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sábado, 2 de julho de 2011

História de Ninar a Chuva

História de Ninar a Chuva clip_image002

Pouca gente hoje em dia sabe o que viver no mato, em casa de chão batido, e o povo não sabe mais se defender dos perigos. No mato tem perigo e muito para a gente da cidade.

Eu cuidava da plantas da dona Emerenciana. Ela visitava as terras nos fins de semana e levava todos os seus parentes. Chegava lá, fazia uma vistoria na casa, abria o fogão de lenha para ver se estava limpo, olhava o chão batido de terra varrido pela minha mulher. Ela era bondosa e sempre trazia umas latarias para a gente experimentar. Rio até hoje do enorme vidro de azeitonas que ela deu para nós e a gente procurando saber onde colocar de modo que ela ficasse contente. Bons tempos da couve fresca no pé, da alface limpa.

Ela chamava o capataz, que vinha logo com o facão para defender a criançada das cobras. Ele levava toda a turma de crianças para conhecer o mato, onde ainda não havia plantação.

_Olhem para cima e se virem algo parecido com cipó entre os galhos, me avisem. É cobra e elas são traiçoeiras. Prestem atenção, se uma cobra te morde perto da cabeça é morte certa. E se tiver cobra é porque tem rato no chão, não mexam em buracos na terra porque vocês não sabem qual o bicho que o fez.

Ele ia à frente agitando o facão por entre as folhas das árvores. A aventura demorava a tarde e depois as crianças eram recolhidas para o lanche de pão caseiro, café, leite de vaca tirado fervido na hora. Nem pensar em leite sem ferver, naquela época o povo morria de febre aftosa, não tinha vacina fácil de comprar e a gente dependia da visita do veterinário para aplicar a injeção nas vacas.

Todos tomavam o café da tarde, os adultos ficavam proseando na sala, os meninos jogando bola lá fora e as mocinhas ficavam no quarto, sempre com a janela fechada e o lampião aceso mesmo de dia, segredando bobagens, sentadas nas camas com colchão de palha e travesseiros de penas de ganso. Naquele tempo a mulher, fosse adulta ou fosse criança, não sabia se defender dos bichos do mato. Era aparecer uma taturana e a gritaria começava para deleite dos meninos que se sentiam mais fortes e confiantes à maneira das meninas medrarem.

Quando o céu ficava cinzento, a dona Emerenciana dispensava o café e comandava a volta dela e dos seus parentes para a cidade.

_Tenho receio que o carro atole e sejamos obrigados a passar a noite aqui. Criança e banheiro lá fora dão muito trabalho à noite. Tem que levar, esperar e trazer para a casa. E o banheiro é um pouco distante e a curiosidade deles é imensa.

Eu fazia a sacola com as galinhas vivas e o porco salgado na banha, todo o preparo para a comida não estragar na viagem. As verduras, ela mesma colhia, pois gostava de escolher aquelas que ela achava que estavam no ponto. Depois que eles se iam, a casa ficava no barulho dos bichos lá fora, que se faziam grandes e tomavam conta da imaginação da gente.

Está quase na minha hora de dormir e estou na cidade e, às vezes me pergunto onde é que eu encontro tudo aquilo de novo.

14 comentários:

Ma Ferreira disse...

Adorei a sua escrita.
Esra como se eu tivese presente.
Nasci no campo, você me fez relembrar daqueles tempos...

Parabéns pelo belo conto..

Bj
Ma

Marly Bastos in "palavreados ao vento" disse...

Eu sou bichinho do mato Yayá. Nasci em morei em fazenda até casar. Claro que tinha que ficar na cidade quando estava estudando, mas era na roça a minha casa. Meu pai morreu cuidando de terras e gado e minha mãe só saiu de lá pra nao viver sozinha.
Casa de chão batido eu conheço, embora não tenha morado em nenhuma. rancho de pau à pique, fogão de lenha com barrela, pote de agua fresquinha tirada na cisterna... Sabão de bola feito com sebo quando se matava gado ou porco e minha mãe extraía a soda de cinzas(chamava "de quadra" pq era curtida numa lata de 20 litros com um buraquinho para escorrer o liquido). Sei fazer farinha de mandioca e milho, polvilho da mandioca também. E outras coisa que quem mora na roça aprende.
Bons tempos, que eu tenho saudades, das prosas na frente da casa, todos sentados em bancos em volta de uma fogueira em dia de lua cheia.
Eita vc trouxe a sessão nostalgia pra mim e vou parar de escrever, pois quando desembesto me seguremmmm.
Adorei querida e pode deixar que eu controlo o vício direitinho, afinal sou uma menina esperta que só kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.
Beijos e bom domingo pra você.

MARILENE disse...

Realmente, poucos sabem o que é estar, simplesmente, no mato. Conheço essa vida, mas sou urbana. Tenho fobias (rss) mas não vou dizer de que (hehehehe). Quando lecionava, sofri muito com elas. Era escola rural.

Bjs.

Vinicius.C disse...

Rs muito bom, ou como dizia minha avó- eita coisa bão!

Quero agradecer seu carinho- o comentário em tom de conselho que obviamente peguei pra mim- muito obrigado!!

Espero que vc tenha um ótimo domingo!

Espero por vc no Alma!... Beijo!

Rodolfo Cuevas disse...

Saludo, apreciada Yayá:
Es ésta una historia sumamente entretenida e interesante; en verdad que me encantó.
Recibe mis fraternales abrazos, querida Yayá.

Jorge disse...

Prosa bonita com cheirinho a natureza. Gostei de ler.

AC disse...

Há um sentimento profundo, tecido de talento, sensibilidade e, porque não, nostalgia, que que emerge vivamente do seu texto.
Parabéns, gostei muito!

Beijo :)

Lena disse...

Minha linda Yayá
Acabei de completar hoje de manhã 600 amigos lá no Amadeirado. Dê um pulinho lá e pegue seu selinho no post Gratidão, pq vc é minha super parceira nesse trabalho que eu amo. Sem você, tenho a mais absoluta certeza, que o Blog não seria o mesmo. Bjkas com carinho. Obrigada!

Ingrid disse...

olá..
vim agardecer a visita e carinho..
conhecer por aqui e gostei..
beijos perfumados e um lindo domingo.

casos e acasos da vida disse...

Gostei muito do teu texto, tão cheio de alma!
Eu que sempre fui citadina, adorava morar no campo, mesmo com todos esses perigos...e não deve ser fácil não, mas tem o seu fascínio!
Bjs,
Manú

Borboleteando disse...

Oii, vim te deixar um abraço e agradecer seu carinho...
Beijo, tenha uma semana iluminada

Paulo Sotter disse...

Lindo o texto. Me remeteu a um local e época de que tenho muita saudade. Descreve muito bem a vida de quem mora no campo. Parabéns pelo fluência e narrativa contagiante.

OceanoAzul.Sonhos disse...

"Está quase na minha hora de dormir e estou na cidade e, às vezes me pergunto onde é que eu encontro tudo aquilo de novo."

...aquilo tudo encontra em suas lembranças.

Maravilhoso texto, duma simplicidade que faz bem à alma.
bj
oa.s

João Raposo disse...

Nasci no campo, mas um campo bem diferente deste, sem bichos para temer. Países diferentes, bichos diferentes.
Gostei.