Lugares Bonitos

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O blog da Nina, menina que lia quadrinhos.

sábado, 9 de abril de 2016

A Professora e o Giz / Crônica de Supermercado

A Professora e o Giz / Crônica de Supermercado


     Esses dias eu saí para comprar pães na hora em que o supermercado está cheio. Eu sabia que iria enfrentar uma fila maior que a de costume, mas para isso existe a paciência.
     Atrás de mim, uma senhora, mais ou menos da mesma idade.
     Foi ela quem puxou conversa.
     _Eu não estou suportando o barulho.
     A fila estava normal, com os barulhos típicos de burburinho de pessoas, cestas e carrinhos. Eu disse a ela que estava esperando pela fila e que naquela hora era normal o burburinho.
     _Eu não estou suportando o barulho do giz.
     Eu vi que o assunto era outra e esperei pela continuação da questão dizendo que eu não ouvi o barulho do giz.
     Ela explicou:
     _Para mim, o barulho da cesta, quando empurrada ao chão para o andamento da fila contém o barulho do giz.
     Olhei para ver o que se passava atrás dela. Era um garoto de mais ou menos doze anos, com a feição mostrando a criancice, que empurrava ao chão a sua cesta de compras, a qual continha um pacote de cinco quilos de arroz e mais alguns alimentos básicos. Era pouca coisa, mas estava bastante pesada.
     A senhora não disse nada ao garoto. Olhou para mim e disse:
     _Por que é que quando compram itens pesados não pegam o carrinho?
     Eu não respondi por que àquela altura havia mais vinte pessoas atrás do garoto e, se ele saísse da fila, iria demorar muito tempo para entrar na fila de novo. É garoto, mas é criança e tem mãe esperando em casa por ele.
     Eu resolvi conversar com ela e perguntei se ela era professora.
     _Sou professora aposentada e, o problema começou enquanto eu ainda dava aulas. Eu me aposentei e o problema está aqui. Eu passo mal com o barulho de giz.
     Eu olhava os dois atrás de mim: a professora de estatura por volta de um metro e sessenta centímetros de altura e o garoto com mais ou menos um metro e setenta e cinco de altura. Ele estava assustado com o jeito dela, mas curioso para saber o caso.
     Ela falou do mal estar, colocou o segundo dedo com as juntas do tarso e metatarso na boca para morder. Mordeu até sentir dor. Ela disse que precisava morder alguma coisa para não gritar porque parecia que a dor de cabeça aumentava a cada instante.
     O garoto tomou cuidado para não empurrar a cesta de modo barulhento, mas de nada adiantou.
     A situação foi dramática ao ponto dela dizer:
     _Tomara que chegue logo a minha vez. Preciso correr para me livrar desse barulho de giz.
     De fato, ela correu para o caixa quando chegou a vez dela. Estava com a testa franzida e pálida e, segundo ela, estava com muita dor. Foi o barulho que lembrava o giz na lousa que despertou o mal estar.
     Quando ela correu ao caixa, na minha frente, pois eu dei a vez a ela, o garoto olhou para mim. Ele queria dizer que não teve culpa dela passar mal e mostrou a cesta que ele levaria para casa.
     Eu não disse nada ao garoto e me mostrei tão surpresa quanto ele.
     Tenho a impressão que voltamos os três para nossas casas com o giz, a lousa, a professora e a escola, sem saber o fator gerador desse problema.
     Tem horas que a gente não sabe o que dizer.


Um comentário:

Célia Rangel disse...

Ah! o que o magistério não faz com algumas de nós, hein...
Ri da situação...
Abraço.