Não é Problema Meu / Minirônica de Supermercado
Estava eu com o roteiro do supermercado, pães e adjacências, quando parei para olhar um produto, enquanto as repositoras colocavam mais na prateleira, e enquanto isso, conversavam e faziam planos.
Planos de beleza, preenchimento facial.
Mostravam uma e outra as fotos de preenchimentos com aparência natural.
Conversavam sobre o preço do preenchimento facial com o conteúdo de um mililitro do famoso botox, mas esse prometia durar dez anos, ou seja, até os trinta e cinco ou quarenta anos elas ficariam do jeito que imaginavam.
O preço seria parcelado, porque elas não tinham disponibilidade financeira para pagamento à vista.
Escutei toda a conversa, pois elas olhavam para o celular com as fotos, e eu aguardava a liberação da prateleira para pegar o que precisava comprar.
Aproveitei para pensar. Sei que fiquei com vontade de conversar, mas não era problema meu.
Uma série de questões vieram na minha cabeça, como por exemplo, a de uma conhecida que fez plástica pós-parto para ficar com a barriga de solteira. Naquela época, há quarenta anos atrás, fazer plástica significava fazer dieta, pois se ganhasse peso após a plástica abdominal, os pontos ficariam abertos e haveria cicatriz feia naquela barriga linda. Na época, não disse nada.
Desconheço a necessidade de cuidados pós preenchimento facial em clínicas de estética.
Difícil não dizer nada.
Estamos num tempo em que a imagem pessoal é bem vista na internet, é uma nova realidade.
Comecei a repetir para mim mesma diversas vezes que o problema não era meu, que qualquer imprevisto o problema seria delas.
Foi auto-sugestão, não convicção.
O problema está na sociedade e na imagem que fazemos dela todos os dias através das inúmeras fotos que carregamos no celular, nas redes sociais, na consideração que se tem pela estética da tecnologia.
O problema não é meu, mas o pensamento é.
Grata pela leitura.

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