Posse é desamor,
Chama e dissabor
Da alma a cobiçar
Algo como caça.
É veia de rancor,
Sangue sem calor,
Claustro de negar
À alma a sua graça.
Finge o dom e a dor;
Esse sofredor
Vive a solfejar
Notas, sem cantar.
É um blog com artes e contos, crônicas, comentários, imagens e, arteiros em geral
Posse é desamor,
Chama e dissabor
Da alma a cobiçar
Algo como caça.
É veia de rancor,
Sangue sem calor,
Claustro de negar
À alma a sua graça.
Finge o dom e a dor;
Esse sofredor
Vive a solfejar
Notas, sem cantar.
Edson encontrou-se com Liliana, sua colega de trabalho, no supermercado. Aproveitou a oportunidade para discutir a política de vendas da loja de departamentos:
_Você acha que a promoção de final de semana terá uma boa venda? Eu estou em dúvida se trabalho até as dez da noite sábado. É uma chance de aumentar a comissão, mas eu não sei se... De repente, vou jantar fora.
Ela disse que estava concentrada na vontade de conquistar a comissão das vendas promocionais e que iria participar das vendas à noite.
Edson mudou de assunto e eles se dirigiram a caixas diferentes e se despediram.
Liliana pegou o seu carrinho de compras e o leva até o carro. Encontra-se com a vizinha Dora e a cumprimenta.
Dora pergunta o que ela pensa dos cuidados com o prédio onde elas moram.
_Eu não sei, os moradores são responsáveis, eles não deixarão nada de errado acontecer no edifício. Eu chego a minha casa, faço o jantar, sirvo a comida para as crianças e vamos todos dormir.
A vizinha lamenta que a outra não saiba de nada.
Liliana chega, descarrega as compras e as guarda, preparando-se para fazer a janta. Toca o telefone:
_Liliana, vamos sair no sábado à tarde?
Ela diz que não será possível:
_Pela manhã vou ajeitar o cabelo e as unhas e à tarde sairei com as crianças para passearmos e conversarmos. Sinto-me tão culpada de não atendê-los durante a semana. Esse tempo é meu e deles, sinto muito.
Levanta cedo, arruma as crianças e se arruma. Deixa as crianças na escola e quem pega é a avó. Verá os filhos à noite novamente. Chega ao estacionamento da loja e o garagista a interrompe:
_Dona Liliana, a senhora estaciona aqui há algum tempo e eu nunca a ouvi reclamar ou se queixar, Como é que a senhora consegue?
_Profissionalismo e falta de tempo.
O valete a interrompeu novamente:
_Com todo o respeito que a senhora merece, preciso dizer que a senhora estão se transformando em uma pessoa mais alienada que o meu filho adolescente conversando pelo computador. Pense nisso, Dona Liliana. Pense nisso, frisou.
Liliana até concorda com o garagista, mas a vida está assim e a comissão pagará as aulas de esporte das crianças.
_Que bom que o senhor falou comigo. Hoje à noite ficarei até as dez. Até depois.
Concordou e entrou para assinar o ponto e conquistar a comissão.
Teimando com toda a tecnologia do lazer virtual o gibi insiste e tem público e vendas garantidas.
Enquanto a literatura tradicional acrescenta cultura e conhecimento, a função do gibi é descontrair crianças e adultos.
Enquanto para as crianças, o gibi, além de lazer, é estímulo para a leitura de textos de maior complexidade; para os adultos a sua leitura funciona com a função invertida, ou seja, uma provocação ao ócio em meio às atividades, ou ao excesso de atividades.
Assim, as tirinhas e as charges nos jornais ajudam a digerir algumas notícias, algum fato ou a nem lembrar o que foi lido na página anterior.
Quem não leu gibi? A leitura com gosto de doce.
Porque a descontração é fundamental ao bem estar e porque levar tudo a sério é desperdiçar os bons momentos em favor dos momentos graves. Os momentos sérios existem e são levados de maneira séria, mas os momentos de descanso também devem ser levados á sério.
O gibi, as tiras e as charges de jornal são, em última instância, provocações saudáveis à literatura, à imaginação e à criatividade. São momentos em que as provocações estimulam o aprimoramento das artes e uma boa provocação é capaz de criar o progresso e a produção de textos de qualidade.
O conceito de que se adquire conhecimento somente através do sofrimento implica num paradigma de estoicismo nem sempre positivo, pois também é possível o aprimoramento intelectual através de um sorriso e de uma literatura descompromissada de ser literatura.
Eu não sou afeita a lugares misteriosos e, embora essa cidade se localize próxima da capital do estado, eu não a visitei e não tive vontade de estudar a sua historia, tenho medo do “Coiso”. Eu adoto a praticidade como estilo pessoal e não combino com alegorias fantasmagóricas. No meu ponto de vista, os mistérios muitas vezes não passam de crendices populares, oriundos da falta de cultura aliada a alguns truques usados por “barões de mato” para manter a população sob o seu controle.
Por estes dias, a falta de sorte com uns amendoins torradinhos me fez quebrar um dente e eu fui a um consultório de dentistas plantonistas para emergências odontológicas. Enquanto aguardava na fila de espera, sentei-me no sofá e ao meu lado estava uma senhora com o rosto inchado. Conversamos e ela me disse que era “cidade fantasma”. Pensei na minha praticidade, na minha dor de dente e na ausência de boa vontade com os moradores de lá. Ela se chamava Anita e viera morar na capital depois que a filha casou. Ela tinha vontade de morar em uma cidade grande e realizava o seu desejo. Com o rosto inchado, ela estava feliz de contar com um dentista de uma cidade grande.
Eu disse a ela que não conhecia a cidade de onde ela viera e, para negar ou confirmar expectativas, pedi a ela que me contasse sobre a cidade onde ela passou os sessenta e dois anos da sua vida.
_São muitos os mistérios na minha cidade, eis um fato. O cemitério é o símbolo da praça principal e o povo acende velas para os seus mortos na praça. Os enterros são uma festa com bolos e cafés durante o velório. É uma praça igual a todas as outras, com bancos para as pessoas se sentarem e carrinhos de pipoca. A diferença é que ao invés de uma fonte de água e um jardim, nós temos um túmulo no meio da praça.
Eu disse que a idéia era de mau gosto do prefeito responsável pela obra e perguntei o motivo pelo qual a população não reclamava para modificar o visual da praça.
_A população, ou seja, nós tememos pelos nossos filhos. A senhora preste atenção no que eu vou lhe contar: eu ouvia falar na pedra azul que rolava do alto da igreja e aumentava de tamanho até que passava por cima de quem duvidasse dos poderes ocultos presentes na cidade. Eu não acreditei e pedi a companhia do meu marido para ficar próxima a igreja durante a noite de sábado. Lá, por volta das nove horas da noite, nós vimos uma pedra azul clara e brilhante saindo pela porta da igreja que vinha em nossa direção. Corremos até chegar a nossa casa e juramos nunca mais desafiar o que os mortos da praça desejavam.
À medida que a dona Anita contava a história fantástica, mais eu tinha vontade de saber. Perguntei se esse era o grande mistério da cidade ou se haviam mais fatos estranhos a serem contados. Aticei a vontade dela e ela me contou sobre a caverna santa.
_Contam que alguns jovens, garotos e garotas, foram fazer um piquenique no campo e entraram na caverna. Quando o último jovem entrou na caverna, ela se fechou sozinha. As famílias dos jovens ao perceberem a demora do retorno deles às suas casas avisaram o Corpo de Bombeiros. Os bombeiros demoraram uma semana para abrir a caverna com britadeiras, mas salvaram os jovens. Apenas uma das moças ficou seriamente perturbada e foi direto para o sanatório e de lá não mais saiu. Eu não deixei a minha filha sequer passar perto da caverna.
Eu ouvia os relatos daquela senhora com espanto. Mudei de assunto e falei das vantagens de se morar em uma cidade pequena.
Ela me disse que a vantagem era para as mulheres casadas e que as moças solteiras sofriam muito.
Eu pedi que ela explicasse mais esse seu conceito.
_Uma moça solteira que morava com a irmã e o cunhado arranjou um namorado. Depois de um ano de namoro, ele fugiu com a filha do dono do hotel. Falaram que a moça estava perdida. Eu, na época, pensei que ela, a moça rejeitada, estava perdida em sofrimentos, mas a versão era outra. Não sei onde surgiu o boato, mas disseram que o namorado fugiu com a outra porque descobriu que a namorada era uma moça perdida. O falatório foi tanto, que o meu marido, assim como todos os homens ditos de “bem” naquela cidade, proibiu-me de pisar a calçada em frente à casa da moça. Assim, as mulheres atravessavam a rua para mostrarem umas as outras que não andavam em caminhos errados. Fizemos procissão em frente à casa da moça e atravessamos para o outro lado da rua para que ela nos visse e se arrependesse do que nem sabíamos se era verdade. Não pisamos na calçada onde ela pisava. Pobrezinha, fiquei com pena, mas eu era uma boa esposa e as boas esposas tinham que provar à cidade e ao prefeito que eram boas esposas.
Finalmente chegou a minha vez de ser atendida e a enfermeira estava à porta chamando o próximo e o próximo. Eu e a dona Anita fomos atendidas em consultórios diferentes. Enquanto o meu dente era refeito, eu pensava sobre aquela cidade que eu não quis visitar e, mesmo não a conhecendo e não vendo graça nas festas fúnebres, sabia que nela habitavam os desmandos do assombro, um mistério difícil de controlar.
A atriz iniciante recebe o convite para representar em uma peça de teatro, lê a sinopse, pensa se aceita e se o papel lhe convém. Fecha o contrato e as participações das vendas dos ingressos na bilheteria. Estuda, decora, ensaia, dorme de dia, não vê a família no fim de semana, chora de saudade. E na segunda-feira liga para eles.
A vida é sofrida, mas foi ela que escolheu a carreira.
Ensaio geral e abertura. Bate a ansiedade, espia pelas cortinas o público que irá assisti-la, é hora de entrar no palco. Põe a alma no personagem que diz aquilo que não é dela, que faz e desfaz e arrebata essa platéia. Esgota-se interpretando e dando o seu melhor suor.
Acaba a encenação, o público aplaude. Comemora com a trupe, a sua companhia.
Amanhece quando chega a sua casa. Deita-se e dorme como um sapo morto nas cobertas desarrumadas e intactas nessa desarrumação. Acorda à tarde, tem mais um espetáculo à noite. Passa um, dois, três meses vivendo a vida de outra.
Acaba a temporada. Acaba a encenação dessa peça. Descansa na casa vazia, no palco de luzes apagadas, come arroz e ovo frito. De repente, falta tudo. A casa precisa de uma vida sem personagens, da vida real. Arruma a casa, a família, os amigos e a rotina.
Vem outro convite, tudo se repete. Indefinidamente tudo se repete peça após peça, na vida da atriz. Ela não tem mais nome, ela vive dos nomes das personagens. Ela envelhece com o nome das outras e as suas plásticas. O sucesso foi a sua escolha, o sonho de muitos, a realidade de poucos.
“Foi uma vida difícil, mas ela era tão generosa. Ninguém soube o que ela passou, dos meses de desespero para pagar o aluguel, os meses que comíamos da horta. Ela não era bonita, glamorosa, ela tinha talento. Quantas vezes ela odiava as personagens que fazia e nos ensinava a não repetir nem em brincadeira o papel da megera.”
_É tão bom te encontrar, posso conversar sem provocações, disse a moça. Ela tinha um bom raciocínio e assim se aguentou na razão. Quantas jovens não suportam o que ela passou e, não suportando a dificuldade, se refugiam na escuridão das suas vidas. Gosto de quem pensa, porque sabe que todos nós enfrentamos dificuldades.
Quem falou foi Júlia, quem ouviu foi Fabrício e a artista procura a próxima atração.
Recebo de um colega argentino o livro virtual “Alcaparras, Refranes & Desaforismos, escrito por três autores com a seguinte apresentação:
El volumen contiene tres obras:
“Poemas del tamaño de una alcaparra” de Eduardo Espósito
“Del franelero popular” de Rolando Revagliatti
“Aforismos, desaforismos” de José Emilio Tallarico
Para o download: http://issuu.com/recitador/docs/alcaparras__refranes___desaforismos_pdf
Tudo foi dito;
Sua palavra
Diz do seu signo,
Fala que abraça.
Ouve-se o espírito
Antes da lavra;
É paz do aflito
E água que acalma.
Nesse convívio
Prata da casa,
Folha de livro
Vira cachaça.
Conto descrito,
Come-se a traça;
Passa de um livro
E abre outra página.