Rio de Janeiro

Rio de Janeiro

http://frasesemcompromisso.blogs.sapo.pt/

O blog da Nina, menina que lia quadrinhos.

domingo, 30 de maio de 2010

Choveu tanto assim? Tempestade poema

Tempestade. As nuvens carregadas na cidade Que mostram o terror que nela habita, Transformam a escondida maldade, Será agora sem vida a lidita. As lágrimas de Deus sobre a cidade Revoltam toda a lama, que se agita, Porque a água refaz a fertilidade. Da terra ressequida se habilita. A chuva, se transforma em esperança, Que lava o lamaçal, que suja a terra, Que é a base da cidade, que quer guerra. Conquista a liberdade a paz que é mansa. É a farsa da cidade, que se encerra, É a terra renovada que descansa.

terça-feira, 25 de maio de 2010

A Janela. Conto publicado em coletânea.

Era Sábado, ano de 1.950, apenas mais um fim de semana para Roberto. Aos sábados ele dormia até tarde e se enrolava várias vezes embaixo da colcha antes de se levantar. Ao meio-dia, ele se espreguiçava e levantava, ia ao banheiro, escovava os dentes, lavava o rosto e pensava no café com leite e no pão adormecido na cozinha. Depois do café, ainda de cueca samba-canção, sentou-se no sofá velho de tecido verde na sala da quitinete, no terceiro andar do Edifício Andaluz, no bairro Tatuapé, na cidade de São Paulo, no qual mora há dois anos, desde que chegou à cidade. Abriu a janela, viu o trânsito mais calmo, a garoa fina e o ritmo de sempre da cidade que parece quieta. De repente, ainda perdido em pensamentos soltos, oriundos da ressaca do forró dançante do bairro, ouviu alguém chamar o seu nome: - Roberto, olha aqui embaixo. Aqui na frente do prédio. Olha Roberto, olha! Parecia a voz do seu primo de Recife que vinha lá de baixo. - É a voz do Ariovaldo? Pergunta em voz alta dirigindo-se a janela. - Sim, conterrâneo. Sou eu em mais ossos do que carne, que a vida lá em cima anda dura e eu me mandei pra cá Ariovaldo em São Paulo é bom demais, pensou Roberto. Correu para o quarto, pôs uma calça qualquer e na pressa desceu as escadas de chinelas a fim de encontrá-lo. Roberto recebeu o primo com a alegria que a seca não tem e o abraçou com um forte aperto. Ariovaldo estava desde cedo na terra da garoa, tinha descoberto o endereço dele com a tia Sebastiana, a mãe do Roberto. Veio até São Paulo de carona num caminhão para tentar a vida no eldorado verde, que para ele era São Paulo. - O coração nordestino é grande e o apartamento é pequeno, mas dá-se um jeito. Disse Roberto. Assim, Ariovaldo se instalou na sala e dividiu as despesas do apartamento com o primo nordestino e conterrâneo das mazelas da seca. Logo, ele arrumou um emprego de porteiro de edifício que era igualzinho ao emprego do parente e fazia um dinheiro extra, vendendo o artesanato que ele mesmo fabricava. Seis meses depois acabou a matéria-prima para a confecção da renda especial nordestina. Roberto, que nessa época estava de férias, se dispôs a uma viagem até o Recife para ver a sua mãe e trazer todo o material que o primo necessitasse. A viagem deu tão certa, que ele começou a voltar à sua terra de seis em seis meses. Com os negócios prosperando, foi preciso que a viagem fosse feita de três em três meses e isto lhe trouxe a saudade da carne de sol, do bolo de rolo e da rede de dormir. Passado um ano e meio, em um fim de semana qualquer, Roberto acordou cedo, foi para a sala, abriu a janela e disse para Ariovaldo: - Estou indo pro Recife pra ficar lá. Quero abrir a janela e sentir o calor da minha gente. Decidi que vou abrir uma fabriqueta de material para artesanato. Fique tranqüilo que você não fica sem o material não. Eu mando pra você. _Faz isso sim, que assim eu tenho como voltar também. Isso aqui é bom, mas eu gosto mesmo é de lá. Vai e deixa que eu pago estas contas de luz e água, e outras essenciais deixa que eu tome conta pra você. Deixe um anel para a Assunta para que ela não te esqueça. Eu faço um anel bem bonito e colorido com o teu nome. Ariovaldo nunca voltou para o nordeste. O frevo e o maracatu, o forró e o baião estavam dentro dele. Cuidou de dar um pouco da sua cultura para o paulista e São Paulo adquiriu um pouco do sotaque nordestino e cresceu como um mandiocal.

Arapuca é o tema deste conto publicado em coletânea.

Arapuca. Estava triste e resolvi sair com uma amiga para me distrair. Ela me contou dos últimos anos da sua vida. Foi um exemplo para a minha tristeza que não tinha tanta razão para me acompanhar. Quando a Joana perdeu a mãe, dois anos após perder o pai, ela se sentiu muito só, abandonada pelo destino. Estava desempregada e as pessoas mais próximas ao invés de trazerem conforto, fugiam dela com medo que ela quisesse dinheiro emprestado. Ela não precisava de dinheiro, tinha feito uma poupança que lhe garantia pelo menos uns dois anos para procurar um emprego do mesmo nível ao que possuía anteriormente. A carência do pai e da mãe, o desemprego e o abandono juntos e ao mesmo tempo fizeram com que ela adquirisse a síndrome de pânico após seis meses nessa situação. Ela se sentava no sofá e pensava que se saísse de casa iria morrer na esquina. Duas quadras equivaliam a uma caminhada em volta do próprio túmulo. Contudo voltava para casa e no silêncio do ambiente o medo da morte a apavorava. Após um ano nesse sofrimento ela conseguiu um emprego. Acabou o problema de viver economizando pensando no feijão com arroz do dia seguinte. Era para estar otimista, mas o medo da morte, a sensação de que algo grave aconteceria a qualquer momento aterrorizavam as suas noites de sono. Dois meses no novo emprego e ela foi ao departamento de pessoal pedir auxílio para o seu problema. Foi ao psicoterapeuta. Depois da consulta ele recomendou que ela fizesse caminhadas e se afastasse definitivamente daqueles que a abandonaram. Joana se matriculou em uma academia de ginástica perto da sua casa. O medo era tanto que ela se agarrava nas laterais da esteira e andava como uma acidentada em recuperação, passo a passo, devagar, sentindo todos os músculos acionados e tensos dentro do seu organismo. Um colega de academia que presenciava a cena a convidou para ir à Piracicaba no fim de semana. Ela aceitou, mas foi de ônibus porque os motoristas de ônibus tinham mais prática do que os motoristas de carro. Joana agradeceu a bondade do João Carlos e da Clarice, esposa dele. Eles conversavam com ela, procuravam saber um pouco da sua personalidade. Perceberam que ela sofria. Sem filhos para cuidar, cuidaram da Joana. Tinham todos a mesma idade. A amizade se estreitava na medida da solidão de Joana, que não dava o braço a torcer, não mostrava que não tinha ninguém na sua vida. Era fechada e não se abria para conversar. O casal sentiu a solidão em que ela vivia quando observaram a rotina da moça fora do escritório. No dia em que ela arrancou um dente, eles deram uma passada no apartamento dela e viram sobre a mesa a sopa de supermercado pronta e fria em cima da mesa. Um prato, uma colher, um copo, um guardanapo e um pão macio sobre a mesa. Ela estava assistindo televisão. Não estava tensa. Caminhava normalmente dentro do apartamento. Estava sem dente, mas estava calma. Disse que no dia seguinte tudo estaria bem. Nesse dia ela percebeu que estava melhor. O telefone tocou. Joana atendeu e disse que já tinha marcado cinema para aquela noite e que receberia as visitas em outro dia. Clarice perguntou o porquê da mentira ao telefone. Joana contou que a mágoa criada no ano mais difícil da sua vida havia deixado cicatrizes na alma. Disse que não queria retornar a abrir as feridas já cicatrizadas. Disse também que esse medo era um medo bom. Era um medo de defesa pessoal. Aprendia a se defender sozinha. Joana sentiu que o casal procurou mostrar a ela o mundo no qual viviam. Não havia unicamente pessoas buscando a saúde na academia. Alguns procuravam doenças e tomavam anabolizantes. Outros procuravam a política e freqüentavam o local apenas para se relacionarem com pessoas importantes que também faziam a sua caminhada três vezes por semana. Algumas pessoas procuravam Joana para falar dos parentes dela, mas Joana não era chegada a comentários. Cada um que cuidasse de si mesmo. Conheceu muitas pessoas que realmente procuravam a saúde e viu alguns tombos feios de alguns colegas que abusavam da velocidade nos pés. Saiu gente enfartada lá de dentro. Não adianta comer mal e correr. A vida noturna passa pela academia desapercebida. Observou que alguns jovens iam à academia para programar as noitadas no fim de semana. Joana, a tartaruga acadêmica, devagar e sempre, conseguiu tirar as mãos das laterais da esteira sem ter medo de cair com o nariz no chão. Ganhou a autoconfiança destruída nos tempos difíceis. Com tanto empenho, chegou o dia em que ela ficou apta para ajudar alguns novatos. Não na esteira, isso seria um exagero. Conseguiu forças para dar apoio moral àqueles que tiveram sérios problemas familiares. Com cautela dava um palpite aqui e outro acolá. Não era psicóloga e cuidava para não se transformar em um charlata. Algumas situações constrangedoras, casos que os psicólogos não resolviam, Joana resolveu. Ela ficou conhecida na academia. Surgiu o ciúme. O corpo dela estava sarado, malhado e outras freqüentadoras quiseram saber como ela obtivera aquele corpo. O medo de morrer lhe dera aquele corpo. Ocultou de todas as ciumentas o trabalho de corpo e mente que fazia no recinto. Dizia que era uma obrigação manter a saúde e a aparência em dia. Os seus amigos conheciam o seu problema. Isso bastava a Joana. Ela, que já tinha desistido de encontrar amigos e amigas, os encontrava agora, nos bate-papos sociais. _Digam o que disserem, confidenciou-me Joana. Os bons amigos existem. Eu acredito na Joana. Não sinto ciúmes do João Carlos e da Clarice. Eu não faria nada melhor para ela. Aliás, eu nem saberia como lidar com uma situação dessas. Ela continuou discorrendo sobre o seu drama pessoal, mas com um sorriso nos lábios. Contou-me sobre os assanhados da academia. Se existisse algo melhor do que ganhar uma cantada enquanto se está perturbada emocionalmente, ela desconhece. _Você está com a mente voltada para cada passada na esteira, em busca da superação pessoal, e vem o ginasta da esteira ao lado e pergunta por que você esconde o seu corpo em um uniforme de moletom duas vezes maior que você. Você começa a rir da sua solidão, da sua tragédia pessoal. Você não pode dar muita confiança para ele, mas acaba gostando da cara de pau do moço, que está procurando uma companhia para passar o tempo. Quando se é absolutamente só, do jeito que eu estava na época, as cantadas me ajudaram psicologicamente. Não namorei ninguém, mas fiquei querendo bem. Gratidão mesmo. O melhor é que poucos acreditam na minha pureza de sentimentos quando eu falo em gratidão. O povo gosta é de histórias quentes com muito sexo. Esse assunto gera boas risadas nas academias. Cautela para as mulheres porque os homens gostam de canja. Do trauma aos risos e às gargalhadas. Um casal sem filhos cuida de uma mulher de trinta e cinco anos com carinho, sem segundas intenções. Suponho que eles também se sintam sós, eles também precisam de amigos sem segundas intenções. Joana mudou muito. É só ainda, mas aprendeu a se compreender, a se perdoar e até a perdoar algumas pessoas. E eu, que não passei por nada disso, que estou triste com algumas ironias que ouvi. Ironias que me acusam do que eu não fiz e me magoam. Contei à Joana o motivo da minha tristeza e ela me pediu que eu me importasse com aquilo que eu pudesse fazer de verdade e não com as coisas que eu não fiz. As coisas que eu posso fazer são mais importantes, segundo ela. Eu posso as fazer para o bem e para o mal dos outros. Eu tenho que cuidar para não fazer mal às pessoas. Disse-me para eu não falar da minha tristeza para aqueles que já estão tristes. Isso pode fazer mal a essas pessoas. Então, num apelo franco, ela frisou: _Por mais que você esteja ferida, irritada e com vontade de brigar ou chorar ou gritar em consequência dessas provocações, pense naquilo que as pessoas precisam, um sorriso, um abraço, um conforto. De tudo o que eu vivi e aprendi nestes anos todos, eu cheguei a conclusão de que o dinheiro manda, mas o afeto rege. As arapucas da estrada muitas vezes nos impedem de andar na linha e consequentemente de um trem passar por cima da gente. Dessa conversa com a minha amiga Joana eu não quero esquecer nenhum detalhe. Que lição de vida eu recebi.

Faço. Conto publicado em coletânea.

Faço. Faço, pai. Acabou-se a discussão. É assim que a minha vida funciona. Ao ouvir estas palavras da menina que vira crescer, que conquistou estudos, Oswaldo, cirurgião-dentista de 56 anos, se assustou. _ Ana, se você precisar de mim, me avise, me chame. A moça, de tez marfim e 25 anos, jogou os cabelos cacheados e negros para o lado e deu de ombros. Pensou na carreira, na direção que queria para o seu futuro. Tudo que ela quisera até agora, conseguira. Oswaldo, preocupado com a filha, não dormia. Aguardava Ana abrir a porta da sala. _Filha, tudo bem? _Lógico, larga a mão de ficar acordado me esperando, estou bem. Riu-se e foi deitar. A mãe da moça morreu quando a menina tinha 10 anos de idade. Fora complicado criar uma filha única. Oswaldo saia de vez em quando para jogar conversa fora e namorar um pouco. A filha, sabendo porque o pai saia, resolveu ser igual. Não chorava, não admitia fraquezas, a vida era dura e os mais fortes venciam. Cresceu com essa certeza norteando os seus rumos. Aos dezoito, pediu uma cópia da chave da casa, afinal, algumas vezes tinha que esperar o pai chegar e abrir a porta para entrar em casa. _Casa que era da minha mãe, mal ela se foi, ele se achou livre, na verdade, ele não agüenta a ausência dela. Eu senti falta dela, tanta falta, mas estudei em casa. Hoje eu sei que posso o que eu quiser, eu consigo. Não adianta ele vir com conversa fiada. Eu sou a dona do meu mundo, fala com as amigas. As amigas não dizem nada. Ouvem e sentem pena da mágoa guardada. Ela está na faculdade de Direito, faz estágio em um escritório famoso na cidade de Campinas, onde nasceu e se criou. Leva uma vida masculinizada, se veste de calças compridas e camisa social. _Arnaldo, me ligue amanhã, que hoje eu tenho um almoço com um cliente. _João, passe aqui na Sexta que saímos para comentar a defesa. Assim caminhava a extensa lista dos seus colegas. O pai lhe avisou: _Um dia isso ainda acaba mal. Temo por você, uma moça tem que usar um vestido, uma saia, um batom. E as suas sobrancelhas tão grossas, nunca viram uma pinça. _Eu sei bem o que faço, dizia Ana com altivez. Foi o senhor quem me criou, sigo o seu exemplo. _Se me seguir como quer, nunca vai sentir um abraço de um homem. Você não gosta ou não pensa em namoro? _Não é isso. O senhor viu no que deu toda a feminilidade da mãe. O cachorro atacou e ela pediu socorro. Ela tinha que correr e não gritar. O pai ouvindo-a se comoveu e não tocou mais no assunto. Com jeito e devagar, eu mudo as coisas, pensou. Ana continuou com o seu coleguismo com o sexo oposto. Passa o tempo e o pai todos os meses dá uma lembrança, um rímel, uma bolsa, um vale- perfume para que ela vá até a loja e escolha um que goste, para que a filha lembre que é uma mulher, bonita e delicada, além de boa profissional. Ela não se dá conta da transformação porque ainda usa os trajes que prefere, mas a mulher que ali dentro mora, já se manifesta na aparência, no cheiro, nas maneiras. Um fim de semana qualquer de folga, resolve ir até a praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. Ela escolheu essa praia porque todos os seus colegas vão a Ubatuba, São Paulo, nos feriados. Não os encontrará no Rio. _É o que ela pensa, minha mãe tem um apartamento no Leblon e vai para lá no fim de semana, comenta João com os rapazes que a conhecem. _ Escuta João, podemos ir juntos? Eu e Fernão não podemos perder isso! Qual de nós ela gostaria, se topasse namorar alguém? _ Se não atrapalharem a rotina da mãe na praia, tudo bem. Foram-se todos para o Rio. A Ana, o João, o Fernão e o Arnaldo. Lá, os rapazes resolveram verificar como Ana estava se saindo como mulher e foram até a praia de Copacabana dar uma espiada sem que ela soubesse, caminhando no calçadão da avenida Atlântica. Ana colocou o seu biquini, uma saia e uma camiseta regata e foi à praia levando uma mochila com bloqueador solar, uma toalha, telefone celular e um pouco de dinheiro para um lanche rápido. Chegou na areia, tirou a saia e a camiseta, estendeu a toalha, passou a loção bloqueadora, deitou-se, pegou o celular e ligou para o pai: _Pai, consegui ser menina finalmente. Acredite pai, estou usando até brilho colorido na boca. _Ufa, salvou-se uma alma do purgatório, divirta-se!, dizia o pai rindo com uma lágrima nos olhos. Os três colegas vendo a cena, começaram a comentar: _Olha lá, não é que ela é mulher mesmo. Cheguei a duvidar, disse o João. _Jeitosa, bonita, mas com uma cabeça complicada, disse o Arnaldo. _Eu vou chegar junto, que é pra mim, disse o Fernão. Os outros não permitiram que Fernão chegasse perto da garota, ele iria. estragar o plano traçado. _Vocês aporrinham, vai ver é por isso que ela sempre foi homem para vocês. É porque ela não sabe que existem homens como eu, um tipo raro e talentoso. _Fica na tua Fernão, disseram os outros. Ana estava na areia sozinha, bonita, branquinha, cara de turista. Um carioca nada bobo puxou conversa: _ O rapaz do camarão frito já passou? _Não, eu nem sabia do camarão, respondeu a moça. _Mas devia saber, porque o sol que aqui bate é para camarão paulista nenhum botar defeito. Ana riu-se, achou-o divertido e ele continuou na paquera, mas foi embora sem falar onde estava, estava sozinha na cidade. Ana saia, os colegas atrás se divertindo. O carioca paquerando, ela gostando do lero-lero. Ele a convidou para uma caminhada. Ela topou. Viu o que não era para ver. Os colegas se esconderam dela. Ficou triste. O carioca percebeu que algo estava errado, pensou que ela vira um antigo namorado e aproveitou para colocar os braços sobre os ombros dela. Os observadores, com inveja do moço, foram ao encontro da moça. Todos os três se disseram amigos íntimos dela. Não era verdade, mas Ana não tinha como provar. O carioca Ricardo caiu fora sem que ela soubesse muita coisa a seu respeito. Voltou para casa decepcionada com os quatro. Contou o que aconteceu para o seu pai, que ficou assaz aborrecido: _Adianta? Me diga se adianta? Todo esse tempo para conseguir me sentir bem comigo mesma, e o que acontece? Tudo arruinado, tudo foi água abaixo. Dizia e pensava nas suas roupas de trabalho, que iria vestir na semana seguinte. O pai, irritado com Fernão, João e Arnaldo, respondeu: _Adianta. Tente de novo. Sozinha. Aprenda. Enfrente. Mostre que você é forte. Não são as roupas de homem que te fazem forte, é a coragem de passar pelo que você passou. Quando você se enfrenta e consegue se superar é que você vence. Que não volte o antigo comportamento que amargurava, que envenenava. Se assuma, quem sabe o futuro? Outros cariocas vão aparecer, ou paulistas, ou do raio que os parta! Eu quero você menina, mulher. Eu não tive um filho homem, eu tenho uma filha mulher que não me envergonha, que eu não quero que se envergonhe disso nunca. Ana chegou ao escritório na Segunda-feira meio sem graça, de saia preta na altura dos joelhos e um blazer vermelho, acompanhando a blusa vermelha, sapatos de salto alto e meias finas. _Bom dia. Os contatos com os colegas advogados recomeçaram. O relacionamento entre eles não voltou a ser o mesmo. Tinha uma jovem entre eles.

Maio é o mês das noivas. Conto O Casamento publicado em coletânea.

O Casamento. Isso aconteceu no ano de 2.001, quando um casal de amigos casou a filha. Quatro meses antes do casamento, o pai da noiva pediu para ter uma conversa particular com o genro. A Laura, a mãe da noiva, temeu pela filha e pelo casamento pensando no gênio do marido. O Ernesto era muito sisudo. Ainda mais quando se tratava da filha. Ela era muito curiosa e foi proibida pelo marido de ouvir a conversa. Laura me pediu para ouvir a conversa dos dois, que seria numa confeitaria da cidade. A confeitaria possuía espaços reservados e só havia uma pequena janela que ficava no alto da sala. No lado de fora, do outro lado da janela, estavam as mesinhas ao ar livre, num pátio decorado com vasos de flores. No princípio eu não aceitei fazer um papel desses, mas quando ela me disse que se eu não o fizesse, ela pediria à zeladora do prédio onde eles moravam que fizesse a escuta, eu aceitei. Fiquei com pena do jovem casal. Eles não mereciam passar por isso. Eu, que gosto de finais felizes, resolvi que o casal seria feliz. O moço era de boa índole, gostava de trabalhar e era educado com a noiva. A moça era de uma delicadeza ímpar para com o noivo. Eles estavam calmos, mas os pais agitados demais, na minha opinião. Fui no dia marcado até a confeitaria. Quando o sogro e o genro chegaram ao local, eu me posicionei do outro lado da janela em uma mesa de madeira de imbuia coberta com uma toalha branca, com quatro cadeiras. Naquele dia eu fiz um almoço leve e na confeitaria pedi um café colonial completo, me preocupando mais com o meu lanche do que com a conversa ao lado. De qualquer maneira, o Ernesto começou a falar e eu o ouvi. Começou a discorrer sobre a lua-de-mel, e disse ser o paraíso na Terra para aqueles que se amam de fato. _ Você está feliz, sem dívidas, e o seu pai chega no momento em que você leva umas bolachinhas e suco de uva em uma bandeja para servir à sua mulher. Ele diz que você está incorrendo em um erro grave e que vai acabar sendo capacho da sua mulher se não se cuidar. A mãe da moça chega quando ela dedicadamente e até orgulhosa da atividade, passa as suas cuecas de seda. Diga-se de passagem que as primeiras cuecas do marido são da mais pura seda na opinião da jovem esposa. A mãe diz para a filha que o tempo da escravidão já passou e pergunta quando acabará a folga do marido. Os dois vão torcer para que a festa acabe logo e a vida profissional recomece. Chega a rotina, vem a alegria e o gasto com as crianças. O noivo o interrompeu, cauteloso com o rumo da conversa, para saber, afinal, onde é que ele, o sogro, queria chegar. Ernesto respondeu que ao invés de dar conselhos sobre o casamento, ele preferia contar a sua vida de casado e que Dirceu aproveitasse a sua experiência como quisesse. __Quando a união for formalizada, com o sim, você, Dirceu, ganhará uma família de quinhentas pessoas. Pessoas essas que te chamarão de primo e se você tratar a todos como primos, você morrerá em breve com a pressão arterial alta. Não queira visitá-los. Os aniversários da família bastarão para você se estressar. Eu não quero a minha filha viúva tão cedo. A Renata é tão doce, não merece ficar viúva e família é que nem remédio, em doses excessivas é veneno. Dirceu não abriu a boca e deixou o sogro continuar. _Eu estou casado há vinte e seis anos com a Laura porque eu nunca fui naquelas festas de oba-oba lá no escritório onde as conversas giram em torno da vida sexual das colegas mulheres. As colegas que gostam da noite não são da minha conta. Outro aviso importante é sobre as pessoas que tentarão te arranjar amantes. São aquelas que estão acima de qualquer suspeita, os teus cunhados, os teus sobrinhos quando forem crescidos. Infelizmente, as piores traições começam dentro de casa e com as pessoas nas quais depositamos confiança. Eu contei à Laura que o irmão dela me convidou para uma saída extraordinária após a partida de futebol do São Paulo. Ela não acreditou em mim. Até hoje o assunto é motivo para uma conversa mal-humorada entre nós. Vem à minha lembrança neste momento um caso no qual eu não tive a menor culpa e é motivo de dúvida até hoje para a Laura. Ela discutiu com a vizinha, a dona Rute. Ela teimava em colocar o lixo dela na nossa lixeira e a frente da nossa casa ficava feia com tanto lixo aparecendo. A frente da casa da vizinha ficava limpa e a da nossa casa, suja. A vizinha, de vingança, disse que quis chamar a atenção porque eu tinha um caso com a bela vizinha da quadra abaixo de onde nós morávamos. Ela disse que queria prevenir e ajudar a acabar com este romance. Romance que nunca existiu. A Laura me dava indiretas todos os dias sobre amantes. Aí eu comecei a olhar algumas vizinhas, que eu sabia que eram fiéis aos respectivos maridos e namorados, como mulheres e não mais como vizinhas. Eu disse para a Laura que se ela não parasse de falar em mulheres eu acabaria arrumando uma fora de casa. Falei sério. Fiquei muito nervoso com a aporrinhação. Ela chorou. Não tocou mais no assunto, mas desconfia até hoje. Hoje eu rio com o ciúme dela, mas na época eu não suportava mais. Dirceu o interrompeu para o apoiar. _ Meu prezado futuro genro não faça isso. Não me apóie nesse assunto que a Laura impedirá que você suba ao altar para se unir à Renata. A Laura é muito curiosa e até nem sei como foi que eu consegui falar com você sossegado, do jeito que estou falando agora. A essa altura me achei uma anja gulosa. Comer e ouvir e depois dar a minha versão final, que delícia. Graças a Deus eu tenho um bom coração. Estava pensando no quanto a minha amiga tinha sido irresponsável ao me dar uma missão deste tipo, quando a conversa continuou lá dentro. _A Renata é jovem ainda e certamente irá pedir conselhos à mãe. Mesmo cuidando com o que fala, seja sincero com ela. Eu a eduquei para agir com bons modos e pelo que tenho observado ela te conta tudo o que sente. Cuidado com a sogra. Eu conheço bem a Laura e ela pode, mesmo sem querer, te meter em encrencas. E eu falo dessa maneira porque entre mim e a Laura existe uma cumplicidade. Ela me defende dos meus defeitos e eu a defendo dos dela. Por favor, depois de casado peça para a sua mulher o respeito ao lar que vocês formaram e que os problemas fiquem por lá mesmo. Não os dividam com a mãe, a tia, a madrinha ou a prima. A não ser em caso de doença ou desemprego. Nem com a família dela e nem com a sua. Você sabe como está o seu senso de humor em um certo dia, mas o da sogra nem Deus adivinha meu genro. O genro concordou meneando a cabeça para frente. O sogro continuou a preleção dizendo sobre as desavenças. _Todos nós, em dias desafortunados somos capazes de dizer o que não queremos e nunca pensamos ser capazes de dizer com o intuito de magoar aqueles que nós amamos. Paciência. Acontece. O importante é não ultrapassar as palavras. Saia até a raiva passar. Ela passa. Eu sei bem disso. Houve um dia em que voltei para casa me sentindo humilhado pelo meu chefe de departamento e quis dividir o ressentimento com a Laura. Ela havia despedido a empregada. Naquela época estávamos abonados e pudemos contratar uma empregada. Eu não sabia da demissão. Ela ficou a favor do meu chefe. Depois de cinco dias nos quais não trocamos uma palavra, ela me contou que no ambiente de trabalho havia muita gente conversando ao mesmo tempo e a concentração dela no trabalho estava péssima. Chegou em casa e a Fernanda, que era a nossa empregada, queimou a calça preferida da Renata com o ferro de passar roupas e a Renata retrucou dizendo que aquilo havia sido feito de propósito. A Renata era adolescente e a Fernanda respondeu para ela. Aí, eu entrei e me queixei. A casa quase pegou fogo naquele dia. Eu continuava ali na confeitaria, cansada da comilança, ouvindo tudo, irritada comigo mesma, me sentindo a pior das bisbilhoteiras. Pensei em adentrar a confeitaria e contar tudo. Se eu fizesse isso, o Ernesto sairia de casa para espairecer, mas quando que a raiva passaria? Antes do casamento? Neste momento o Dirceu começou a falar dele mesmo, eu gostei de ouvir ele falar e não saí do meu posto. Com educação agradeceu ao sogro e disse que ele certamente estava preparado para criar uma família. Disse que queria uma família, com os acertos e desacertos que acontecessem. A família dele também tinha as suas situações embaraçosas. Pediu ao sogro que não conversasse com o pai dele sobre aquele encontro. A essa altura paguei o café e saí. Fiquei sem jeito. Eu estava ali para saber o que o Ernesto queria conversar com o Dirceu. O que o moço sentia ou a vida íntima dele não era da minha conta. Não contei para a Laura o teor da conversa, que realmente era séria, mas era particular. Disse que não consegui ouvir nada porque os freqüentadores da confeitaria estavam muito falantes e as vozes se misturaram. Me fingi de surda e disse a ela para confiar mais no Ernesto. Ele, que sempre fora sério, não haveria de causar constrangimento ao Dirceu na véspera do casamento. A cerimônia foi bonita, o jantar estava bom e a conversa agradável. Na saída da festa a Laura me pediu desculpas e pediu o meu sigilo. Eu sorri e respondi que ela jamais confiasse a sua filha à zeladora do prédio onde residia a sua família. Eu guardarei o segredo e não conheço ninguém em que eu confie o suficiente para controlar os passos dos meus filhos. Espero sinceramente que a conversa desses dois seja lembrada por eles como um momento bom. O meu presente de casamento não foram aqueles castiçais, foi a minha discrição diante de tudo o que eu sabia a respeito daquela família. E se não fosse eu? A crônica seria outra.

domingo, 23 de maio de 2010

Nem tudo é o que parece nesse conto:Outra Dimensão.

Outra Dimensão. Naquela terça-feira do mês de abril, Márcia se sentiu livre e poderosa para fazer o que lhe viesse a cabeça. Aos cinqüenta anos, ela tinha finalmente conseguido o sucesso, estabilidade financeira como empresária franqueada de uma loja de roupas de grife francesa. Após refletir o caminho percorrido como balconista, subgerente de vendas de uma loja de departamentos, gerente de uma empresa de cosméticos, as economias feitas até montar uma pequena butique, pensou que estava na hora de se permitir tirar umas férias para se soltar e extravasar o seu íntimo, reprimido pelos compromissos constantes no comércio. Foi até uma agência de viagens, comprou um pacote de viagens com estadia para 20 dias nos países baixos. De repente, pensou na aventura que talvez tivesse dormindo abaixo do nível do mar, na Holanda. Já sonhava com as tulipas, os castelos, os diques e com os passeios aos moinhos de vento. Preparou tudo para a viagem. Determinou que Catarina, a sua mais antiga funcionária, tomasse conta da loja. Foi ao banco e autorizou o débito automático de todas as suas contas e já aproveitou para pegar a quantia de dinheiro necessária para uma viagem tranqüila. Chegou o dia 25 de abril, pegou as malas, chamou o táxi e foi para o aeroporto de Guarulhos. Entrou no avião, o céu estava claro e o clima estava ameno. O avião decola, ela lê, ouve música e acaba dormindo. O avião adentra uma nuvem. Acontecem mudanças no comportamento de todos os passageiros. Alguns riem, outros gritam, outros choram, há até os que dançam em descompasso nos corredores da aeronave. Ela se sente livre como um pássaro e canta as músicas que lhe vêm na mente. O piloto avisa que aterrissará em Amsterdã. Os passageiros saem atônitos com o que se passou dentro do avião e vão para o American Hotel. Estão cansados. Márcia come alguma coisa, toma um banho, se veste para dormir e se deixa cair na cama, cansada da viagem. No dia seguinte quando acorda, repara que tem um homem dormindo ao seu lado e que ela está em uma cama de casal. Levanta e esbraveja: _ O que significa isso? Eu nunca me casei! O homem acorda e pergunta se ela está bem e diz que o seu nome é Ivan, que eles estão casados há mais de vinte e cinco anos. _Eu conheci um Ivan quando eu tinha 19 anos, namorei com ele, mas não casei. Como posso saber se você é o Ivan de Figueiredo que eu conheci na minha juventude. Namorei-o durante seis anos, depois você, que dizer, ele, disse que não gostava mais de mim e me disse adeus. O homem senta-se na cama, sorri, pega a carteira de documentos, mostra a carteira de identidade e o passaporte devidamente carimbado. Ao pegar os documentos, ela confirma que são autênticos. Imediatamente pega a sua frasqueira de mão e olha os seus documentos. Que susto leva ao se deparar com uma certidão de casamento contendo os nomes de Márcia Gonçalves e Ivan de Figueiredo como casados. _E o tempo que eu trabalhei e economizei para chegar até a minha loja de grifes, pergunta para o Ivan. _Loja, que loja? Responde ele estupefato. Márcia pega o telefone e liga para a Catarina, São Paulo, Brasil. Catarina é dona de uma lavanderia e diz que não a conhece. Cada vez mais atordoada, pede licença ao Ivan e vai até o saguão do hotel. Senta-se no sofá da recepção e as lágrimas rolam sem se desculparem pela dor que causam. Ela lembra que há dois anos resolveu desmanchar o enxoval e havia colocado uma toalha de mesa na cozinha, duas toalhas de rosto na sua casa em Santos e uma toalha de banho para o seu uso diário. Odiava se alguém a presenteava com peças de enxoval. A palavra casamento era uma ferida aberta e não deixava que ninguém se aproximasse para comentar a sua vida pessoal. Dedicou a sua vida ao trabalho e nenhum homem que conheceu depois do Ivan a fez se apaixonar daquele modo próprio da juventude. Mantinha o lazer como uma religião, distraía-se enquanto o tempo passava e não pensava em afeto. Acalmou-se, subiu ao quarto, olhou para Ivan e disse como se sentia e que não se lembrava de estar casada. _Eu também não lembro, isso deve ser conseqüência da turbulência no avião. O susto provocou efeitos colaterais, mas deixe estar que passa. Verifiquei a documentação antes de deitar, também fiquei surpreso. Márcia olhou para Ivan demoradamente e viu as rugas, o sorriso, os gestos e achou graça. De repente, não queria mais a situação anterior, aquela nova dimensão de vida lhe fazia bem. Tudo que ela sempre sonhara estava ali perto. No entanto, era honesta consigo mesma e com os outros e o seu marido precisava buscar a clareza dos fatos também. Ivan concordou em dar um pulo até o consulado brasileiro e se informar. A secretária do consulado entregou um comunicado do Ministério da Aeronáutica convidando a todos os passageiros daquele vôo para uma reunião, após a volta ao Brasil, que não seria antecipada para o bem estar de todos os turistas. O roteiro programado pela agência de turismo seguiu normalmente para o casal. Na volta ao Brasil, eles entraram em contato com o Ministério da Aeronáutica para marcarem a reunião, que se realizaria no dia 15 de maio de 2.007. Na data marcada eles foram à Base Aérea para a reunião. Foram recepcionados pelo coronel-aviador Geraldo Simão. _ Sentem-se, por favor. O assunto é secreto e ninguém acreditaria se vocês contassem. Há um ponto no céu, em cima do Oceano Atlântico que exerce uma força atrativa sobre os aviões. Os pilotos da aviação civil são orientados a desviar o ponto porque os passageiros... Deixe-me explicar melhor: mágoas são apagadas e os desejos secretos se tornam realidade no instante seguinte. Aí está o problema. Vocês se sentem roubados e felizes ao mesmo tempo. São emoções desconhecidas e não estudadas, são emoções raras. A vida pregressa desaparece, a memória é de uma realidade que não existiu. O que existe é só o que vocês têm no momento. Se precisarem de ajuda, tratamento psicológico, estamos fornecendo gratuitamente aos interessados. _Porra!!! Diz Ivan. A mulher se comporta diferentemente dele. Consciente que a delicadeza do espírito havia a abandonado e que ela se tornara fria como uma pedra de gelo, quis se descobrir e se encontrar novamente com as sensações perdidas nos anos de batalha. Voltam ao apartamento do Ivan, morada do casal há quinze anos. Ligaram para Santos e Márcia tinha a sua casa ainda bem conservada. _Ufa!!! Diz Márcia. Os dois conversam sobre todos os assuntos que não conversaram durante os anos em que estiveram ausentes um do outro, ela com carinho e ele com atenção. Outras conversas como dinheiro, sexo, idade entravam sem querer no meio da conversa. _E agora, pergunta Márcia. _Agora sigamos juntos. O que é a realidade senão o que o inconsciente deseja e trama para que sigamos o caminho que o espírito na verdade almeja, responde Ivan. Ela concorda e sorri.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Conto publicado em coletânea: Quarta-feira de Cinzas

Quarta-feira de Cinzas. Urânia acordou ao meio dia da quarta-feira de cinzas tentando lembrar o que aconteceu naquela semana de festas momescas. Pensava em voz alta: _Deixe-me ver se lembro, eu pensei que tinha treze anos e beijei todos que quiseram me beijar, ou, eu achei que era uma freira de minissaia e queria comprar uma saia preta longa a qualquer custo e ninguém me vendeu, ou me perdi nas ruas de Salvador e chorei chamando a minha mãe, que já morreu, e abracei a vendedora de cocadas achando que ela estava com o seu espírito incorporado em forma de cocada com leite condensado, ou, o que é pior, tudo isso em quatro dias. Na minha cabeça tem um surdo e um agogô a todo o vapor. Aqui é a Bahia, acho que tudo pode acontecer. Olhou para o lado da cama, no hotel, e viu o abadá colorido. Tinha até domingo para voltar ao normal e seguir viagem para São Paulo. Sabia que cometera excessos. Era a primeira vez que viajava sozinha e sentiu-se livre para fazer tudo o que pudesse. O único problema foi a ressaca, aquele mal-estar, o dorme e acorda e volta a dormir com o estômago parecendo uma máquina de lavar roupas. Precisava ficar só há algum tempo, mas sempre havia alguém por perto. Parecia que era proibido pensar, fosse para reler as suas conclusões sobre o passado ou fosse para planejar o futuro. Eram os colegas de trabalho, os vizinhos, os conhecidos. Gente que falava o tempo todo e deixava o seu ouvido zunindo. Ela dizia que precisava se isolar e a torcida do time do São Paulo que estava a sua volta dizia que não. A pressão psicológica de São Paulo, aquele movimento, as ruas superlotadas de gente, a demora para chegar ao trabalho, a poluição; os amantes, que se oferecem e que em geral são recusados, em cada esquina; o horário apertado, o almoço apressado, tudo parece problema. Foram três anos nessa vida agitada e sem possibilidade de mudança. Nesse ano ela se decidiu a ir passar o carnaval em Salvador, comprou o abadá antecipadamente na agência de viagens no mesmo dia em que comprou o pacote turístico de carnaval. Ofereceram um coquetel para os turistas antes da folia. Ela veio mal de São Paulo e queria extravasar, sem medidas, esquecer a cidade que faz dos homens uma máquina, que respeita o senhor dinheiro como um deus. Tinha que melhorar antes de parar para pensar. Daquele jeito não dava. A cabeça voltava a incomodar e o estômago melhorava aos poucos. Estava só e era bom estar só numa hora dessas. Toca o interfone no quarto, é a recepção do hotel perguntando se ela gostaria de aproveitar a estadia e conhecer algumas praias e cidades próximas ou fazer um passeio de barco, são passeios baratos e ela ocupa os outros dias da estadia em Salvador antes de domingo, quando acaba a excursão, com isso. Ela aceitou, escolheu um passeio pelas praias, um almoço típico da região com visitas a igrejas e um passeio de barco. Apenas pediu para a recepção do hotel que aguardasse a hora do jantar para pagar o roteiro que escolheu. Ela desceria e acertaria as contas desse pacote extra. À noite, desceu e conversou com a Dalva. Moça calma e alegre que brincou com a Urânia: _Aqui na Bahia, nós temos o “cura ressaca”. Você se acabou na festa e agora tem que se recompor, manter a distinção. Se eu morasse em São Paulo, eu vinha para cá de mudança. Virgem Santa, o que são aqueles homens que querem gozar com dinheiro no bolso? Aquilo não é gozar, aquilo é sadomasoquismo. Nenhum ser humano goza porque tem dinheiro no bolso, ele goza quando ele não tem nenhum bolso para guardar o dinheiro. Guardei um litro de água de coco para você. Substitua o coquetel pela água, acrescente um dendê e um leite de coco na refeição e sinta a baianidade entrar no seu corpo. Urânia sorriu, pagou e foi jantar no saguão do hotel. Bacalhau à baiana e arroz com leite de coco, depois para completar mugunzá de cortar para a sobremesa. Foi se deitar duas horas após a refeição e dormiu feito criança. Acordou sem pressa para nada, a festa acabou, era hora de passear. Entrou no ônibus do hotel, sentou-se na terceira fila, recostou a cabeça e olhou a paisagem pela janela. Coqueiros, praias paradisíacas, sossego de espírito. Estava como queria após três anos intermináveis de correria. Voltará para São Paulo no domingo. O tempo passa vagarosamente enquanto caminha na areia do Farol da Barra. Ela não quer mais extravasar daquele jeito feio, mas que brincar com a areia e faz um castelo de areia. Não se pode viver num castelo de areia, mas sempre se leva um pouquinho da areia do castelo para dentro da sua casa, o seu mundo particular. É o que compensa a viagem é essa construção de nada. O povo parece não ter pressa, quer sentir o cansaço da festa devagar, no ano que vem tem mais. Ela queria ser assim, mas em São Paulo é impossível. Por outro lado, ela decide que vai procurar um emprego num local próximo do local onde mora, ou, muda de casa para morar perto do emprego. Na sexta-feira se sente descansada e já pensa na viagem de volta. Verifica a arrumação da mala. Percebe que chegou esgotada à cidade e agora se sente melhor. Entra em silêncio no hotel. A recepcionista pergunta se ela gostou da visita à Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia e ela responde que sim e que até aproveitou a visita para pedir uma vida mais calma, com menos correria. No domingo volta para casa, em São Paulo, disposta a mudar. Desfaz as malas e olha a sua lista de contatos. Examina minuciosamente quem ela quer que continue na lista e quem ela quer que saia da lista. Ela lembra de uma notícia que leu no jornal de relance quando o ônibus parou em frente daquela loja de artesanatos, na Bahia, um homem havia sido internado em um hospital e acusava o vizinho como o causador do seu estresse e a família do homem deu queixa em uma delegacia pelo crime de assédio moral e estava feita a confusão porque assédio moral é típico de ambiente de trabalho. Aquela moça que morava no 1705, a Sílvia, sua vizinha, tinha atitudes que lembrava a notícia lida. A Sílvia a tratava muito bem e coincidentemente se encontrava com ela todas as vezes que ela entrava no elevador. Urânia anotava os preços de supermercados e fazia tabelas dos preços mais baratos praticados pelos supermercados. Por algum motivo desconhecido seu, pensou na vizinha com outros olhos e sentiu um arrepio. Na segunda-feira após o carnaval, ela volta ao trabalho. Encontra a Sílvia no elevador, antes de sair para pegar o metrô e ela diz que as duas precisam conversar mais tarde. No fim do dia, quando chega em casa, Urânia diz a Sílvia que dê uma passada lá. Recebe a vizinha na porta e não a convida para entrar. Sílvia conta o motivo da sua visita: _Urânia veja as fotos que me mandaram pelo celular. Nas quatro primeiras você está beijando na boca homens desconhecidos, nas outras você é retirada de uma loja com uma saia preta comprida e dançando pelas ruas de Salvador, e esta aqui mostra você pedindo a benção de joelhos para uma cocada. Você se embriagou na viagem. Urânia a interrompe e pergunta quem mandou as fotos para ela. _Não faço ideia. Não conheço os números de telefone que enviaram as fotos. Perceba o que quero dizer, querida, se estas fotos chegarem ao prédio, você será prejudicada. Eu estou querendo te ajudar. O que você quer que eu faça com as fotos? _Sílvia, onde você quer chegar? _Bem, a síndica precisa de uma auxiliar e ninguém quer entrar no conselho fiscal. Eu tenho vontade de ajudar, mas não posso. Eu não entendo de contas. Você pode. A questão é simples, você entra para o conselho fiscal. _Esse problema é da síndica, o conselho fiscal é eleito e, nem eu e nem você devemos nos meter com isso. Você é nutricionista, não é contadora. _E você, Urânia, uma economista que se embriaga no carnaval. Urânia disse que não iria cooperar com aquilo, mesmo conhecendo a situação, não tinha tempo, corria os supermercados o dia inteiro para fazer a coleta de preços. A síndica, Juraci, morava no terceiro andar do edifício em que morava, no bairro de Pinheiros. As fotos apareceram não somente nos celulares dos colegas, mas nos celulares dos vizinhos que ficaram estupefatos com a atitude da engenheira no carnaval. Com o nome na berlinda, diversos boatos novos surgiam a cada dia a seu respeito. Dentre eles, o porteiro que jurou que ela o convidou para sair à noite, mas ele recusou. Algumas senhoras encontraram com ela no elevador e deram o conselho para que ela tomasse banho de água fria que ela se sentiria melhor. No escritório, ouviu um dos funcionários comentar que isso era briga de cachorro grande e não era para eles. O supervisor a chama e pergunta o que está acontecendo. _Eu fui pular o carnaval em Salvador e aprontei um pouco, depois que eu bebi além da conta. Eu poderia ter dançado e brincado com os outros sem beber. Eu fiz coisas que não devia. Eu não deveria ter tomado nada. A ressaca foi horrível, você não imagina. Ele a conhece e sabe como foram os últimos três anos. Ele bem que avisou para ela não levar trabalho para casa, mas não adiantou. Ganhar um salário dobrado com horas extras é bom, desde que não prejudique a saúde. Ele a acalmou e disse que ela não perderia o emprego por aquele motivo. E disse para ela não beber para descontrair. _Se soubesse a imagem deplorável que as mulheres com um copo na mão passam aos outros, não tomaria nenhuma bebida alcoólica pelo resto da sua vida. Com o tempo os boatos cessam. Esqueça. Os boatos não cessaram. O ambiente piorou. A síndica mandava fazer vistorias desnecessárias no seu apartamento. A Sílvia propôs fazer um abaixo-assinado para retirar a Urânia do edifício, mas parte dos moradores não concordou. Um dia, Urânia não suportando mais os comentários foi à reunião de condomínio. Houve a reunião, um morador beliscou-lhe as nádegas, uma moradora sugeriu que ela assumisse a vida fácil, o outro convidou-a para uma taça de vinho e uma outra disse que não falava com loucos. Urânia pediu a palavra e contou das fotografias que apareceram no telefone celular da Sílvia. Disse também que não gostava de reuniões de condomínio e estava lá somente para falar desse problema que a incomodava muito. Os condôminos se entreolharam, alguns cochicharam aos ouvidos dos outros moradores palavras ininteligíveis e outros calaram em respeito para com ela. A síndica sorria. Ao final da reunião, Juraci pede que Sílvia a aguarde que ela precisa lhe falar. Urânia foi para casa dormir. No dia seguinte, quando novamente ela pega o elevador, encontra a síndica Juraci e a Sílvia juntas. Cumprimenta as duas e se dirige à porta. A síndica a segura pelo braço e diz: _Espere um pouco, Urânia. Eu preciso lhe informar que quem manda aqui dentro sou eu. Não quer trabalhar no condomínio? Não tem importância. Procure um outro local para morar. Eu não posso obrigá-la, mas posso avisar que a sua vida ficará difícil. Ninguém gosta de você aqui. Eu não deixarei que os moradores gostem de você e é melhor que se mude para um local onde eu não conheça o síndico. Nós, os síndicos, somos os cães de guarda dos edifícios e aqueles que são como eu, e somos em um número razoável, sabemos minuciosamente do lixo de cada morador. Uma amiga minha que mora em Salvador achou graça do estado caótico de uma foliona, tirou fotos e mandou-as para mim. Os síndicos são bons quando querem, entendeu? Você mora sozinha, seus parentes moram longe, não me pergunte como eu sei, eu sei. Se você quiser se comportar pela minha cartilha e ser minha conselheira fiscal, eu serei sua amiga. Caso contrário, é melhor se mudar para um edifício onde eu não tenha contatos, o que será difícil. Que o seu dia de coletora de preços seja bom. Urânia não responde. Entra no metrô sentindo a angústia de quem quer desabar em lágrimas e não o faz porque não chora em público. Na empresa consultora de preços ela conta o que aconteceu a alguns colegas e ao supervisor e eles a mandam para um hotel. _Não trabalhe hoje. Fique no hotel até arranjar um lugar melhor para morar. Contate as imobiliárias. Saia de lá. A gente ajuda na mudança. Urânia teve que se mudar. Vendeu o apartamento que era dela um ano após a mudança. Comprou outro no bairro Itaim Bibi. No carnaval do ano seguinte voltou à Salvador. Comprou o abadá, não bebeu e aprontou tudo de novo. Volta para São Paulo. Ninguém a incomoda. Pode ser feliz de novo.