Rio de Janeiro

Rio de Janeiro

http://frasesemcompromisso.blogs.sapo.pt/

O blog da Nina, menina que lia quadrinhos.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Se Um Está Certo, o Outro Também

 Se Um Está Certo, o Outro Também


     A velha senhora no pátio da escola, os adultos diziam que ela já tinha dobrado o Cabo da Boa Esperança, mas continuava ali.

     Gostava das pessoas pelo conhecimento, pela possibilidade de conversar.

     Não tinha histórias infantis, gostava da realidade mesmo sem ser realista no sentido literário da palavra.

     Tinha o seu jargão preferido: enquanto todos estão ocupados, percebo que também preciso, embora a idade não me permita.

     Sentia uma ternura infinita para com as crianças, mas ensinava os adultos.

     Dizia que se tinha que entender as diferentes vontades das pessoas. Era contra a tacanheza de não se acitar o novo, quando o novo estava ali, diante dela todos os dias e eram as crianças oriundas das mais diversas culturas, mas ainda brincavam, eram crianças.

     Gostava de frases diferentes, simples, mas que faziam sentido, como por exemplo: "Os adultos são, mas as crianças serão, e serão a partir daquilo que aprendem como cultura, seja familiar, seja escolar, seja da ambientação social na qual vivem."

     Divagava com a experiência de vida que tinha:

     "O ser humano é o mesmo através dos séculos e a cultura, não. As influências da cultura dominante se fazem sentir pelo menos por duas gerações. A forte influência da cultura europeia, a francesa especialmente, está sendo substituída pela americana, mas eu não sei até que ponto uma monocultura dominante poderá nos auxiliar, tendo em vista que temos aspectos culturais muito diferentes da cultura deles, a começar pelo nosso almoço que não é feito de sanduíches."

     Com mais de noventa anos, interferia na vida dos alunos quando não gostava, e assim dizia que achava não ser boa companhia quem tinha o caderno dobrado nas pontas, as chamadas "orelhas de burro", pois significava desleixo; aos garranchos ela providenciava cadernos de caligrafia; aos canhotos ela apoiava incondicionalmente porque a escrita canhota era considerada pelos incultos como obra do demônio.

     Quanto aos outros, os das outras escolas, ela não dizia nada. Eles também eram o futuro. Os daquela escola eram dela. Todos.    

Nenhum comentário: