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O blog da Nina, menina que lia quadrinhos.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Resort Halloween / Conto

Resort Halloween


     Resort cinco estrelas.

     Rosa quis se divertir com a festa, comprou a estadia e se dirigiu ao Resort do Vale das Sombras, local cujo nome foi modificado para que a sensação de mal estar começasse ao adquirir o pacote turístico.

     Convidou uma amiga que gosta de Halloween para ir com ela, mas naquele preço, a amiga desistiu, mas animou Rosa para a festa.

     _Por certo haverá abóboras e todas aquelas fantasias terríveis, muitos doces e travessuras. Aproveite.

     Rosa foi, mesmo sem companhia, pois as parcelas do pacote estavam pagas, e não tinha nenhum impedimento que a obrigasse a desistir.

     Chegando ao Resort, descobriu que tinha um chalé à sua espera, piscina térmica, e um jardim com calçamento apropriado para as caminhadas.

     Parecia um resort normal, e deveria haver alguma festa temática por ali. Ficou curiosa, pois nada havia de aterrador naquele lugar.

     Tomou um banho quente, vestiu o pijama e foi deitar.

     De madrugada ouviu passos em volta do chalé, mas cansada da viagem, dormiu mais uma hora. Os passos continuavam em volta do chalé.

     Pensou que deveriam ser hóspedes de algum chalé por perto que estavam insones. Quando amanhecesse iria até a recepção para conversar a respeito.

     Amanheceu, fez um café de cápsula na cafeteira disponível no quarto, tomou e abriu a porta para respirar o ar da manhã.

     _Bom dia, Dona Rosa.

     Assim disse o homem que estava à frente da porta, funcionário do hotel.

     Imediatamente Rosa pediu desculpas por ter aberto a porta sem estar adequadamente vestida e penteada para a manhã, e entrou no chalé para se compor.

     Arrumada, abriu a porta meia hora depois. O homem estava lá.

     _Bom dia, Dona Rosa.

     Séria, disse bom dia. Perguntou o que ele desejava conversar.

     _Espero que a senhora tenha trazido alguém para conversar. Ali, no Resort, as interações eram somente entre os hóspedes e os funcionários do hotel.

     Ela disse que, por certo, encontraria os demais hóspedes no caminho do refeitório.

     Ele respondeu que não. Os horários para o café da manhã eram privativos para um chalé, e somente depois que os hóspedes de um chalé saíssem do refeitório, seria permitido que os hóspedes do outro chalé entrassem para o desjejum.

     Rosa disse que isso não seria problema, e foi ao refeitório.

     De fato, um café da manhã com o que se poderia imaginar de doces e salgados, cafés diversos, sucos e tanto mais que sentiu-se numa confeitaria de cafés especiais.

     Depois de satisfazer a fome e o cansaço, foi caminhar.

     Cadê os outros hóspedes, pensou. Não viu ninguém no caminho.

     Observou os outros chalés, e as cortinas se entreabriam e fechavam como se estivessem a observar os passos dela. Ouvia ranger de portas e janelas se abrindo e fechando, era tudo o que se passava por ali.

     Até ali não tinha se divertido muito, foi ao chalé e se arrumou para ir até a piscina, o dia estava bonito, e lá poderia se inteirar sobre as brincadeiras de Halloween.

     Na piscina avistou uma mulher que parecia ter a sua idade e resolveu perguntar a ela sobre o Resort.

     _Bom dia. Estou hospedada no chale'do alto, e você?

     A resposta a surpreendeu:

     _Eu não sou hóspede. Aqui temos os donos do lugar e os funcionários, e em qualquer lugar por aqui a senhora conversará apenas com donos e funcionários. Não lhe avisaram para trazer com quem conversar?

     Rosa sentou-se e olhou em volta o bosque com amoras e morangos para serem colhidos pelos hóspedes, voltou para o lugar onde a mulher estava e perguntou se as frutas eram colhidas pelos funcionários e como era aquela plantação tão bem cuidada.

     A mulher respondeu que era para os hóspedes colherem, se quisessem, era uma das atividades do lugar.

     Rosa colheu alguns morangos e amoras, e quando percebeu era hora de almoço.

     Dirigiu-se ao refeitório, e a refeição era repleta de sabores da cozinha internacional. Ali foi avisada que poderia tomar sucos, cafés, refrigerantes, e o que mais quisesse a qualquer hora do dia, com direito a salgados e doces disponíveis para o consumo durante o dia inteiro.

     Aproveitou que as pessoas que serviam no refeitório eram sociáveis, e perguntou as atividades oferecidas à tarde.

     _Rede de dormir, televisão, e caixa de som para que ouvisse os seus hits de sucesso preferidos.

     Perguntou sobre as atividades desportivas.

     De novo, outra resposta surpreendente:

     _São cadeiras 3D de onde se avistam os hologramas imaginários, com figuras criadas pela inteligência artificial, que combinarão certamente com o seu perfil, coisa que os algoritmos captam rapidamente a partir das suas escolhas nas máquinas de esporte.

     Ela disse que, para ela, isso era jogo, e perguntou o preço.

     _Está incluso no pacote Halloween. Além de não custarem nada, criam as ambientações sociais com as quais a senhora irá conviver durante a sua estadia.

     Rosa usufruiu de todas as ofertas durante a tarde, e voltou ao refeitório para o jantar.

     Um buffet de sopas e pães e queijos e frios a esperavam para o jantar.

     Antes de sair do refeitório perguntou sobre o que se fazia à noite no Resort.

     _A senhora se dirige ao seu chalé, tranca muito bem trancado e fica lá até amanhecer. Animais silvestres costumam passar pelo Resort à noite e não queremos que os nossos prezados hóspedes corram algum risco.

     Rosa voltou ao chalé e decidiu ir embora no dia seguinte, perder o dinheiro já pago, as demais diárias, e todas as refeições de restaurantes internacionais a que tinha direito, pois estavam inclusas no pacote turístico.

     Dentro do chalé ouviu os ruídos dos animais, que ela não sabia se eram reproduzidos pelos hologramas ou eram animais de fato.

     De madrugada começaram os passos.

     Pela manhã tomou o café da máquina, se arrumou e abriu a porta do chalé, mais preocupada com o homem que estaria lá fora do que com o ar da manhã.

     Dessa vez, não era o homem, era a funcionária com a qual havia encontrado na piscina.

     _Bom dia, a senhora prefere iogurte ou creme de leite para acrescentar aos morangos e amoras que colheu? Eu tenho os dois na minha cesta de lácteos refrigerados.

     Rosa escolheu iogurte, e disse que ouviu passos em volta do chalé durante a madrugada, e perguntou se havia sido ela.

     _Passos à noite fazem parte do som ambiente da madrugada, ninguém deve abrir a porta de madrugada, porque pode encontrar uma raposa, ou qulquer animal que aproveita a noite para se alimentar.

     Rosa foi ao desjejum e depois até a recepção, pedir por um motorista que a levasse até a rodoviária mais próxima.

     _A rodoviária mais próxima fica a quarenta quilômetros daqui. O serviço da agência, no entanto virá lhe buscar no dia e horário combinados. Nós não aconselhamos, mas se quiser, o motorista da caminhonete que traz os alimentos para o refeitório pode lhe dar uma carona, mas a estrada é de saibro, e se estiver chovendo há risco. 

     Rosa olhou para o céu e viu as nuvens.  

     _E se chover, como venho ao refeitório? Não trouxe sombrinha ou capa de chuva.

     A recepcionista disse para que ela viesse de traje de banho de piscina, e na sacola trouxesse as roupas para vestir, pois havia um vestiário feito exatamente para os dias de chuva. Na saída do refeitório aconselhava-se que vestisse o traje de banho e o quimono de saída de banho novamente para voltar ao chalé.

     Dali a pouco choveu e o som ambiente produziu raios e trovões. Esperou a hora do almoço para vestir o traje de banho, depois foi ao vestiário, trocou de roupa, almoçou pouco, e voltou ao chalé, e trocou de roupa novamente.

     Durante a tarde uma funcionária trouxe lanche e livros para ela se divertir enquanto o tempo não permitia. Os jogos de inteligência artificial não funcionavam sob a chuva.

     À noite a chuva amainou e Rosa foi ao refeitório para o jantar.

     Voltou, fechou todo o chalé e aguardou ansiosamente pelo dia de voltar pra casa, o dia seguinte. Não dormiu, assistiu televisão, até que adormeceu um pouco até o som dos passos voltarem de madrugada.

     Pela manhã abriu a porta e a recepcionista estava do lado de fora para lembrar que o motorista da companhia de turismo viria buscá-la e que sua estadia tinha acabado.

     Rosa foi até o refeitório, fez o desjejum, voltou para o chalé, fez as malas, se arrumou, e pensou que bastava a experiência.

     Com tudo pronto, fez o check Out, e disse o que pensou, que era se valia a pena ter estado ali para uma festa que não aconteceu, e que não via sentido naquilo que havia vivido naqueles dias.

     A recepcionista respondeu com bom humor:

     _O sentido é este, o de que o horror é chato demais e as pessoas devem aproveitar um bom momento, que pode ser em qualquer lugar, mas que o Resort fez o que a propaganda vendia, uns dias horríveis com todo o conforto para os seus hóspedes.

     Rosa perguntou sobre os outros hóspedes, aonde estavam e soube que os outros hóspedes estavam tendo as suas experiências horríveis planejadas com esmero.

     Voltou pra casa, e em seguida ligou para a amiga, que perguntou como havia sido o Resort, e respondeu que fora horrível, e a amiga disse que iria guardar dinheiro para ir até o Resort no ano que vem. 

       

         

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