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quarta-feira, 16 de julho de 2014

História Comum – narrada em primeira pessoa

História Comum

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A coisa mais triste que tem na cidade é ter que sair dela para poder estudar. Alguns pensam que a gente não gosta da cidade pequena onde a gente nasceu. Não é verdade.

Na cidade pequena o doutor é amigo, o pão é quentinho, o café sai na hora. Tem bolo.

Mas, se não sair da cidade pequena, vou ser o que nessa vida? Sem estudo, o emprego é duro e o salário é pouco.

Aí eu estudo feito louco e com o pouco que guardo, vou para a cidade e faço a faculdade.

Consigo ser doutor que nem o amigo da cidade onde nasci.

Quero voltar e ajudar toda aquela gente que bem conheci, mas não dá.

Não tem hospital para eu trabalhar, para ficar por lá tem que ser clínico geral, abrir consultório, viver no purgatório e mandar a gente para cá, para a cidade grande.

E o café fresco com pão e bolo eu como, quando a minha mãe vou visitar. E vejo a idade dela chegar e, eu, ainda sem ter como trazê-la para a cidade grande morar.

Monto o meu consultório, compro a minha casa, caso, tenho filhos e, o tempo, ah, deixa para lá.

Quando, depois de dez anos de profissão, junto dinheiro para comprar um apartamento para ela, ela não aceita. Onde é que ela encontrará pão fresquinho e tanto carinho, o qual não se pode pagar?

E não adianta falar. Não tem escola para estudar. Onde se viu escola de medicina no interior, ninguém quer ir estudar longe das facilidades da cidade grande.

Parece que o interior não interessa a ninguém. A população diminui, criam-se cidades fantasmas enquanto a cidade grande se torna fábrica de marginais.

Toda a gente de bem tem o seu jeito de ir ao interior. O miserável que sai de lá com uma mão na frente e outra atrás, não consegue voltar. O submundo fornece mais ao desprovido de estudo.

Quando, num dia de zanga eu digo do que é que adianta televisão se é por ela que eu sei do meu irmão.

Mágoa cabocla nunca é pouca, mas aquilo que chamam sertão também é meu chão e nunca me negou um pão.

Para consolo meu, eu atendo a toda a gente que vem de lá. Trato bem, eu indico a refeição e, quando posso, até mesmo um ganha-pão.

Não adianta se queixar, por lá o futuro e a profissão ficaram de lado. Importante na cidade é o prefeito, o juiz, o promotor, o médico e o religioso, além do comerciante da venda do armazém. Eles mesmos mandam os seus filhos para lugares com mais recursos.

Eu penso no futuro do interior e, às vezes penso que o futuro do interior é virar mato de novo. Depois, vêm novos imigrantes para desbravar a terra que teve dono, mas que se foi embora para a cidade grande.

Não é desesperança não. É que se eu não digo quem o dirá?

Eu, que nasci e me criei num bom lugar, vim para cá, me fiz, sou um bom cidadão. Diga lá, se eu não o disser quem o dirá?

É todo mundo espalhado como se fossem gato e cachorro em busca de um lugar que não existe mais. Mas não existe mais porque ninguém pensa nesse existir.

Todo mundo pensa no interior das ideias tacanhas e não desenvolvimentistas. Colocaram o interior num altar, quando tudo o que o ser humano quer é sentir que os pés podem estar no chão. Com calçados, roupas, estudos e civilização. Respeito de um pelo outro em qualquer lugar do mundo.

Mas, se a gente continuar a pensar assim, daqui a pouco a cidade grande se tornará insuportável, cheia de gente e sem espaço para a movimentação.

O sonho de voltar ao interior será impraticável porque terá gente de fora desbravando o que é da gente.

Não tenho vergonha de ser um homem do campo. É mentira, eu não sou do campo; sou de uma cidade pequena. Mas para o povo daqui é a mesma coisa. Nem adianta tentar contar da diferença entre o fazendeiro e o homem comum da cidade pequena. O povo pensa que a diferença está na riqueza do fazendeiro. Essa é a pobreza da cidade grande.

A minha mãe tem quase noventa anos, é viúva, e não quer saber de vir para cá ficar comigo. Eu dou razão a ela. Quando ela fica doente, eu a trago e ofereço o melhor hospital. Ela melhora e volta para lá. E cada vez que ela volta para lá, eu me acabo de saudade, na vontade de dizer que, se eu pudesse, seria lá que eu ficaria também.

Mas a quanta gente eu dou saúde, que amiúde agradece pelo meu dom que é de curar. Essa gente toda que também me faz feliz porque escapou por um triz de não ter mais como remediar.

Quem sabe alguém me escute e, perceba que, apesar de tudo é falando desse jeito que eu sou feliz.

2 comentários:

Graça Pereira disse...

Interessante e verdadeiro! Acabei de ver na televisão um jovem estudante do Algarve que para tirar o seu curso superior tem de vir para Lisboa - a grande cidade. O governo e não só, ninguém investe no interior e a desertificação torna-se num pesadelo. A capital rompe pelas costuras com tanta gente, vida mais cara e muito menos saudável do que nas vilas e aldeias!!
Mas ninguém pensa nisso e a gente do interior continuará ser vista como menos válidos, menos intelectuais, menos sabedores...o que é um puro engano!
Adorei a tua postagem: é preciso falar...é preciso GRITAR!!
Um beijo carinhoso.
Graça

Ivone disse...

Lindo relato, é mesmo assim, que pena, pois seria tão bom poder viver sempre na cidade em que nascemos, são nossas raízes, vivo onde nasci, cidade grande, capital de São Paulo, não consigo pensar em deixá-la,acho que por isso posso avaliar como é difícil ter de partir para poder estudar,pois é, mais uma vez digo que pena que é assim!
Abraços linda amiga Yayá!