Lugares Bonitos

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O blog da Nina, menina que lia quadrinhos.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Salvando à Pele

Salvando a Pele

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Jaciara estava doente. O doutor veio da cidade e a examinou, havia pouco a fazer. Deu remédios e foi-se embora.

Juraci, menina criança, ficava com a mãe.

As duas eram tristes dia e noite.

Juraci era triste pela doença da mãe. Jaciara era triste porque sabia que a filha seria enterrada viva, junto com ela.

A tribo tinha pena, mas eram as normas da tribo.

Estavam as duas na oca, quando Jaciara disse que iria planejar tudo de modo que Juraci ficasse viva e não fosse enterrada viva.

Juraci, sabendo que iria junto com a mãe, não se opôs, seria uma distração para enquanto o dia do fim não chegasse.

Jaciara pediu a tinta das flores da tribo e Juraci as pediu ao pajé

_Jaciara precisa de tintura das flores.

O pajé fez as tinturas e as deixou na oca.

Jaciara ordenou que colocasse as tintas sob a rede de dormir e Jacira as colocou pela ordem conforme a mãe ordenava.

_A tintura preta será a primeira e ficará entre a minha rede e a sua. Quando eu não mais falar e apertar a sua mão será o nosso adeus. Pinte-se de preto e fique na mina de carvão abandonada até que me enterrem sozinha. Não chore para que ninguém te encontre. Fique por lá duas luas e, depois, saia.

Embora o assunto fosse mórbido, prometia uma aventura antes de ser encontrada e enterrada viva. Juraci obedeceu às ordens da mãe no mesmo momento em que foram ditas. Afinal, a mãe seria enterrada morta, mas ela, viva.

Depois de algum tempo pensando, veio à segunda ordem:

_Misture poeira de cal às cinzas de carvão. Jogue-as ao vento e pranteie a nossa separação.

Juraci encontrou a sua dificuldade, o pajé não levou cal para a oca.

_Não temos cal.

Jaciara sorriu e explicou:

_Não temos cal porque a mina de cal fica a dois quilômetros daqui. Há frutas no caminho. Alimente-se delas até chegar ao cal. Pegue o carvão e o cal. Moa. Espalhe ao vento e chore. O meu espírito estará perto do seu coração, não tenha medo.

Juraci disse que se fizesse do jeito que a mãe mandava, ela ficaria longe da tribo.

Jaciara ficou séria e disse:

_Não volte para a tribo. Nenhum homem, mulher ou criança gostará de você. Toda a tribo tem alguma mulher enterrada com a sua criança. Eles acham que é certo. Ninguém tentou sair da tribo até hoje e esse é o nosso plano.

Juraci não sabia se conseguiria fazer tudo, mas pediu à mãe um modo de ter coragem para obedecer.

Jaciara mandou que ela pegasse a tinta vermelha e pintasse os braços.

Juraci pintou os braços conforme a mãe mandou.

A mãe então disse:

_Olhe a tinta e pense que é sangue, o seu sangue.

Juraci sentiu a coragem para prosseguir com os planos de Jaciara.

Mas, para onde iria Juraci, sem tribo, sem nada? A filha perguntou à mãe.

Jaciara, com determinação, respondeu:

_Pote de fel, pote de mel. Existe uma tribo que acolhe crianças perdidas há cinco quilômetros de distância. Há um rio no caminho, siga o rio em direção à nascente. Pegue uma folha de árvore grande e navegue sobre ela.

Juraci pensou e perguntou à mãe:

_A nossa tribo não vai atrás de mim? Se eles pensam que o certo é que eu seja enterrada com você, eles irão atrás de mim para me enterrarem, embora a essa altura do plano eu já não tenha tanta certeza de que eles me encontrarão viva.

Jaciara respondeu, amenizando a seriedade:

_Eles te encontrarão na outra tribo, mas a outra tribo não entrega crianças para nenhuma outra tribo.

Juraci, sabendo que a mãe estava doente, não discordou. Ao contrário, perguntou como deveria se comportar quando chegasse à tribo e fosse encontrada.

Jaciara percebeu a inocência da filha, conhecedora da dor da saudade antecipada. Pediu a Juraci que pegasse as tintas azul e amarela. Perguntou à filha do que diziam aquelas cores.

_O céu, o sol e a água limpa dos rios e das cascatas.

Jaciara, então disse:

_A se ver encontrada, lembre-se da tinta preta, das cinzas e da cal, também da tinta vermelha. Olhe para o céu e perceba que eu te guiei até ali. Sinta o sol brilhando no dia que nasce e respire fundo, você conseguiu chegar até lá. Sua mãe está contente com você.

O tempo passava e em meio à tristeza, a conversa prosseguia cada vez com mais pressa. Jaciara receava não conseguir terminar o seu plano para Juraci conforme queria.

O plano da vida de Juraci estava pronto, mas ainda havia palavras especiais a serem ditas e Juraci disse:

_A tribo será boa, mas ninguém será a sua mãe. Cuide-se. Seja generosa, mas não acredite em tudo. Eu cometi enganos, acreditei mais do que devia, mas sempre pensando no seu bem. Você precisa saber disso para quando for mãe. Eu te fiz feliz quando todos queriam te castigar porque você brincou com fogo e se queimou e não me arrependo disso, pois ninguém sabe o futuro. Onde se viu castigar criança queimada? Tem gente que castiga criança machucada, pense nisso quando for mãe. Mãe cuida, mas criança cega a mãe. É bom partir sabendo que a filha foi feliz, sabendo que dependeu de mim essa felicidade.

Juraci sofria com essa despedida, mas estava feliz com a conversa.

Chega a hora. Jaciara aperta a mão da filha fortemente.

Juraci pega a tinta preta e vai para a mina de carvão abandonada sem medo de bicho nenhum, pois a tinta preta cheirava mal e bicho nenhum chegaria perto dela.

Esperou passarem as duas luas e foi atrás da pedra cal, misturou-a as cinzas do carvão e jogou-as ao vento. Cansada, sentou-se e chorou até se cansar.

Correu até o rio e o seguiu em direção à nascente. Achou a árvore grande e navegou à margem para colher os frutos que encontrava no caminho por vários dias.

Um dia, ela foi encontrada por uma índia que se banhava no rio. A índia segurou as suas mãos e ela consentiu porque sabia que a tribo era aquela pela qual buscava.

Juraci olhou para a índia que a segurava e olhou para o céu e para o sol e sorriu.

A índia retribuiu o sorriso.

Juraci ainda obedecia às palavras da mãe, sendo generosa para com as crianças da tribo.

Passaram-se algumas luas e chegou o índio da sua tribo atrás dela.

O cacique disse que aquela índia não era a índia que ele caçava.

Mais duzentas luas se passaram e o pajé veio conversar com Juraci sobre as danças que ela precisaria aprender para as festas. Aproveita a conversa e pergunta:

_Você é a índia pela qual o índio caçador procurava?

Ela disse que era.

O pajé a corrigiu dizendo a ela que não mais dissesse aquilo, agora ela era daquela tribo.

Durante as festas, houve uma dança para a Lua.

Ao nascer da Lua começou a dança com Juraci. Jaciara parecia sorrir.

2 comentários:

✿ chica disse...

Fiquei presa até o fim.Adorei! Baita criatividade!Muito linda tua inspiração e tudo de bom,chica

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Os nomes e a história parecem levar-nos até ao interior do sertão. Aí as luas e as chuvas são a medida do tempo e a força dos homens se amarem como a força das árvores.