Lugares Bonitos

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O blog da Nina, menina que lia quadrinhos.

sexta-feira, 11 de março de 2016

A Velha Senhora

A Velha Senhora

     Pouca gente a conheceu conforme as pessoas deveriam ser conhecidas, mas houve a pneumonia e as visitas.
     Certificando-se que não havia perigo de contágio, a mãe de Clarice a levou com ela.
     A velha senhora estava em convalescença e estava com os cabelos brancos e curtos penteados para trás. O rosto começava a ficar corado, deixando a palidez da febre, e ela comia alguns biscoitos de leite.
     Clarice era de um jeito muito dela, às vezes era calada, às vezes falava demais. Olhou e olhou para os cabelos e disse que nunca havia visto ela assim e que parecia mais bonita, mais solta, e com ar jovial.
     _Eu me enfeio para sair, não é isso que você quer dizer, Clarice?
     Clarice fez uma expressão de surpresa e, a velha senhora concluiu:
     _É fato, Clarice. Eu também prefiro assim, mas não é possível. Nunca foi possível Clarice!
     A mãe da Clarice mandou parar o assunto senão as queixas começariam e elas não estavam lá para aborrecer a velha senhora, repetindo as palavras da velha senhora para a filha:
     _É fato, Clarice. Não é possível nem para ela assim como a mim. Nunca foi.
     A mãe de Clarice e a velha senhora se entreolharam e sorriram como que constatando que a realidade é pesada para todas as vontades.
     A velha senhora olhou para Clarice com carinho e disse a ela que não se preocupasse, pois para ela a realidade seria melhor.
     A mãe da Clarice disse à velha senhora que não mentisse à menina.
     _Eu não minto, é a nossa regra, lembra?
     A visita foi rápida.
     A velha senhora, depois, ligou para a mãe de Clarice. Queria contar sobre um filme que tinha assistido. A mãe de Clarice ouviu, mas por educação, sem prestar muita atenção.
     As duas conversavam muito e a mãe de Clarice tinha as suas ocupações e, certo dia, quem atendeu ao telefone foi Clarice.
     _Clarice, é com você mesma que eu quero conversar. A sua mãe não presta atenção quando eu conto dos filmes e eu li um livro tão bom. Deixa eu te contar a história, aposto que você vai gostar.
     Clarice era educada e escutava.
     _Era uma vez uma moça bem nascida que por um comportamento caprichoso muito sofreu. Eu não quero entrar ficar numa situação constrangedora por sua causa e nem ser sua babá, aprenda a viver. Escute a minha história, quero dizer, a história do livro que eu li.
     Clarice achou que o livro que a velha senhora tinha lido parecia muito interessante.
     _ Não é aquele livro onde o sol nasce para todos e nem sobre aquele livro sobre 1.808. Eis uma ilação interessante: O sol nasce para todos e ponto. Nenhuma vírgula, nem aspas, nem reticências e nem etecéteras. Entendeu? O que é o poder econômico, você sabe. O poder econômico foi o que causou a Proclamação da República um ano após a abolição dos escravos. O poder econômico, quando contrariado, apronta poucas e boas.
     Clarice interrompeu a conversa e perguntou como é que o livro acabava.
     _O livro acabou mal porque a jovem não sabia lidar com a situação. Se tivesse ouvido os meus conselhos, não acabaria tudo tão mal.
     Clarice disse que não entendeu.
     _ Faça o que puder para dispensar-me de ser a sua babá, você não precisa disso. Eu não tenho mais idade para ser babá de jovem crescida. Respeite o regulamento e se imponha naquilo em que você estiver certa.
     Clarice perguntou:
     _E se isso não der certo?
     A velha senhora foi taxativa:
     _Para você vai dar certo! Você não leu nem um terço dos livros que eu li. Você está entendendo alguma coisa do que eu estou dizendo, porque a sua mãe a essa altura da conversa já teria dito que precisava ir ao supermercado, perguntou.
     Clarice disse que estava entendendo, mas que ela era básica, não tinha lido nem um décimo do que ela havia lido.
     A velha senhora respirou aliviada.
     _É isso o que eu preciso Clarice. Preciso que você entenda o básico. Para que você não passe o que eu passei mesmo em situação semelhante.
     A enigmática velha senhora teve muitos filmes e livros a contar. Alguns ouvintes irritavam-se profundamente com as suas histórias. Outros ouvintes diziam que ela fazia isso para ter assunto, para ter o que conversar, porque levava uma vida provavelmente monótona.
     As pessoas cultas permitem compreender a realidade desconhecida, mas provável.
     Clarice guardou consigo todas as histórias da velha senhora consigo, é bom ouvir histórias.
    



Um comentário:

Gracita disse...

E dessas histórias permeadas de segredos há que se ler nas entrelinhas as lições de vida que a "velha senhora" insistia em passar.
Um belíssimo conto
Bom final de sábado
Beijokas