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sábado, 16 de outubro de 2010

Crônica A cidade fantasma.

imagem de quadro A cidade fantasma.

Eu não sou afeita a lugares misteriosos e, embora essa cidade se localize próxima à capital do estado, eu não a visitei e não tive vontade de estudar a sua história. Eu adoto a praticidade como estilo pessoal e não combino com alegorias fantasmagóricas. No meu ponto de vista, os mistérios muitas vezes não passam de crendices populares, oriundos da falta de cultura aliada a alguns truques usados por “coronéis de mato” para manter a população sob o seu comando.

Por estes dias, a falta de sorte com uns amendoins torradinhos me fez quebrar um dente e eu fui a um consultório de dentistas plantonistas para emergências odontológicas. Enquanto aguardava na fila de espera, sentei-me no sofá e ao meu lado estava uma senhora com o rosto inchado. Conversamos e ela me disse que era “cidade fantasma”. Pensei na minha praticidade, na minha dor de dente e na ausência de boa vontade com os moradores de lá. Ela se chamava Anita e viera morar na capital depois que a filha casou. Ela tinha vontade de morar em uma cidade grande e realizava o seu desejo. Com o rosto inchado, ela estava feliz de contar com um dentista de uma cidade grande.

Eu disse a ela que não conhecia a cidade de onde ela viera e, para negar ou confirmar expectativas, pedi a ela que me contasse sobre a cidade onde ela passou os sessenta e dois anos da sua vida.

_São muitos os mistérios na minha cidade, eis um fato. O cemitério é o símbolo da praça principal e o povo acende velas para os seus mortos na praça. Os enterros são uma festa com bolos e cafés durante o velório. É uma praça igual a todas as outras, com bancos para as pessoas se sentarem e carrinhos de pipoca. A diferença é que ao invés de uma fonte de água e um jardim, nós temos um túmulo no meio da praça.

Eu disse que a idéia era de mau gosto do prefeito responsável pela obra e perguntei o motivo pelo qual a população não reclamava para modificar o visual da praça.

_A população, ou seja, nós tememos pelos nossos filhos. A senhora preste atenção no que eu vou lhe contar: eu ouvia falar na pedra azul que rolava do alto da igreja e aumentava de tamanho até que passava por cima de quem duvidasse dos poderes ocultos presentes na cidade. Eu não acreditei e pedi a companhia do meu marido para ficar próxima a igreja durante a noite de sábado. Lá, por volta das nove horas da noite, nós vimos uma pedra azul clara e brilhante saindo pela porta da igreja que vinha em nossa direção. Corremos até chegar a nossa casa e juramos nunca mais desafiar o que os mortos da praça desejavam.

À medida que a dona Anita contava a história fantástica, mais eu tinha vontade de saber. Perguntei se esse era o grande mistério da cidade ou se haviam mais fatos estranhos a serem contados. Aticei a vontade dela e ela me contou sobre a caverna santa.

_Contam que alguns jovens, garotos e garotas, foram fazer um piquenique no campo e entraram na caverna. Quando o último jovem entrou na caverna, ela se fechou sozinha. As famílias dos jovens ao perceberem a demora do retorno deles às suas casas avisaram o Corpo de Bombeiros. Os bombeiros demoraram uma semana para abrir a caverna com britadeiras, mas salvaram os jovens. Apenas uma das moças ficou seriamente perturbada e foi direto para o sanatório e de lá não mais saiu. Eu não deixei a minha filha sequer passar perto da caverna.

Eu ouvia os relatos daquela senhora com espanto. Mudei de assunto e falei das vantagens de se morar em uma cidade pequena.

Ela me disse que a vantagem era para as mulheres casadas e que as moças solteiras sofriam muito.

Eu pedi que ela explicasse mais esse seu conceito.

_Uma moça solteira que morava com a irmã e o cunhado arranjou um namorado. Depois de um ano de namoro, ele fugiu com a filha do dono do hotel. Falaram que a moça estava perdida. Eu, na época, pensei que ela, a moça rejeitada, estava perdida em sofrimentos, mas a versão era outra. Não sei onde surgiu o boato, mas disseram que o namorado fugiu com a outra porque descobriu que a namorada era uma moça perdida. O falatório foi tanto, que o meu marido, assim como todos os homens ditos de “bem” naquela cidade, proibiu-me de pisar a calçada em frente à casa da moça. Assim, as mulheres atravessavam a rua para mostrarem umas as outras que não andavam em caminhos errados. Fizemos procissão em frente à casa da moça e atravessamos para o outro lado da rua para que ela nos visse e se arrependesse do que nem sabíamos se era verdade. Não pisamos na calçada onde ela pisava. Pobrezinha, fiquei com pena, mas eu era uma boa esposa e as boas esposas tinham que provar à cidade e ao prefeito que eram boas esposas.

Finalmente chegou a minha vez de ser atendida e a enfermeira estava à porta chamando o próximo e o próximo. Eu e a dona Anita fomos atendidas em consultórios diferentes. Enquanto o meu dente era refeito, eu pensava sobre aquela cidade que eu não quis visitar e, mesmo não a conhecendo e não vendo graça nas festas fúnebres, sabia que nela habitavam os desmandos dos coronéis do mato, uma praga difícil de controlar.

Um comentário:

Solange Gomes disse...

Essas cidades fantasmas , as vezes, são frutos do nosso inconsciente. Pensamos se existem de fato ou se fantasiamos nosso interior... Seja lá o que for a história é contada com tanta precisão que como leitora fiquei com vontade de conhece-la.

Muito imaginativo e curioso o seu texto. Gostei!!!

Bjns.

Solange.