Um Caso Esquisito
Kátia foi às compras. Escolheu o presente e, quando perguntou à vendedora se havia desconto para pagamento à vista, a vendedora chamou a gerente.
A gerente era nada mais, nada menos do que uma conhecida sua do tempo da mocidade.
Kátia percebeu e fingiu não perceber que eram conhecidas, pois haviam se afastado uma da outra e ninguém sabia o motivo. Perguntou do desconto.
A gerente perguntou o nome de Kátia e ela disse. A gerente a reconheceu e disse que estava feliz em vê-la.
Kátia olhou para ela intrigada. A gerente parecia feliz em vê-la, realmente feliz.
_Vamos nos encontrar e conversar, disse Kátia à gerente.
A gerente chamou a freguesa de lado e perguntou a ela:
_E a minha irmã?
Kátia ficou sem saber o que dizer. Aguardou que a gerente continuasse a conversa.
A gerente olhou com carinho para a Kátia e disse, com um sorriso triste:
_Por que é que a minha irmã interferiu tanto na sua vida? Diga-me se tem cabimento! Se nós sairmos, a minha irmã irá junto, mas ela irá junto para fazer mais uma das suas. Nós não sabemos por que é que ela age desse jeito.
A partir daquele momento a gerente contou o histórico da outra. A birra havia começado nos anos 90. Foi depois que ela fez amizade com um grupo de pessoas. Perguntou à Kátia se ela imaginava quem eram as pessoas.
Kátia imaginava. Nos anos noventa todos os jovens frequentavam os mesmos lugares e se conheciam.
_Kátia, você sabe se havia algo, algum motivo pelo qual ela fosse obrigada a se comportar como eles. Você lembra-se do nosso grupo e o quanto nós éramos de bem com a vida? O que foi que aconteceu?
Kátia não sabia. Lembrava que eram diferentes daquele outro grupo de conhecidos. Mais nada.
_Nós não sabemos se ela foi pressionada ou chantageada, buscamos até hoje uma explicação para essa birra até hoje.
Kátia desconhecia por completo a vida particular da irmã da gerente. Lembrou-se dos encontros desagradáveis naqueles tempos.
A gerente disse que o problema não eram aqueles tempos. Era a necessidade de ainda hoje.
_Kátia, com todo o respeito evite essa minha irmã. Ela já fez demais para você e nós não sabemos o motivo. O problema é esse: não sabemos o motivo!
Uma lágrima desceu pelo rosto da gerente.
A situação não poderia ser mais desconfortável. Mas, ao ouvir a gerente, Kátia lembrou-se de tê-la visto outro dia, do outro lado da praça.
Ambas não sabiam o motivo daquele comportamento. Kátia pensava consigo mesma no absurdo que era ninguém saber o motivo.
_Ela não te disse nada que pudesse indicar o problema?
_Nada. Lembra-se do meu pai? Ele a questionou, várias vezes, e ela dizia que era por diversão.
Kátia se emocionou. Ela estava no automóvel em frente à farmácia esperando um familiar que havia ido comprar remédios quando avistou no carro ao lado o pai da gerente. Ele estava com bastante idade e doente. Mesmo assim abriu a vidraça do automóvel dele para dizer “Fique com Deus”. Ela agradeceu essa bênção e sorriu. Havia sido o último contato entre ela e a família da gerente. Fazia mais de dez anos. Não teve coragem de contar a cena para a gerente.
_Não se preocupe, é difícil nos encontrarmos. Somos adultas e cada uma de nós leva a sua vida.
A gerente olhou para Kátia e disse que não era difícil. Ela, a irmã, gostava de saber da vida de Kátia como se ela a houvesse feito algum mal, ou, por causa dela, ela houvesse sofrido muito. Repetiu a recomendação para que Kátia a evitasse fosse do jeito que fosse.
Kátia decidiu por não mais pedir o desconto e ir ao caixa pagar. Pediu licença à gerente, disse da hora do almoço, que tomaria cuidado e pegou o papel do pedido para pagá-lo.
A gerente, ao vê-la com o papel do pedido para ir ao caixa, pediu por alguns momentos e assinalou o desconto.
_A gente se vê!
Abraçaram-se com ternura.
Tempos de Natal.
