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O blog da Nina, menina que lia quadrinhos.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Um Espelho Invisível


Um Espelho Invisível


     Gaia era capaz de visualizá-lo com nitidez e, nele via as ruas, as pessoas, os gestos e trejeitos, as risadas e as discussões.
     Aquele espelho era um quadrado em forma de quadro, meio mágico, meio sem tempo, posto que distava até dois séculos atrás e olhava um futuro não trágico, mas realista.
     O problema era que ninguém mais via através daquele espelho que, embora de excelente qualidade e cristal, não era útil a mais ninguém nem mesmo como decoração.
     Ela o conseguiu quando ele iria embora como pedaço de vidro.
     _Para mim, isto é lixo, mas se você o quer, fique com ele. Acredito que ele irá para o lixo, mesmo ficando com você. Não se sinta obrigada a guardá-lo. Jogue fora quando quiser.
     Gaia pegou o espelho para si. Olhou uma vez e viu outra gente em outra era secular.
     De vez em quando pegava aquele espelho antigo em moldura de madeira e, se admirava pelo que via.
     Conseguia montar uma história inteira a partir daquele espelho, conseguia montar outra história a partir daquele espelho; eram muitas as histórias que aquele espelho contava.
     Um dia se perguntou por que era que aquele espelho era rejeitado pelos demais e percebeu que se o tivessem jogado, o teriam quebrado, e quebrado ele não contaria as histórias que contava com impressionante nitidez.
     Esse espelho dizia da falta de conhecimento universal, das generalidades que poucos sabiam e não sabiam porque o consideravam como entulho. Mas não percebiam que o entulho era o que lhes poderia abrir uma nova visão de vida.
     O espelho dizia que uma só literatura era o mesmo que nenhuma, mas quanta gente passa a vida sem nenhum livro, com apenas folhetos e resumos escolares? Esse espelho não os culpava, mas convidava a uma leitura inteira e pensada.
     Pelo espelho aparecia a roda de conversas cultas que através do tempo esmaeceu, mas nele ainda vive.
     Quanta história se perderá, exclama Gaia ao olhar o espelho. Nele não história imoral ou de crime, mas de civilização.
     Mas espelho que só um gosta é uma aflição.
     Mais um século e o espelho estará no lixo. Em resumo:1.800, 1.900, 2.000 e em 2.100 ninguém se lembrará que existiu um espelho capaz de contar uma história.
      A civilização de 2.100 não saberá o que perdeu. Também não é um espelho para ser quebrado ou jogado fora e, nessa magia contida dentro dele, também não pode ser doado.
     Também é uma ironia que esse espelho tenha vindo parar nas mãos de Gaia, mas se ela não o soubesse, não o teria recuperado para si.
     A história desse espelho é que a fez querê-lo para si.
     Agora ela vê porque o queria para si, porque a visualização desse contexto civilizatório é capaz de fazer com que as pessoas tomem atitudes ao invés de serem conformistas, e essas atitudes promovem o desenvolvimento em vários campos da atuação humana em relação à própria civilização em que se insere.
     São muitos os espelhos de Gaia, mas esse se difere no tempo.
     Espera-se que alguém leia essa história de Gaia em 2.100 e que esse espelho possa ainda fazer sentido, ainda possuir o encanto de se olhar a civilização através dos tempos.   
      

Um comentário:

Célia Rangel disse...

Povo sem memória! Simplesmente real e de uma criatividade única a sua "Gaia com um espelho" que todos deveriam cultuá-lo! É uma questão de vida! Parabéns!
Abraço.