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sábado, 20 de setembro de 2014

E Ninguém Foi Roubado

E Ninguém Foi Roubado

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Era uma vez três conhecidos: o demolidor, o reciclador e o produtor.

O demolidor possuía em suas terras um antigo castelo, ainda em boas condições e, rico como estava, decidiu por demolir o castelo, comprar material importado e construir outro.

O reciclador e o produtor questionaram a decisão, mas não houve solução, era da natureza dele desconstruir.

O demolidor era o dono e tinha o direito de fazer o que quisesse dentro da propriedade dele.

O produtor perguntou ao reciclador se ele iria recolher o material jogado fora para reciclá-lo.

O reciclador disse que tinha interesse na sucata final, mas que não iria ajudá-lo a recolher e guardar o material reutilizável. O material reutilizável não deveria ser reciclado enquanto não fosse sucata; o custo não compensaria.

O produtor pensou bem, alugou um terreno baldio ao lado da demolição e colocou uma placa:

“Aceito Doação de Material Reutilizável”

O demolidor ficou entusiasmado com a placa. Agora ele teria onde deixar todo o material que ainda não era reciclável, feliz por saber que alguém aproveitaria o que, para ele, não tinha o mínimo sentido de preservar. Demoliu com cuidado e, aos poucos, depositou no terreno do produtor.

O produtor, mesmo achando absurda a decisão do demolidor, tinha por hábito não interferir nas decisões alheias, mas, mesmo assim, perguntou ao reciclador se ele queria ver o material que estava no terreno dele.

O reciclador disse que não tinha o menor interesse naquele material. Os negócios exigiam objetividade e ele aguardava a sucata, que daria lucro e sobre a qual tinha anos de especialização no mercado. Reafirmou que o material reutilizável para ele significaria prejuízo.

O produtor decidiu reutilizar o material, construindo o castelo que fora destruído no terreno do outro, dentro do terreno dele.

Enquanto um demolia, o outro construía o mesmo castelo, mas toda a sucata continuou indo para o reciclador.

Quando a demolição terminou, o demolidor observou que o castelo que ele jogou fora estava no terreno do vizinho.

O reciclador se sentiu roubado, porque a sucata era a especialidade dele.

O produtor perguntou se ele teve algum prejuízo com a sucata. Ele respondeu que não, ao contrário, havia lucrado e muito com a imensa quantidade de sucata gerada pelo projeto do demolidor.

O demolidor se sentiu enganado e foi falar ao produtor.

O produtor diz ao demolidor se, ele sentiu algum arrependimento em se desfazer daquela construção.

O demolidor disse que não e afirmou que o que o contrariou foi perceber que a construção estava em pé, embora demolida.

O produtor perguntou se o projeto de arquitetura moderna estava em desenvolvimento.

_Está sim! Construirei uma mansão onde havia o castelo que hoje está no seu terreno.

O demolidor e o reciclador reclamaram que não sabiam do projeto.

O produtor disse que não havia projeto até o dia em que as plantas arquitetônicas do castelo vieram parar no seu terreno, junto com os materiais reutilizáveis. Naquele momento ele se lembrou do dia em que disse que era triste verificar a insignificância que o material adquire depois que perde a forma original. O produtor lembrou, sentiu, pensou e reconstruiu à sua maneira.

Ninguém foi roubado, mas estão sem humores de uns para com os outros…

Nesse caso, enfim e ponto final.

Um comentário:

Célia Rangel disse...

Em cadeia de produção, os três filosofaram e muito com suas atitudes... Interessante, principalmente hoje, quando vemos tanta desconstrução física e pessoal...
Abraço.