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quinta-feira, 23 de julho de 2015

Conceito Errôneo / Crônica do Cotidiano

Conceito Errôneo

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Resolvi escrever sobre esse tema porque tenho observado por diversas vezes as consequências do pensamento que todo o sofrimento pode ser evitado.

A primeira vez que ouvi a respeito foi num supermercado. Encontrei-me com uma senhora que, pasmem me conheceu quando eu tinha seis anos de idade.

O meu irmão brincava com a neta dela e ambos tinham quatro anos de idade.

Perguntei sobre a neta dela e ela me contou do sofrimento da neta. A menina cresceu, casou e, tempos depois o marido ficou doente, uma doença muscular degenerativa com final programado.

Quando ele soube da doença e ainda sendo jovem, por volta dos trinta anos, tomou a decisão do futuro por ele e pela mulher. Segundo se soube ele contratou uma empregada para ajudá-lo nos primeiros tempos e expulsou a esposa de casa.

_Você não tem nada e ficará viva. Emprego você tem, mas eu quero que você crie uma roda de amigas e amigos para quando eu for embora. Eu quero que você comece a sair para jantar fora e, daqui alguns meses, eu quero saber com quem você pode se relacionar afetivamente, eu quero que seja boa pessoa porque nós temos um filho.

A moça disse que preferia ficar ao lado dele.

_Você não ficará ao meu lado. Eu posso até me separar de você. Eu não quero que você sofra por mim. Eu gosto de você, mas a vida continua. Eu cuidarei de tudo para que você seja feliz sem mim.

Depois de alguma discussão a moça obedeceu e foi para a casa da mãe. Ela chorava dia e noite. A mãe chamou a avó para ajudar a moça enquanto ela tivesse compromissos.

A moça tentou visitá-lo. Ele aceitava a visita, mas recusava-se a aceitar qualquer demonstração de afeição por parte da mulher, digamos assim.

A avó contou-me que a justificativa para ele era evitar o sofrimento da mulher, que iria ficar sozinha e tudo era matemático.

Ela disse, também, que talvez fosse certa juventude que o impedisse de saber que não se evita sofrimento por afeição.

Passado algum tempo e ele morreu. Depois que ele morreu a moça não quis saber de mais ninguém. A justificativa era a mesma do falecido marido: evitar sofrimento.

Alguma conhecida pode pensar que estou citando o caso dela, mas não, não estou. Está se tornando normal e, se escrevo é porque me encontrei com mais uma vítima do tal conceito. São vítimas e mais vítimas de um sofrimento terrível que é o de não conviver com o doente enquanto ele está vivo.

Contando em números matemáticos, os casos já passam de cinco. Conheço as famílias e as respeito, a decisão fica dentro delas, mas o conceito deve ser discutido.

O conceito do sofrimento está perfidamente ligado, atualmente, às vinganças, aos desafetos pessoais, ao escárnio do mais forte sobre o mais fraco, etc.

Sofrer por querer bem e por se dedicar ao próximo está se transformando em sinal de fraqueza de caráter!

Tenho também um exemplo positivo, que é a de um marido cuja esposa adoeceu e ele declarou em público, como se fosse uma confissão exposta a julgamento:

_Eu fiquei no hospital com ela e somente saí de lá quando precisei cumprir uma obrigação, mas ela sabia que logo eu estaria ali, junto com ela. Ela não tinha condições de sequer pedir para que eu estivesse ao seu lado devido à febre e a infecção bacteriana. Eu gosto dela e foi a minha vontade ficar ao lado dela até que ela se recuperasse. Não sofri tanto quanto se estivesse longe dela naquele momento em que eu quis ficar junto dela.

Sem citar nomes, esse homem é um viajante e ele estava feliz por acompanhar a mulher em sua recuperação.

_As pessoas desconhecem o quanto é difícil ser viajante e pensar na família na hora de deitar, sem poder fazer nada por ela, estando a quilômetros de distância, muito embora com todos os recursos da informática que possibilitam conversar de tela para tela. A vontade de estar presente é imensa. Mesmo que fosse algo mais sério, se é que é possível algo mais sério que uma infecção bacteriana, eu quero estar ao lado dela.

O conceito que o sofrimento é evitável é um conceito errôneo. Assim como o conceito que o sofrimento é oriundo unicamente da mesquinharia humana.

Certa vez eu ouvi uma “pérola” que não esqueci:

_Do sofrimento ninguém escapa, mas tem gente que sofre menos e quem sofre mais ou sofre menos depende da atitude da gente.

Eu penso que depende das autoridades, porque se depender dos grupos que eu convivo, estão todos por esperar no que vai dar.

São mulheres e filhos sofrendo muito porque alguém se determinou a ser o dono do sofrimento deles sem que permitissem que eles trabalhassem as emoções, as tristezas e as superações causadas pela dor.

Foi durante a semana que eu soube de mais um caso. A dor estava estampada no rosto da pessoa como se me perguntasse se eu tinha ideia do que a pessoa estava sentindo.

Ideia eu não tenho, mas posso escrever a respeito e, quem sabe, auxiliar alguém que esteja passando por isso.

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