num quicar de bolas multinacionais.

 

Ao centrífugo onde está essa distração...

 

A centrípeta alma voga em devoção.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Bem-Me-Quer

Bem-Me-Quer

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Passo a roupa, passo à ferro;

Dê-me a pilha, dê-me e siga,

Seu caminho, que eu te espero;

Nesse passo, nessa lida.

 

Passo a roupa quando quero,

Essa milha é minha amiga;

Tanto passo até que zero,

Penso enquanto a roupa alisa.

 

Ferro quente, quero-quero,

Passo o tempo ao que me abriga;

Fique bem que te venero,

Abro o bolo margarida.

 

Nesse linho, goma e ferro,

Pego a saia toda franzida;

Nesse vinco que me esmero,

Fico e passo, canta a vida.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Espontânea / Crônica do Cotidiano

Espontânea / Crônica do Cotidiano

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Finalmente refrescou, esse verão está abafado.

Vamos caminhar e observar qualquer coisa, para o curioso qualquer coisa é suficiente.

Aquele som dos pássaros, algum cachorro e a sua dona, gatos, não porque gatos não gostam de chuva, mesmo da miúda.

Estou no semáforo e aguardo a minha vez de atravessar a rua.

A senhora pedinte, com o papel plastificado nas mãos, a sua necessidade escrita e protegida da chuva, passa por três carros e pede o trocado.

Num dos carros, o que estava com as janelas fechadas e insufilm, a senhora faz gestos e pede para que a pedinte espere ela encontrar a moeda que estava por ali. Enquanto ela procura a moeda, o sinal abre e fecha.

Para que pressa no domingo? Aguardo.

A senhora achou a moeda, abriu uma fresta mínima e ofereceu a moeda à senhora pedinte.

Mais dois carros aguardam o semáforo.

Outra senhora, descontraída e com as janelas ligeiramente abertas diz que não tem moedas.

A pedinte se dirige ao carro da frente, no qual havia outra senhora.

A motorista ligou o esguicho do limpador dos para-brisas, apavorada. A pedinte tentou explicar que ela não queria nada além de uma moeda. A senhora, nervosa, deixou o esguicho ligado e a pedinte se afastou do automóvel.

A pedinte foi novamente ao carro com as janelas ligeiramente abertas.

A motorista avisou novamente que estava sem moedas.

A pedinte disse à motorista:

_Eu sou pedinte e a senhora está sem moedas, isso é normal. Mas que aquela motorista que ligou o esguicho é louca, ah! Isso é.

Valeu a caminhada!

sábado, 11 de janeiro de 2014

Poema Dourado

Poema Dourado

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Carruagem dourada,

Feita ao espelho da tarde,

Vem mostrar a verdade

Transparente e ondulada.

 

A verdade é uma fada

Que transpõe Sherazade,

Ao dizer da saudade,

A sonhar acordada.

 

A energia acumulada,

Feita em plasma se evade;

Vem à Terra e se alarde,

Sem deitar, luz clareada.

 

Ao calor é o seu nada

De magnético alarde;

Misteriosa acuidade

Visual flutuada.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

O Calor é o Humor?

O Calor é o Humor?

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Nesses dias quentes parece que o humor muda, mesmo por aqui, onde grande parte das pessoas é sisuda.

Talvez seja porque a cidade esteja com turistas, o que também não é comum em Curitiba. Os shoppings estão com famílias inteiras olhando as vitrines com os comentários típicos de turistas observando o que é diferente da cidade de onde vieram.

Eu, conforme uma amiga me diz que gosto de jogar conversa fora, ou seja, mantenho esse blog inventando histórias, tenho me divertido com as tiradas de humor, difíceis de ver por aqui.

Se um fica sisudo, vem o outro e o corrige, dizendo que não é porque não se é da máfia que não se pode sorrir.

A outra disse que encomendaria bonecos de pano para fazer vodu com quem tirasse o seu bom humor.

Mais uma vem e diz para a gente sair de onde tem muitas mulheres de minissaias e homens de bermuda porque a confusão logo aparece.

Sei que as pessoas estão conversando e se divertindo. Eu também.

O interessante é que não estamos acostumados com humor na cidade, mas simplesmente está acontecendo.

Nem da política as gente escapa. Outra amiga me disse em quem votou nas eleições passadas. Pshhhhhhhhh (sinônimo de fique quieta). Ou eu fico quieta ou ela acaba a amizade. Mas foi ela que disse?! É gozação. Dela.

Tem a turma que não se empolga com a estação e não que saber de gozações. São os que ficam olhando como quem pergunta o que tem de bom para se divertir.

Quem não sabe jogar conversa fora, não sabe.

Talvez eu esteja conversando com quem precisa de pouco para se divertir.

Viajou? Sim. Quantos dias? Um final de semana ou apenas na passagem de ano, ou um final de semana com a família, ou ainda, tomou um banho de mangueira no quintal com os filhos.

Algo está diferente, sorridente.

Até a caixa do supermercado está de bom humor. Virou-se para a colega e disse que adivinha gravidez em qualquer mulher.

Estou com pressa. Bom dia.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Conversa Das Flores

Conversa Das Flores

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Nem você, nem eu;

Ninguém foi, mas dizem.

A amizade se deu,

Foi raiz, foi origem.

 

Foi você e digo eu

Do querer que oprimem;

Que esse amor se leu

Nesse amor meu e seu.

 

O que o céu elegeu

Ao jardim não rimem,

Não se cria com breu

As estrelas. Cismem.

 

Ao dizer, penso eu,

Que o gostar que imprimem

Não foi meu, nem seu;

Que os jardins brilhem.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A Nova História / Crônica de Supermercado

A Nova História / Crônica de Supermercado

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Foi dia de se festejar, mais de sessenta pessoas na fila do supermercado, o que significa meia hora ao mínimo do tempo de espera, questão de aguardar que a crônica entrasse na cesta.

Uma senhora jovem e a filha garota, criança não é paciente com fila.

_Mãe, eu posso comprar aquelas canetas coloridas no corredor onde fica o material escolar?

A mãe disse que sim e acrescentou:

_Filha, compre aquela caneta de apertar, com acabamento prateado, que está num estojo composto por duas canetas para mim.

Adorável criança que ficou surpresa com a resposta da mãe. Ambas tinham passado pelo corredor onde estava o material escolar. A mãe disse para a filha que noutro dia comprariam as canetas coloridas. Agora, na fila, além de deixar que a filha fosse comprar aquelas canetas de enfeitar cadernos, ainda pede para que a garota pegue canetas para ela mesma.

Sem entender a situação a garota perguntou à mãe:

_Para que você quer aquelas canetas de apertar? Eu quero as canetas coloridas para enfeitar.

A mãe se postou adequadamente, como uma senhora que sabe as respostas que a filha necessita, e disse:

_Filha, eu quero escrever a nossa nova história de vida. Eu me separei, vivemos as duas sozinhas, mas eu posso escrever uma nova história de vida. Eu e você numa nova história.

A garota pediu para enfeitar com desenhos essa história que a mãe pensava em escrever.

A mãe disse que ela enfeitaria as páginas, mas quem escreveria a história seria ela, pois a menina ainda não estava preparada para escrever longas histórias na opinião da mãe.

A filha, ensimesmada com a ideia, perguntou para a mãe:

Mãe, você tem certeza que essa história sairá boa, mesmo com nós duas escrevendo no mesmo caderno? Na escola a professora não deixa que um colega escreva no caderno de outro colega, ela permite que a gente empreste a folha, geralmente a folha do meio, que é tirada inteira para não estragar o caderno.

A mãe, sorridente e altiva, respondeu:

_Mas a nossa casa não é a escola e somos mãe e filha. Eu escrevo com as canetas e você enfeita o espaço em branco com as suas canetas coloridas, será uma linda história essa que eu pretendo escrever.

A garota pensa e olha para a fila, olha para a mãe, olha para o estojo simples de lápis de cor que está na cesta delas e, finalmente, conclui:

Mãe, eu prefiro ficar na fila com você. O supermercado está cheio de gente e eu posso comprar as minhas canetas coloridas noutro dia. Você se importa se eu deixar para comprar as suas canetas nesse outro dia em que virmos ao mercado?

A mãe disse que não se importava, mas que a nova história seria escrita a partir da compra das canetas novas e que ela voltaria ao mercado no dia seguinte, ou seja, hoje, para comprar as canetas que tinha gostado.

Que delícia de fila e de história.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A Turma da Recuperação

A Turma da Recuperação

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Chegou o dia do juízo final para Deolindo, Geraldino e Franciano.

Justo eles que fizeram algumas coisas que não deviam tais como filar almoço na casa dos amigos sem ter outro interesse que não fosse à refeição, usaram o telefone para conversar com os seus familiares e amigos, pediram carona e inventaram várias desculpas para conseguir uma folga de cinco minutos a mais no horário do expediente.

Consta que eles também eram experientes em passar o final de semana estando sentado em frente à televisão dos conhecidos, o negócio deles era arranjar desculpas para estarem disponíveis na hora que interessava; mais de mil e quinhentas para arranjarem ocupações quando os outros precisavam deles para trocar os pneus ou arrumar o chuveiro.

Eram pessoas que seguiam as regras próprias inventadas por eles na convivência social, pois tinham certeza de que havia no mundo muito mais pessoas mais inteligentes do que eles.

Nos livros do juízo final havia queixas e reclamações de no mínimo duas mil e oitocentos e cinquenta e sete pessoas, chamando-os de folgados, esculhambados, e ainda mais, tinham a fama de gente que não podia ser levada à sério, pois a vida deles era daquele jeito: um almoço aqui, um lanche ali, uma carta no correio a ser paga no futuro, futuro que não chegou ao tempo deles.

Chegaram os três ao dia do juízo final.

Um deles defendeu os outros dois perante a porta do céu e garantiu a eles que não passariam do purgatório classe C e que jamais chegariam ao inferno da quinta classe, que era a do diabo.

Conversa daqui e conversa dali e o chaveiro, com as chaves na mão, aguardava o julgamento para os mandarem montar os cavalos e galoparem em direção ao local indicado pelo pessoal responsável pelo juízo final.

Terminado o julgamento, foi determinado que os três fossem para o céu.

Eles não queriam ir, temendo alguma arte do pessoal do juízo final como castigo por tudo o que fizeram, pois sabiam que tinham feito todas aquelas coisas das quais eram acusados no relatório do juízo final.

_Algo está errado por aqui, isso não é justo. Alguma coisa nós teremos que pagar.

Mas não teve jeito, tiveram que obedecer e foram para o céu.

Chegando lá, ficaram na portaria e um deles, pediu uma justificativa para estarem lá, dizendo:

_Com todo o respeito que o céu merece, nós não vamos entrar porque sabemos que iremos para o purgatório em seguida. Pensamos que de tanto que nós filamos refeições e caronas, o nosso lugar é no purgatório.

O responsável pela portaria do céu disse que não havia engano, que o lugar deles era ali mesmo e que o céu podia se enganar, mas intencionalmente não enganava ninguém. O caso deles fora proposital e eles foram mandados ao céu.

Volta e meia passava um e outro morador do céu para perguntar sobre a correspondência.

Eles ficavam observando os moradores, que eram pessoas admiráveis, um deles havia ajudado aos pobres sempre que possível e outro deles era um embaixador para assistência à saúde nos países carentes, outra uma senhora que lia a Bíblia todos os dias em horários regulares e a outra ensinava os analfabetos da sua cidade.

Eles estavam juntos àquelas pessoas, e muito desconfiados daquela situação, fizeram de tudo em vida para chegarem ao purgatório.

Passaram-se alguns meses e os três na portaria, esperando que algum dos moradores viesse chamá-los.

Um dia, chega uma moradora, que nada havia feito de excepcional em vida, mas que veio até eles a fim de explicar o motivo pelo qual estavam no céu.

Eles de olhos bem abertos para ver se descobriam onde fora o engano e, ela, percebendo a curiosidade deles, disse:

_Meus amigos, eu sofri muito em vida, mas pedi a Deus que perdoasse aqueles que, apesar de tudo, mal maior não me causaram. Quando se chega aqui se vê que alguns males não passaram de enganos plenamente perdoáveis e outros, dos quais a gente não tinha noção vão para a lista de reclamações. Para colocar as minhas reclamações e perdões, eu acabei por passar por cima das infantilidades que vocês cometeram, pois não passaram de falta de conhecimento de que daquele jeito como vocês se comportaram pareceram piores do que eram. Mas, se eu não ensinei para vocês é porque eu também não sabia que tudo poderia ser diferente. Pronto. Agora vocês estão no céu e podem aprender a se comportar melhor. É esse o motivo pelo qual vocês estão aqui, para adquirirem conhecimento das coisas do Senhor.

Nisso chegaram os professores e os convidaram para entrarem à sala de aula.

Eles agora entendiam o significado de estar no céu, a sala de aula seria o purgatório. Ficaram contentes e conformados.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Praia / Reflexão

Praia / Reflexão

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Um assunto chama o outro e hoje, por motivos nem tão óbvios assim, lembrei-me de um dia em que eu procurei um lugar para ficar sozinha na beira da praia.

Queria orar, parece que a oração silenciosa é a maior dádiva que o bom Deus nos deu. Através da oração vem o conforto, a paz e presencia-se o amor divino.

Naquele dia eu andei por toda a praia procurando um lugar ermo e achei, pois é buscando que a gente encontra.

Fiz as minhas orações e repirava profundamente aquele ar salgado na brisa morna que me aconchegava naquele momento de quietude.

A praia, porém, é para todos aqueles que gostem de estar lá. Nem todo mundo gosta e há mesmo gente que sente essa paz de espírito nas montanhas, de onde avistam as plantações e as planícies cultivadas.

Chegaram naquele momento uma senhora aparentando oitenta anos e a sua dama de companhia.

Observei-as sentadas na primeira onda que chegava à areia. A senhora brincava com as ondas pequenas e ria feliz. A dama de companhia estava ao lado dela.

A senhora trajava um maiô preto antigo, com aquilo que se chamava antigamente de maiô de perninhas. A dama de companhia usava algo discreto, o maiô de duas peças, hoje chamado de sunquíni.

Passou algum tempo e a dama de companhia ficou preocupada porque era hora de almoço e ela não terminara de preparar o almoço antes de sair de casa.

A senhora disse para a dama de companhia que naquele dia poderiam almoçar depois do meio dia porque almoçariam sozinhas e não precisavam dizer a ninguém que se atrasavam para o almoço.

A dama de companhia disse que naquele dia faria uma concessão e não contaria à família sobre o atraso do almoço, mas aquele era o emprego dela e ela não poderia fazer esse programa que atrasava o almoço, a senhora tinha que se alimentar direito.

Sei que a senhora não quis se levantar antes de combinarem outra tarde morna para ali estarem. Ela não gostaria que ninguém a visse de maiô, achava que era saliência e exibicionismo. Afinal, o que iriam pensar dela, uma bisavó, de maiô na beira da praia.

Eu pensei que ninguém deveria pensar nada a respeito dela, ao contrário, ela bem poderia frequentar a praia com os seus filhos e por que não com a bisneta.

Eu não estava mais naquele estado de oração e saí para caminhar. Sentei-me novamente à beira da praia para observar um barco pesqueiro que vinha em direção à praia, o arrastão cheio de peixes, ao canto dos pescadores, é um dos mais belos movimentos das areias do Brasil.

Estava sentada e pareceu-me cair um pedaço de folhagem seca que corria com o vento, também me senti idosa e brinquei de esconder os meus pés daquela folhagem seca.

Dali a pouco mais um e mais outro e eu percebi que não eram pedaços de galhos secos, mas ouriços do mar, brincalhões. Fazia tempo que não me divertia como criança.

Todos nós temos algo de criança e de idoso nessa condição madura. Se nós, podemos conviver com crianças e idosos que habitam o nosso ser, podemos conviver com avós, pais, mães, filhos e netos, correria e bolas de plástico, jovens adolescentes e quem mais aparecer, desde que seja de bem; até mesmos os pequenos ouriços que animam o ambiente.

Ambientes exclusivos são especiais e até eu mesma aprendi a ir à igreja para orar, é o lugar indicado.

Praia é praia e é para quem gostar dela sem preconceitos.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Planeta Livre-Arbítrio

Planeta Livre-Arbítrio

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A história se passa em 2026, após algumas pessoas comprarem a passagem de ida para Marte a fim de colonizar aquele planeta.

Joseane, que era mais cautelosa, comprou as passagens de ida e volta para o planeta Livre-Arbítrio.

O disco voador era confortável e ela estava convicta de que voltaria ao planeta Terra novamente, não tinha motivos para se preocupar.

Chegando ao planeta, foi recepcionada com cortesia, mas teve que preencher a ficha de entrada.

Preenchida a ficha de entrada, foram explicadas as regulamentações do planeta e a estrutura disponível para a visita agradável.

_Estamos satisfeitos com a sua visita, senhorita Joseane. Se a senhorita chegou até aqui é porque disse a maioria dos sim e nãos necessários, por aqui a palavra talvez não tenha significado. Precisamos fazer uma pergunta antes de podermos assegurar uma visita adequada. A questão é: A senhorita come dobradinha?

Joseane disse que não. A resposta foi rápida e positiva.

O atendente gostou da resposta, mas disse:

_Senhita Joseane, ao dizer a palavra não, a senhora está dizendo que não come dobradinha mesmo com o nome de buchada, diz também que não come dobradinha mesmo que seja uma fatia de dobradinha embutida em um quilo de feijão branco e meio quilo de linguiça calabresa, também não come dobradinha enlatada. Ao dizer que não come dobradinha a senhorita está dizendo que prefere comer um pacote de pão de forma ao invés de dobradinha. A senhorita confirma a sua resposta?

Joseane confirmou a resposta.

_Esse é o planeta Livre-Arbítrio. Conforme o próprio nome diz, cada pessoa toma as suas decisões, sempre pautadas em sim e não, nunca talvez e, isso significa uma série de regulamentos e contratos conforme os que a senhora assinará na sala ao lado. Concorda em assinar que não come dobradinha?

Joseane concordou.

Joseane, porém, raciocinava e não assinava nada sem ler o que assinava e o papel estava escrito em linguagem terráquea, em letras claras e objetivas; sem letras miúdas ou qualquer margem para outra interpretação que não fosse aquela do objeto do contrato. Estava tudo certo e ela assinou.

Após assinar o documento, recebeu novas orientações e especificações sobre o planeta, conforme se segue:

_Senhorita Joseane, aqui está uma lista com os nomes dos fabricantes de dobradinhas, os comerciantes dos enlatados de dobradinhas e também, a dos consumidores de dobradinhas. No nosso planeta estamos organizados para que todas as decisões de livre-arbítrio estejam organizadas de modo a não gerarem conflitos, mas lucro aos interessados. Não seja simpática com toda essa gente envolvida com dobradinha, pois o comércio existe para o lucro e, possivelmente, se houver insistência, esse será um relacionamento desgastante para ambas as partes, o que não convém ao nosso planeta. Não temos relacionamentos desgastantes, aliás, essa confusão de relacionamentos e amizades é coisa para terráqueos, não para nós.

Joseane até mesmo sorriu da ideia, por que motivo ela iria se relacionar com aquela gente, mas foi corrigida imediatamente pelo atendente:

_A senhorita não pode dizer talvez para eles e nem para ninguém, o nosso planeta entende o talvez como sim. São as regras da boa convivência do planeta. O não é aceito com distinção porque é parte do livre-arbítrio, mas o talvez seja interpretado como falta de caráter de quem titubeia em dizer sim.

Joseane entendeu a seriedade do assunto. Diria não toda vez que se falasse em dobradinha, não importando o modo como fosse feita a pergunta. No entanto, pediu para que o atendente falasse a respeito sobre os produtores e fabricantes de dobradinha.

O atendente foi solícito com a visitante do planeta terráqueo e respondeu:

_Somos o planeta das decisões. Todas as decisões são respeitadas. Mas o que são decisões? Agora estamos no mundo dos conceitos e por aqui os conceitos que valem vem da lógica e nada mais. Não temos filosofias outras, as emoções são passadas para trás constantemente.

Joseane perguntou como é que ela havia chegado naquele lugar tendo levado até agora uma vida repleta de ideias e emoções.

O atendente percebeu a perspicácia da pergunta, mas a resposta estava na ponta da língua:

_A senhorita chegou até aqui porque foi educada a dizer sim e não, sem muitos questionamentos ou teorias sobre os fatos. Não fosse essa educação simples e sem malícia a senhora jamais teria chegado até aqui. A senhorita não imagina a quantidade de terráqueos que usam artifícios para não responderem nem sim e nem não e querem vir para cá. Não chegam nem a comprar a passagem de vinda.

Joseane contou da coincidência de ter ido parar ali. Depois que algumas pessoas se mudaram para Marte, as empresas espaciais começaram a vender passagens espaciais a esse planeta que pouca gente visita e, ela, ao ver o anúncio e saber que voltaria comprou num dia em que estava aborrecida por algum motivo sem importância, o que no caso dela significa uma moeda entalada na máquina de lavar roupas causando o travamento da máquina e a impedindo de lavar a roupa necessária, obrigando-a a lavar a roupa no tanque e lascando as suas unhas pintadas. Foi nesse momento de tirar a moeda entalada da máquina que ela pensou que se a máquina de lavar roupas funcionasse bem após ela ter pinçado a moeda, ela gastaria a moeda naquela passagem.

Agora foi a vez de o atendente sorrir para ela e dizer:

_Estou certo, houve uma condição e a sua resposta foi sim. A sua vida é feita nessas duas palavras: o sim e o não. Quem foi que disse que para ser uma pessoa decidida é preciso exercitar-se em questões complexas? Não deixa de ser engraçada a sua história, porque muitos chegam aqui por outros meios. Deixe-me dizer que alguns chegam aqui e ao se apresentarem não apresentam a sua identidade, ao contrário, chegam aqui e dizem o que comem em primeiro lugar. Alguns chegam mesmo a trazer o rótulo da embalagem do seu produto preferido. Saiba que são atendidos da mesma forma e com a mesma atenção. Não distinguimos o livre-arbítrio de ninguém, também não julgamos. Compraram a passagem e chegaram aqui através das duas palavras que nos importam. Fornecemos os contratos e os regramentos, também perguntamos a eles sobre o alimento que eles não comem de jeito nenhum.

O passeio começou e Joseane aproveitou os seus dias com toda a lógica que possuía.

Chegou cansada à Terra, precisava de ideações e sentimentos e foi ao lanche na lanchonete da esquina.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Final de Festa / Crônica de Supermercado

Final de Festa / Crônica de Supermercado
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Querendo ou não, fui buscar os pães, peguei fila, e não gostei do que ouvi.
Parece ainda ressaca, mas não; dessa vez a realidade estava ali, contada por um casal de namorados uma dezena de pessoas à minha frente na fila.
O garoto disse para a namorada:
_Sabe quem é aquele homem que está no caixa número x?
Ela disse que não e ele contou sobre o homem, não somente para a namorada, mas para toda a fila.
_Aquele homem exerce uma alta função na instituição financeira “Dinheiro Seguro” (nome fictício proposital diante do absurdo presenciado). Ele recebe mensalmente R$325.000,00 – trezentos e vinte e cinco mil reais por mês. Mora na Rua 1000, sem número (endereço fictício, pelo motivo citado acima).
A namorada perguntou ao jovem como é que ele sabia tanto daquele homem e ele disse que trabalhava numa loja próxima a casa dele.
O jovem disse ainda que o admirava pela simplicidade dos gestos e, apesar de todo o dinheiro que possuía, estava no supermercado igual a qualquer consumidor.
A namorada olhava para o namorado com ar de surpresa. Eu fiquei indignada
A minha indignação é pela vida do homem contada em fila de supermercado, se é que é verdade, conforme o jovem disse que realmente sabia.
Não conheço o cidadão e nem os seus talentos para o mercado financeiro, mas certamente sabe mais que muita gente e tem os seus méritos. Duvido que o homem em questão tenha se exposto em público, ele seria responsável pelo posto que, de fato conseguisse.
O jovem conseguiu muitas expressões sisudas nessa fila, pois mesmo que soubesse, não deveria expor um cidadão, que nem sequer o ouvia, a essa situação constrangedora.
O Ano Novo começou de fato e, não muito divertido.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Um Casamento de Aventura

Um Casamento de Aventura

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A mãe de Aline ligou. Convidou a filha e o genro, Emerson para almoçarem na casa dela no sábado.

Aline e Emerson formavam um casal jovem e apaixonado. Haviam se casado há dois meses, ele com vinte e três anos de idade e ela com vinte.

Bons filhos, contariam, sem muitos detalhes, a aventura pela qual passaram. Aline pediu para que a mãe fizesse papo de anjo para a sobremesa. Aquela sobremesa era a preferida da filha e, a mãe, concordou em fazer e no mesmo momento pediu ao marido que fosse buscar os ovos no supermercado.

O casal chegou sorridente. O pai e mãe de Aline estavam orgulhosos do bom casamento que a filha fizera. Emerson era atencioso para com Aline e Aline era carinhosa para com o marido.

Saudosos da filha que não viam há mais de quinze dias, perguntou das novidades, Aline tinha dito ter passado por alguma aventura e eles gostariam de ouvir sobre as primeiras aventuras, ou, dificuldades, da vida de casada.

Emerson preparou a história:

_Dona Camila e seu César, eu e a Camila resolvemos ir ao motel.

Dona Camila disse que ir ao motel nem deveria ser considerada uma aventura, mas um tempero a mais no relacionamento do casal e que eles nem precisavam contar nada a respeito, pois estavam casados e a vida particular deles.

Aline entrou na conversa e disse:

_Sei disso mãe, mas aconteceu uma briga de casal num outro quarto enquanto estávamos lá.

César disse que quem vai ao motel pode se aborrecer, mas ainda assim era uma decisão do casal e ele respeitaria a privacidade deles.

Emerson e Aline disseram juntos e, ao mesmo tempo:

_O motel chamou a polícia.

César e Camila se entreolharam e concordaram que eles provavelmente mostraram os documentos e vieram embora.

Aline disse que não. Emerson havia sido promovido numa empresa de renome e não poderia ser caso de motel.

Finalmente César e Camila se interessaram pelo assunto e aguardaram o desfecho da história.

Emerson ligou para o gerente e disse que não queria ser visto saindo do motel numa situação constrangedora, contou Aline, que concordou com o marido, pois o salário era muito bom e também disse que apoiou o marido.

Camila perguntou:

_Como foi que vocês se arranjaram?

Emerson estava com a fisionomia grave, mas respondeu dizendo:

_O gerente não conseguiu que nós saíssemos pela porta dos fundos e a polícia estava verificando quarto por quarto. O motel era no andar térreo e fugimos do lugar pela janela do banheiro. A camareira jogou um cobertor do segundo andar para cobrir a Aline que estava com um baby-doll dourado e sandálias de dedos. Eu vesti o meu pijama de tecido de sarja azul marinho e pulei a janela, também com as sandálias de dedos nos pés. As nossas carteiras de identidade estavam dentro do bolso da bermuda de dormir.

César, ligeiramente rubro, concluiu a história, dizendo que, provavelmente eles voltaram a pé para casa, tomaram um banho morno e foram dormir.

Aline, com um ar triste, disse que não. O motel ficava numa rodovia e eles andaram até o primeiro posto de gasolina que encontraram para emprestar o telefone do estabelecimento e chamar um táxi.

A mãe da Camila, preocupada, perguntou sobre e que acontecera depois.

Emerson continuou a história:

_Chegamos ao posto de gasolina. Expliquei a situação ao gerente e ele me cedeu o telefone após eu mostrar a minha carteira de identidade e falar próximo a ele para que ele visse que eu não cheirava a álcool. O táxi iria demorar quarenta minutos e as pessoas que faziam lanche na loja de conveniências começaram a olhar para a Aline e as alças do baby-doll dourado, que sem querer aparecia enquanto ela andava coberta com o cobertor do motel. Eu fiquei sem saber o que fazer muito constrangido.

Aline o interrompeu, dizendo:

_Nesse momento eu comecei a pedir a ele que comprasse um lanche. Eu fiz de propósito, para mostrar a todos que éramos um casal. Ele percebeu e disse que lancharíamos quando chegássemos a nossa casa.

_Começamos de birra um para com o outro, mas em tom ameno. Tínhamos medo que o gerente do posto de gasolina chamasse a polícia. Fomos para frente do posto de gasolina para esperar o táxi.

César murmurou a palavra sim. Agora, pálido.

Emerson continuou a história dizendo:

_O gerente do posto de gasolina se viu numa situação embaraçosa quando Aline ficou em frente ao posto e ofereceu o lanche dizendo que eu não precisaria pagar. Eu segurei o cobertor para que Aline comesse o sanduíche e tomasse o suco de manga.

A essa altura, o pai e a mãe da moça conseguiram dizer: Hum. Nada, a voz estava contida na garganta, nada, além disso.

Aline disse que comeu o sanduíche devagar e o táxi chegou ao posto de gasolina.

Emerson disse:

_Ao nos ver naquele estado, de roupas de dormir e despenteados, com o cobertor e com as sandálias de dedos, o motorista pediu pagamento adiantado. Eu fiquei nervoso e peguei o cartão que estava no bolso da bermuda. O cobertor caiu e todos os fregueses do posto bateram palmas e alguns tiraram fotos com os seus celulares. Entramos no táxi com pressa. Por sorte, o cobertor do motel não era bordado com o logotipo do lugar e a Aline cobriu o rosto quando o cobertor caiu. Tudo terminou bem.

César e Camila ficaram estupefatos, olhando para frente como se a sala estivesse vazia.

Aline, boa moça e bem educada, foi até à geladeira, pegou o papo de anjo, as taças de sobremesa e serviu pai e mãe.

Emerson respirou fundo, aliviado, por ter compartilhado com os sogros o que não contaria ao seu próprio pai e mãe.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Almoço à Brasileira

Almoço à Brasileira

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Deixe-o dormir à ressaca,

Que hoje a cozinha é precisa;

Come essas sobras de graça,

Co’a água servida na brisa.

 

Sue o calor de quem assa,

Forno que o pão poetiza;

Mesa servida a quem passa,

É elaborada e concisa.

 

Sente o cansaço que aplaca

Nesse fornear que abaliza,

Nessa travessa que escassa,

Mesa que, a si, se entroniza.