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domingo, 15 de junho de 2014

O Defunto Alheio

O Defunto Alheio

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Coitadas, vivem dos trocados que ganham para acompanhar o cortejo, são pobres e se vestem de preto para chorar o defunto alheio. Ainda são requisitadas por gente sem família ou com família pequena.

Ainda ontem estavam no mercadinho da cidade. Estavam insatisfeitas, faz tempo que não conseguem um defunto para chorar.

Depois daquele caso de alguns anos atrás, ainda não se recuperaram.

Aquela ideia infeliz de achar que a Mariazinha estava nos seus últimos dias. Até hoje não se sabe de onde tiraram aquela ideia. O abatimento da moça não era tristeza ou desgosto, era cansaço, tanto que a magreza e a palidez se desfizeram em poucos meses de bom sono e boa comida.

O povo, cuja língua não tem osso, dizia que era doença de tristeza, solidão de acabar com qualquer um e que a moça estava definhando.

As mulheres se animaram. Nos seus vestidos pretos ensaiavam as rezas e os coros para defunto desacompanhado.

Consta que a moça soube e tratou logo de se arrumar, parecer bem antes mesmo de estar bem.

Deu certo e o povo parou de falar do abatimento para agora, falar que suas maçãs de rosto vermelhas mostram que a moça está gostando de alguém. O povo fala quando quer falar, o falatório não deixa de ser um lazer de fuga dos seus problemas, é coisa que ninguém impede.

Mesmo com aquela moça saudável e corada, as mulheres arranjaram os seus trocados. Estavam juntas naquele ar aborrecido que têm de vez em quando.

O interessante foi observar como elas se sentem enganadas. Falavam da boa aparência da moça como se estivessem ofendidas ou fossem enganadas.

Ouviu-se dizer que, a moça, sabedora que foi do interesse delas em chorar por ela, disse a todos da cidade que não queria nenhuma homenagem desse tipo. Que, se houvesse a tristeza, que ninguém chamasse aquelas mulheres para fazer bonito no cortejo.

Nesse caso, o falatório não era fuga de problema nenhum, era vontade de ter onde e por quem chorar. As mulheres sabem que esse é ofício para lugares pequenos ou bairros retirados do centro da cidade grande.

E a coruja não pia perto de onde elas queriam, a coruja foi piar noutro lugar, se é que quer piar.

Tem sim, tem gente que gosta de viver para chorar o defunto alheio, um desperdício.

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