Lugares Bonitos

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O blog da Nina, menina que lia quadrinhos.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Mal dos Nervos / Miniconto

Mal dos Nervos

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Naquele tempo criança era criança e não se intrometia com os adultos, mas o caso chamou atenção.

Era uma reunião de senhoras e o garoto adolescente estava lá.

Criança não se mete, mas pergunta: por que é que ele veio?

Responderam que ele sofria dos nervos.

_Como assim, sofre dos nervos? Ele é maluco?

Responderam que ele não era maluco. Explicaram que ele estava com a estranha mania de arrancar os fios de cabelos da cabeça e a mãe dele achou por bem não deixá-lo sozinho em casa enquanto a família não soubesse o motivo dessa atitude.

Enquanto as mulheres conversavam, ele lia um livro da escola.

Maria criança, foi até lá e perguntou que livro era aquele e ele respondeu que era de matemática.

Maria saiu de perto dele e foi até a cozinha pegar um doce antes que a mesa fosse servida. Ela podia, ela era filha da dona da casa.

O garoto ficou sozinho na sala com o livro, equidistante das mulheres, que estavam distraídas com seus assuntos. Enquanto comia o doce, da porta da cozinha, Maria viu o garoto arrancando alguns fios de cabelo.

Engoliu o doce com pressa e tomou um copo com água. Voltou à sala onde estavam as mulheres conversando entre si e o garoto estudando. Pé ante pé, foi até ele e perguntou:

_Por que você está arrancando esses fios de cabelo?

O garoto, sem se importar com a idade da menina, que tinha mais ou menos sete anos de idade, respondeu com sinceridade:

_Eu sinto dor, e cada fio de cabelo que eu arranco é um pedaço da minha dor que eu ponho para fora. É um alívio! A minha mãe já me deu remédio para tirar a dor de cabeça, mas não adiantou. Dói muito e esse jeito que eu arranjei parece que está dando certo.

Maria perguntou se ele não tinha medo de ficar careca.

O garoto deu risada e disse que, se ficasse careca, ficaria igual ao pai dele e quem sai aos seus, não é ninguém estranho.

As senhoras se calaram e a mãe do garoto mandou que ele parasse de arrancar os cabelos.

Maria ficou quieta e arranjou o que fazer, não queria arranjar confusão para si mesma.

Passaram-se meses e houve outra reunião de senhoras. Uma delas foi trazida e levada pelo filho, devidamente cabeludo e cheio de pose. Disse às outras mulheres que tinham descoberto o mal do garoto, era mal dos nervos.

Aqueles anos eram conservadores e discretos, e nunca ninguém ficou sabendo que mal era aquele. A última vez que fora avistado tinha feito família e estava bem disposto continuando cabeludo.

Mais uma história com final feliz.

2 comentários:

Ivone disse...

Que bom que teve um final feliz!
Era assim mesmo, antigamente as pessoas sofriam e não sabiam os porquês, crianças não podiam fazer parte das vidas dos adultos. hoje elas sabem mais do que os adultos né mesmo?
Abraços e tenhas um lindo dia amiga Yayá!

Evandro L. Mezadri disse...

Muito legal, interessante, diferente!
Grande abraço, sucesso e ótimo final de semana!