Renovação
Em cada janela um olhar
À rua, a distante visão,
Da infância num pestanejar.
São as festas a comemorar,
Presentes, compras e canção,
Cantada aguardando o ninar.
A criança vem iluminar
O tempo de renovação.
É um blog com artes e contos, crônicas, comentários, imagens e, arteiros em geral
Renovação
Em cada janela um olhar
À rua, a distante visão,
Da infância num pestanejar.
São as festas a comemorar,
Presentes, compras e canção,
Cantada aguardando o ninar.
A criança vem iluminar
O tempo de renovação.
Dos Livros para Jovens
Certa vez ouvi dizer que o que, de fato, mantinha a mente aberta para o novo, eram as crianças e os jovens dentro da família e que a sorte estava com quem tivesse família renovada.
A gente não se dá conta que está ficando ranzinza, mas está.
Ontem, por acaso perguntaram se eu havia lido o livro ou assistido o filme Crepúsculo. A resposta foi não, disse que não gostava desse tipo de filme.
_Você assistiu Frozen? Uma animação adorada pelas meninas?
_Também não. Conte-me a história.
A professora teve a paciência de me contar a história das duas irmãs que eram muito unidas, etc.
Mais conversas aqui e ali e acabei comprando um livro sobre uma história jovem. Livro fino e leitura rápida.
Com a idade a gente complica a vida, às vezes desnecessariamente.
A espontaneidade jovem nos faz falta. E que não se confunda espontaneidade jovem com caduquice.
Estava rabugenta.
Não estou mais.
A linguagem desses livros infanto-juvenis chega a ser hilária. Embora o livro não seja engraçado a gente ri da gente mesmo
Agora, talvez alguém me pergunte o título do livro. Qualquer título de Best-seller para jovens pode ser útil.
Ninguém quer recuperar o tempo perdido, mas refrescar o espírito é bom. Saber o que os mais jovens conversam entre eles, sem a interferência dos adultos na conversa.
A linguagem deles é outra e a deixamos com eles.
Mas as inferências deles conosco são divertidas, seja pessoalmente ou através de um livro.
Agora, cometerei uma inconfidência, pois uma garota, querendo ser atenciosa para comigo perguntou se eu sabia por que é que as menininhas, as meninas pequenas, gostavam tanto das princesas Anna e Elsa.
_Eu não sabia e ainda não sei. Você sabe?
A garota pensou, coçou o queixo e respondeu:
_Eu acho que é porque elas são pequenininhas. Eu, que sou grande, as acho chatas.
Conversar com criança deixa a gente surpresa.
Sem ter como continuar a conversa, sugeria à mocinha que me fazia companhia que observássemos as pequenininhas brincarem de princesas.
Ela concordou.
Sem mais conversas.
Eu preciso urgentemente me atualizar, com licença.
Pano pra Manga
O colega de trabalho convidou a colega para tomarem uma cerveja.
_Eu estava pensando em sair lá fora e fumar um cigarro. Lá na empresa é proibido.
O colega disse que queria conversar sobre os negócios do dia.
A colega pensou duas vezes e ficou.
_Eu fumo quando chegar em casa. Vamos conversar.
O colega trouxe a cerveja, serviu a colega e, para surpresa dele, ela tomou meio copo.
_Nós precisamos conversar sobre os negócios do dia. Vá com calma!
A moça desabafou:
_Ao meio dia passamos pelo pedágio da rodovia, cinquenta minutos depois estávamos no litoral fazendo negócios. Sem que fôssemos avisados que iríamos viajar, sem lanche, sem nada. Fechamos o negócio.
O colega a acalmou. Mas perguntou por que é que ela não tinha fumado um cigarro depois que chegou ao litoral do estado.
_Um cigarro que eu fume e eu perco o meu emprego, o meu salário.
O colega disse que isso era proibido por lei. A rua era um lugar independente da empresa e havia o café e os outros colegas que lá frequentavam.
_É que eu ganho bem, tenho um posto bom. Onde trabalhamos não é uma empresa qualquer, é uma “monstruosidade”. Esqueça o cigarro, vamos tomar a cerveja que os 120 km por hora me deixaram mal o dia inteiro. Quando eu chegar em casa é que eu vou contar para a minha família da viagem de negócios, não quero que eles se preocupem comigo.
O colega desistiu de falar dos negócios e deu toda atenção à colega.
_Nós estamos tomando cerveja depois do expediente e todo o pessoal da empresa pode nos encontrar aqui a qualquer momento. Você não tem medo disso?
Ela disse que não. A cerveja e o vinho são bem aceitos em sociedade.
_O que você acha que aconteceria se você fosse até o café e, depois, fumasse um cigarro com os colegas?
Ela disse que seria considerada dependente e viciada e seria encaminhada ao programa de recuperação de viciados patrocinado pela empresa onde trabalhavam. Condição essencial para a manutenção do emprego.
_Para ser fumante dentro da empresa é preciso fazer parte da turma de troca de favores, ao contrário passa a ser dependente de substâncias químicas.
O colega colocou a sobra da garrafa de cerveja no copo dele e foi ao balcão buscar refrigerantes.
A colega estava visivelmente estressada.
_E o passeio foi bom? A paisagem do litoral é bonita.
A colega respondeu:
_Passeio? Eu fui colocada dentro do carro com os contratos, mais dois colegas e o motorista. Fechamos o contrato e voltamos à Curitiba. A volta durou quarenta e cinco minutos. O meu emprego está garantido: não fumo e cumpro as metas, mas eu preciso descansar.
O colega disse que dia dezenove de dezembro será feriado.
A colega perguntou se a empresa tinha aderido ao feriado.
_Foram obrigados a aderir.
A colega, mas calma e contente com o feriado que terá para se organizar, perguntou por que é que é feriado no dia dezenove de dezembro.
O colega meneou a cabeça e respondeu:
_Parece que é o dia em que se comemora a Independência do Paraná.
A colega, pós-graduada, em conformidade como descrevia as suas obrigações de apresentação e postura, perguntou se, depois da Independência do Brasil, o Paraná teve que proclamar a sua Independência.
O colega respondeu:
_Parece que sim. O Brasil ficou independente de Portugal, mas o Paraná teve que ficar independente de São Paulo.
Terminei o meu lanche e voltei para casa pensando no dia dezenove de dezembro, Dia da Emancipação Política do Estado do Paraná, que deixou, nessa data, no ano de 1.853, de ser comarca do Estado de São Paulo. Esse desmembramento foi uma punição pela participação paulista na revolução liberal de 1.842.
Mas foi um bate-papo muito interessante.
Resolvida
Rosana era uma jovem bem nascida e, embora tivesse vida boa, não perdoava o divórcio dos seus pais. Ambos refizeram as suas vidas com outros cônjuges, mas ela se sentia roubada pelo destino.
Ao invés de compreender as dificuldades familiares, ela se revoltava com a situação e, aos poucos, adquirira uma espécie de ódio por todos aqueles que trouxessem consigo alguns valores de família.
Estava próxima de completar dezoito anos e queria passar as férias com o seu pai e a sua nova esposa, os quais moravam no Piauí.
A mãe negou a compra da viagem e o dinheiro. Disse à filha que, se o pai dela quisesse que ela passasse as férias com ele, ele que pagasse os custos da viagem.
Assim começa a história.
A garota queria dinheiro, não muito, apenas o suficiente para passar um mês no Piauí sem ter que pedir dinheiro para a mãe e o pai, muito menos para os respectivos cônjuges.
No bairro onde morava havia uma viúva que morava sozinha e uma imobiliária procurando imóveis para vender ou alugar.
Planejou transformar a casa da viúva numa casa mal assombrada, feia e mal cuidada, para que a viúva tivesse vontade de vendê-la.
Rosana tinha um semestre antes das próximas férias escolares. A comissão por indicação de imóvel encaixava-se perfeitamente no seu plano de férias.
Para executar esse plano precisava ao menos de um parceiro. Pesquisou entre os amigos e conhecidos alguém que coubesse nos seus planos.
O jovem chamava-se Reginaldo, tinha boa aparência e era educado. A fraqueza dele era pensar que sabia lidar com todos os problemas e com todos os tipos de pessoas, fossem elas boas ou más.
Rosana disse a ele que próximo a onde ela morava havia uma viúva que morava sozinha e que, muitas vezes ela pensou em ajudá-la, mas os estudos a impediam de fazê-lo. Quem sabe se, ele ajudasse, os dois pudessem fazer algo por aquela senhora.
Reginaldo disse que tinha algum tempo de folga durante a semana e, depois que Rosana mostrasse a ela de quem se tratava, quando a visse precisando de alguma coisa, ele a ajudaria.
_Obrigada, moço! Segue o seu caminho em paz.
Enquanto Reginaldo ajudava, Rosana conhecia a vida da senhora.
_Não deixe que ela arrume aquela casa! Duvido que ela saiba pegar as pessoas certas.
_Ela não tem problemas de saúde que a impeçam de fazer escolhas, Reginaldo respondeu.
O jovem não gostou da ideia de impedir a senhora de pintar a casa dela. No entanto, ele não era daquele lugar e concordou, porque, afinal, ele sabia lidar com todo o tipo de gente.
A senhora viúva certo dia, disse a ele se, por acaso, ele não teria nada mais útil a fazer na vida do que ajudá-la:
_Jovem, acho que você precisa procurar gente da sua idade, sair, conversar, cuidar mais da sua vida.
A essa altura, Reginaldo e Rosana tornavam-se cúmplices, pois a jovem contou ao amigo do plano da viagem para o Piauí.
Ele disse à amiga que era melhor que a senhora vendesse a casa, assim Rosana viajaria e ele não teria mais que ajudar a senhora.
Passou o tempo e a casa ficou desbotada. Rosana contatou a imobiliária e o corretor foi até a casa da senhora.
A viúva disse ao corretor que não queria vender a casa, ao contrário, queria deixá-la bonita. Sozinha e sem ter com quem trocar ideias, contou que além de não conseguir gente para pintar a casa, ainda estava se incomodando com um jovem que parecia não ter o que fazer na vida.
O corretor, que perdeu o seu tempo indo até a casa da viúva, cuja casa havia sido indicada por Rosana, agradeceu à senhora e se foi.
Seis meses depois, Rosana foi para o Piauí. Vendeu o carro que ganhou de presente de aniversário, especialmente comprado por sua mãe.
Reginaldo teve a sua vida ocupada com tarefas e compromissos para não pensar em Rosana. Chorava a ausência dela e muito sofria. Nunca mais apareceu na casa da senhora depois que o corretor de imóveis o repreendeu.
A casa da senhora estava pintada. O corretor de imóveis teve a gentileza de enviar um envelope com inúmeros cartões de visitas com nomes de lojas de material de construções com mão de obra especializada em consertos gerais.
Não se sabe que futuro tiveram os jovens depois do episódio. A história tem ponto final nesse parágrafo.
Universitário / Crônica do Cotidiano
Estava eu saboreando o meu café numa panificadora.
Próximo estava um estudante universitário. Carregava consigo livros e pastas indicando as atividades escolares. Olhava para a rua.
Para ser exata, eu nem havia notado a presença do jovem até que ele disse:
_A corja passou. Eu posso pegar o ônibus.
A frase dele foi espontânea e em voz audível.
Os fregueses olharam para ele.
A balconista disse ao gerente que todos os dias ele toma essa atitude. Pega o ônibus depois que um grupo de jovens desce do ônibus.
O universitário vira-se para o gerente e diz:
_Não adianta. Eles são arruaceiros e quem se mete com eles arranja confusão. Eu quero estudar. Para estudar eu pego o ônibus depois que eles a descem do ônibus.
A balconista reclama com razão sobre o tipo de vida que os jovens levam hoje em dia.
O jovem responde que essa é a realidade. A realidade do mais forte. Conta que quem reclama dessa turma nem pega o ônibus para ir à faculdade.
O pior é que ele se esconde todos os dias na panificadora até que os arruaceiros do bairro dele saiam do ônibus.
_Eles são vingativos. A gente não consegue argumentar com eles. Daqui a alguns anos eu estou formado e a situação estará resolvida. Seremos todos adultos e essa má fase deles passa.
A corja, pelo que avistamos da panificadora, é uma turma que anda sempre unida e sai em grupo.
Eu sei que a turma dobrou a esquina e ele foi para o ponto de ônibus.
Todos nós, que estávamos na panificadora, ficamos estarrecidos com a situação e com o comportamento do jovem que não faz parte da turma.
Ninguém disse nada a ele, mas sabemos que isso não é bom.
De repente, nem sei mais o que escrever.
Temperança
Da melhor forma
Crível, nós vamos.
Que o amanhã acorda;
Continuamos.
O copo à borda,
Bebericamos.
E não transborda;
D’água tomamos.
O traço informa
Que assim estamos;
Cansaço é norma
Que ao amor somamos.
Doce de Nozes / Crônica de Cotidiano
_Eu quero comprar um doce.
A confeitaria nova e bem decorada.
A moça virou-se para a freguesa e disse:
_Já sei! É para adoçar a bílis.
Foi aí que eu comecei a rir e cheguei para conversar com ela.
_Como é que é? Adoçar a bílis?
Ela, num tom de voz muito educado, disse-me:
_Sim senhora. Para adoçar a bílis. Eu farei o mesmo quando voltar do almoço. A senhora está servida?
Pedi um doce e um café. Não sei se preciso, mas, de repente é remédio.
Perguntei à moça se ajudava.
_O doce aqui da nossa confeitaria ajuda. É um doce caro e o café é gourmet. Ninguém compra dois e não prejudica a boa forma.
Gostei do jeito dela. Perguntei como é que funcionava e adoçava e não engordava.
_A senhora guarda a raiva. Amargura todas as mágoas e não as revela a ninguém. Mas não compra o doce até o momento no qual pensar em dizer tudo o que sente ao mundo. Come um doce. Conversa comigo e, pronto. Sai daqui boa e elegante. Porque eu digo que não é para todo dia. Mesmo porque o doce é caro e eu não posso comprá-lo todos os dias.
Eu sorri e disse que a bílis provavelmente estava sob controle.
_A senhora pensa que é somente com a freguesa que acontece dessas coisas? Que nada. Ah, se eu dissesse o que penso aí que estaria amargurada de fato.
Os meus meios são outros. Termino o dia como a página de um livro e o que está lido eu já sei. É diferente.
Comi o doce e tomei o café. Pensei nas outras freguesas, na simpatia da moça e caminhei devagar até chegar a casa.