História Comum

A coisa mais triste que tem na cidade é ter que sair dela para poder estudar. Alguns pensam que a gente não gosta da cidade pequena onde a gente nasceu. Não é verdade.
Na cidade pequena o doutor é amigo, o pão é quentinho, o café sai na hora. Tem bolo.
Mas, se não sair da cidade pequena, vou ser o que nessa vida? Sem estudo, o emprego é duro e o salário é pouco.
Aí eu estudo feito louco e com o pouco que guardo, vou para a cidade e faço a faculdade.
Consigo ser doutor que nem o amigo da cidade onde nasci.
Quero voltar e ajudar toda aquela gente que bem conheci, mas não dá.
Não tem hospital para eu trabalhar, para ficar por lá tem que ser clínico geral, abrir consultório, viver no purgatório e mandar a gente para cá, para a cidade grande.
E o café fresco com pão e bolo eu como, quando a minha mãe vou visitar. E vejo a idade dela chegar e, eu, ainda sem ter como trazê-la para a cidade grande morar.
Monto o meu consultório, compro a minha casa, caso, tenho filhos e, o tempo, ah, deixa para lá.
Quando, depois de dez anos de profissão, junto dinheiro para comprar um apartamento para ela, ela não aceita. Onde é que ela encontrará pão fresquinho e tanto carinho, o qual não se pode pagar?
E não adianta falar. Não tem escola para estudar. Onde se viu escola de medicina no interior, ninguém quer ir estudar longe das facilidades da cidade grande.
Parece que o interior não interessa a ninguém. A população diminui, criam-se cidades fantasmas enquanto a cidade grande se torna fábrica de marginais.
Toda a gente de bem tem o seu jeito de ir ao interior. O miserável que sai de lá com uma mão na frente e outra atrás, não consegue voltar. O submundo fornece mais ao desprovido de estudo.
Quando, num dia de zanga eu digo do que é que adianta televisão se é por ela que eu sei do meu irmão.
Mágoa cabocla nunca é pouca, mas aquilo que chamam sertão também é meu chão e nunca me negou um pão.
Para consolo meu, eu atendo a toda a gente que vem de lá. Trato bem, eu indico a refeição e, quando posso, até mesmo um ganha-pão.
Não adianta se queixar, por lá o futuro e a profissão ficaram de lado. Importante na cidade é o prefeito, o juiz, o promotor, o médico e o religioso, além do comerciante da venda do armazém. Eles mesmos mandam os seus filhos para lugares com mais recursos.
Eu penso no futuro do interior e, às vezes penso que o futuro do interior é virar mato de novo. Depois, vêm novos imigrantes para desbravar a terra que teve dono, mas que se foi embora para a cidade grande.
Não é desesperança não. É que se eu não digo quem o dirá?
Eu, que nasci e me criei num bom lugar, vim para cá, me fiz, sou um bom cidadão. Diga lá, se eu não o disser quem o dirá?
É todo mundo espalhado como se fossem gato e cachorro em busca de um lugar que não existe mais. Mas não existe mais porque ninguém pensa nesse existir.
Todo mundo pensa no interior das ideias tacanhas e não desenvolvimentistas. Colocaram o interior num altar, quando tudo o que o ser humano quer é sentir que os pés podem estar no chão. Com calçados, roupas, estudos e civilização. Respeito de um pelo outro em qualquer lugar do mundo.
Mas, se a gente continuar a pensar assim, daqui a pouco a cidade grande se tornará insuportável, cheia de gente e sem espaço para a movimentação.
O sonho de voltar ao interior será impraticável porque terá gente de fora desbravando o que é da gente.
Não tenho vergonha de ser um homem do campo. É mentira, eu não sou do campo; sou de uma cidade pequena. Mas para o povo daqui é a mesma coisa. Nem adianta tentar contar da diferença entre o fazendeiro e o homem comum da cidade pequena. O povo pensa que a diferença está na riqueza do fazendeiro. Essa é a pobreza da cidade grande.
A minha mãe tem quase noventa anos, é viúva, e não quer saber de vir para cá ficar comigo. Eu dou razão a ela. Quando ela fica doente, eu a trago e ofereço o melhor hospital. Ela melhora e volta para lá. E cada vez que ela volta para lá, eu me acabo de saudade, na vontade de dizer que, se eu pudesse, seria lá que eu ficaria também.
Mas a quanta gente eu dou saúde, que amiúde agradece pelo meu dom que é de curar. Essa gente toda que também me faz feliz porque escapou por um triz de não ter mais como remediar.
Quem sabe alguém me escute e, perceba que, apesar de tudo é falando desse jeito que eu sou feliz.