VideoBar

Este conteúdo ainda não está disponível por conexões criptografadas.

VideoBar

Este conteúdo ainda não está disponível por conexões criptografadas.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Carta Literária Publicada pela Editora Guemanisse

Carta de irmã para irmã.

Curitiba, 08 de agosto de 2009

Querida irmã Alessandra,

Eu jamais deixaria de te dizer o motivo pelo qual me afastei de toda a família. Eu precisava respirar querida. Estava sufocada com tantas punições exemplares para que eu fosse adaptada a um mundo frívolo de uma sociedade sem princípios éticos e respeito à dignidade humana. Você sabe o que eu passei e, assim, você sabe que eu tomei conta de casa da melhor maneira. Eles gostariam que eu fosse médica, mas a enfermagem me realiza. Pagamos uma cirurgia com a minha enfermagem, lembra-se?

Não posso me envergonhar de cuidar dos pacientes quando constato que todos estão bem de saúde. Eu fiz a minha vida com os meus braços, literalmente falando. Veio à tona na memória quando papai entrou em concordata e quase faliu. A casa cheia de pessoas ditas “finas” todos os dias. Você não presenciou a diversão delas enquanto a mamãe servia o chá. Convidavam mamãe para viajar e ofereciam hotéis de alto nível para o casal. Diziam à mamãe o quanto estavam penalizadas e o quanto poderiam ajudar comprando a loja. Uma delas me ofereceu um emprego e eu perguntei qual seria a ocupação e ela me ofereceu o emprego de servir cafezinhos. Ela se divertiu sem saber que aquele emprego poderia de fato me auxiliar.

E aquele amigo do papai? Eu vi os sinais obscenos que ele fazia enquanto o papai ficou de costas para ele e se dirigiu ao caixa da agência bancária. Os demais clientes o acharam de mau gosto. Eu estava afastada pegando um extrato no caixa eletrônico e, infelizmente vi a cena.

Toda essa gente dura, que perdeu a capacidade de se emocionar, que tem lições e mais lições a ensinar, regulamentos e normas para descumprirem às escondidas, é a gente que eu não mais quero conviver. É a gente que corrobora a minha intenção de continuar fora desse meio ambiente social. São pessoas que não fazem falta na minha vida, mas fazem falta na vida empresarial.

Alguns deles evitam a exploração do homem pelo homem. Eles compram, vendem e regulam a sociedade empresarial. O comércio foi o nosso berço, o nosso pão de cada dia. Preferia não ter nascido em berço tão distinto e tão culto. As nossas amigas contrataram psicólogas para me convencer do impossível. Usaram diversas escolas de psicanálise na tentativa de reverter a minha decisão. São moças humildes, tiveram uma infância sofrida e não hesitaram em aceitar algum dinheiro para me dissuadir do grave crime que é deixar de freqüentar a sociedade. Pelo menos elas ganharam o dinheiro delas, não é mesmo? Pensando em praticar o bem, elas me magoaram enquanto eu precisava apenas de apoio. Senti o que é ser só de fato. Você, minha irmã, foi e é o meu conforto. Quem sabe se essa vida social que temos não seria um lugar desconhecido que elas visitariam como se fosse um doce com sabor de encanto? Será que elas se esqueceram que as enfermeiras também trabalham com psicólogas?

Você sabe o que eu vivi e, por mais que a saudade seja difícil, você me compreenderá. Eu poderia te telefonar, mas eu quero guardar esse momento para sempre. Os homens de bem dizem que vale o que está escrito. Deixe-me brincar com você. Eu nunca te disse, mas eu te amo minha irmã.

As pessoas mais simples não têm a menor idéia das pressões que sofremos. Aquela empresária no shopping, que pediu licença para chorar em um vestiário de uma loja de departamentos antes de abrir a loja dela. Ela me disse que no momento em que as amigas a vissem, iriam atrás dela como moscas ao açúcar. Ela tinha dores e estava doente, mas a maquiagem estava pronta e o cabelo e as jóias também. Se as amigas dela soubessem que ela estava mal, iriam noticiar na coluna social e ela sequer se recuperaria da doença. Ela, conhecida nossa de vista, olhou para os meus olhos e sorriu com ternura. Ela já sabia da minha posição, os ouvidos dela sabiam de mim. Ela não tinha saída, eu tenho.

Como eu posso me interessar por amigos de sociedade? Eles amam os negócios e as amigas são parte de um jogo social, um relacionamento entre os melhores. Fui dura neste comentário, mas estou decepcionada com eles. Conheço profissionais de saúde, motoristas de caminhão e mecânicos mais sensíveis que eles. Um motorista de caminhão carregou a minha sacola de compras outro dia por mera gentileza. Eu agradeci e ele disse “de nada, querida”. Eu preciso de gente assim ao meu lado.

Querida irmã, enquanto eu me desabafo com você, interrompi a carta três vezes. Algumas das nossas conhecidas telefonaram e perguntaram o que eu vou fazer com os objetos que eu não vou levar para a minha nova residência. Elas não estão preocupadas comigo, mas com o meu computador, com as minhas bolsas e bijuterias (guarde o segredo, nunca diga a ninguém que eu não uso jóias). Pergunto-me se é assim mesmo em todos os lugares. Eu preciso descobrir sob as ordens de quem, aquele delegado subornou um policial para levantar o meu passado. Como é que eu soube? Nós temos a coleção dos melhores livros policiais na sala do plantão. E ele, o policial, me contou para ver como é que eu reagiria. Eu não tenho vocação para policial e disse isso a ele, entre outras coisas não publicáveis. Sabe o que eu penso disso? É melhor não escrever. Eu sou uma pessoa responsável. Ele que vá para Brasília. Eu amo a minha profissão. O meu meio de trabalho é diferente do dele, mas tão honrado quanto o dele. Não sei se ele me entendeu.

Querida, eu sei que não me livrarei tão facilmente desse ambiente, que para mim é nefasto. Mas, se permanecer nesse ambiente, que é errado sob o meu ponto de vista, eu estarei doente e não auxiliarei mais ninguém. Sou adulta o bastante para cuidar de mim e sou ajuizada até demais. Eu avisei a todos da minha mudança de vida e quem quiser que me ame desse jeito. Eu não suporto mais esse ambiente de desamor e frieza disfarçado em cuidados, em lições de vida e aconselhamentos que muitas vezes têm o intuito de me acorrentar. Eu me sinto mal aqui. O mundo lá fora não será um mar de rosas, mas a minha vontade é tanta de encontrar um caminho sem comportamentos obrigatórios e, eu estou tão feliz em tentar me realizar, que vou. O meu trabalho inclui tarefas simples tais como levar os doentes ao banheiro, dar banho, mas são serviços que ajudam a recuperação dos enfermos.

Vou ser livre e só, pelo menos por enquanto. Ninguém me conhece e eu só conheço os meus colegas. Você, que se adapta bem no meio, é uma lojista e convive bem com todo o público, está bem. Amor não faltou nem a mim e nem a você. Foram agradáveis quase todos os almoços em família. Temos um bom pai e uma boa mãe. Sorte a nossa que eles nos compreendem. Agora, os compromissos sociais são tão aborrecidos, que eu vou me arrumar como se estivesse empurrando o armário para limpar o chão. As especulações sobre quem está doente e a data do ponto final me irritam muito. Enquanto eu ajudo a adiar o fim de um paciente, tem gente que sente prazer na conversa doença. É de uma morbidez repugnante fazer apostas com dinheiro para ver qual dos amigos vai-se embora deste mundo antes.

O meu canto e esta carta têm a alegria da manhã, o perfume das flores, cheiro de um recomeço de vida. Ninguém abrirá ou fechará a porta para mim e, seu eu não me cuidar, a casa vira uma bagunça. Aos poucos, eu a enfeito. Na minha casa, essa gente não se sente bem. Eu quero é me sentir bem. Eu quero contar com você.

Eu poderia ser médica. Eu passei em segundo lugar no vestibular de enfermagem. Eu passaria em medicina. Eu não quis. O status, sozinho, não me satisfaz, eu preciso de gente. O meu “eu” não nasceu para os negócios. Conto com você nos momentos difíceis, porque eu sei que eles virão. Eu ainda terei que enfrentar algumas novas lições, eu e você sabemos disso.

Guarde esta carta para que possamos a ler em conjunto daqui a alguns anos. Vamos nos divertir com ela.

Um abraço e um beijo para você (dá-los-ei aqui em casa antes de arrumar as malas).

Com todo o carinho da sua irmã, Irene.

2 comentários:

João Raposo disse...

Viver para e por nós, nunca pelos ou para os outros. Nunca para a imagem. Viver por nós é construir o nosso caminho com quem nos quiser acompanhar. Se ninguém quiser, que construam o seu, mas que o construam.
Não posso mais com os que apenas seguem os caminhos que outros construíram, como se fossem carneirinhos a caminho do pasto.
O mundo é maior que o umbigo de cada um.

Aclim disse...

A vida é uma surpresa, nada como um dia após o outro.

Abraço