Biografia Não Autorizada / Muita Calma Aí - Conto
Resolveram fazer uma biografia não autorizada de uma pessoa desconhecida.
Nem a pessoa sabia tanto de si.
Aquele intervalo médico onde Sibila esteve internada foi o motivo.
Sibila teve um "peripaque" desconhecido até dos médicos, muitos sintomas e poucos diagnósticos porque os sintomas confundiram-se nos livros de medicina, e o "peripaque" poderia ser qualquer doença entre as vinte possíveis pertinentes aos sintomas.
Os médicos resolveram deixá-la em observação até que houvesse alguma precisão de diagnóstico.
Bastou a coincidência de estar um biógrafo falido, sem editora ou recursos para bancar a impressão de uma das suas histórias ter observado a situação para ter a ideia de fazer uma biografia da doente desconhecida, e até já se imaginava famoso ou acadêmico das letras com essa ideia.
Dolino pediu aos médicos para perguntar à Sibila se ela autorizava uma biografia.
Ela, com irritação disse que não era famosa e não merecia uma biografia. Pensou que fosse alguma ironia por estar ali sem saber o que causava o seu mal estar.
Dolino não se importou, e conforme o caso era curioso, ele aguardava na entrada do hospital para saber o que falariam dela.
Sibila, naquele enfado de nada fazer, começou a imaginar a sua biografia.
Caía em devaneios conforme a febre voltava.
Depois do eclipse veio a conjunção fracassada no céu.
No devaneio, Dolino sabia detalhe por detalhe do período que antecedeu a conjunçao. Veio uma nuvem, o céu ficou amarelado, nublado, depois fechou-se para chover. Choveu um minuto após a conjunção.
Ele presenciou um minuto da conjunção.
Sibila falava desordenadamente: cuidado Dolino, cuidado porque aquele minuto poderá transformar o mundo de quem não viu o céu. Quem assiste um minuto antes da chuva no céu sabe mais do que toda a população que não viu.
Passava a febre e Sibila pensava que, ao menos em devaneio, era biografada, e fazia a fama de um escritor desconhecido.
Voltava a febre e ela imaginava o poderio de Napoleão aumentando ao ter em mãos essa biografia.
O mundo vivenciava a reencarnação de Napoleão Bonaparte, mas se dependesse dela Napoleão não teria acesso a sua biografia, nem mesmo os adversários de Napoleão, porque a história se repete, com ou sem a sua biografia.
O minuto entre o eclipse e a conjunção com a coparticipação de Dolino.
Passava a febre, e ela se preocupava, pois ter uma biografia a tornava alvo da curiosidade da população, com fãs a imitá-la e algozes a enfeiá-la enquanto Sibila.
Os médicos faziam exames e mais exames, e nada encontravam.
Cansada da febre e do hospital, Sibila sugeriu algo extraordinário:
_Essa doença é a neurose do futuro de uma biografada, por favor doutor, peça ao Dolino que desista dessa ideia.
O médico disse que não poderia interferir, porque Dolino não era paciente, mas que ele tinha uma fixação em biografia, era evidente.
Sibila tremia:
_Doutor, o minuto antes da conjunçao, aonde a lua brilhou, e o céu, maravilhosamente estrelado, não pode impedir a nuvem e a chuva, não precisa ser descrito.
Sibila pediu para que o médico tentasse convencer Dolino a fazer a sua biografia, e dizia:
_Napoleão maior que Napoleão, o doutor sabe o que isso significa?
Nesse momento entra o médico laboratorista:
_Febre Amarela! Difícil, mas curável.
Sibila foi tratada e se curou.
Teve alta do hospital.
Na saída do hospital conheceu Dolino e disse a ele:
_Faça um livro sobre ficção científica. Pode ser útil. Eu não sou a sua história. Ficção vende e você pode conseguir o sucesso.
Dolino respondeu sobre a quem pertenceria o minuto depois do eclipse e antes da conjunção.
_Escreva uma metáfora ficcional, é o jeito.
E eu não sei dessa história, e não sei se algum leitor quer saber.
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Grata pela leitura aos leitores do blog.

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