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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Conto publicado no livro Labirinto e Palavras: Vale Verde

VALE VERDEVale Verde

Vale Verde é um Reino distante do tempo da Renascença. Nesse reino existia a cidade de Ourópolis, onde o governador era eleito pela “Aclamação Popular” que acontecia de dez em dez anos. No mês dedicado às colheitas, eram feitas as assembléias e escolhidos os representantes do executivo e dos seus secretários. Os poderes legislativos e judiciários ficavam sob a responsabilidade do Rei. A palavra democracia no fim da idade média e antes da Renascença era uma palavra perigosa, podia acabar em fogueira para quem a proferisse. Aliás a fogueira irritava tanto os seus habitantes que motivou a Renascença. O Rei não se sabia quem era, mas o respeitavam como se respeita o desconhecido, sem se saber se ele é merecedor do respeito. O povo o chamava carinhosamente de “Rei Sombrinha” pelo fato de o desconhecerem.

O governador Honório Jumento tinha duas orelhas enormes, e nada se passava na corte ou fora dela que ele não soubesse. Descobriu através das suas orelhas que alguns dos seus secretários urdiam junto ao Rei a substituição do seu nome para a “Aclamação Popular” (eleições do tempo de não sei quando). Eles queriam se lançar ao governo e, a recondução de Jumento ao cargo de governador, apoiado por Vossa Majestade, terminava com o plano de outras candidaturas.

Jumento sabia de cor e salteado os interesses do rei, dos súditos, dos secretários e da população. As suas orelhas não falhavam. Estudou a questão. Ele próprio pediu ao rei que os seus secretários pudessem se candidatar; eram todos amigos e seguiam a cartilha do reino. O rei assentiu na proposta. Pediu a permissão para falar aos súditos e obteve a concordância de Vossa Majestade. Avisou que iria fazer um comunicado à população e fez um pronunciamento na varanda do seu palácio para a multidão (naquele tempo mil e quinhentas pessoas era uma multidão).

_ Respeitados Súditos. A próxima Aclamação Popular do Reino de Vale Verde está próxima. Será na última manhã de colheita após a lua cheia do inverno. Faltam oito luas para chegar o grande dia. Se, por ventura, os amados súditos de Vossa Majestade, o Rei, me reconduzirem ao governo, conduzirão novos secretários que junto comigo concorrem neste pleito. Estou consciente que, após dez anos de governo, se faz necessário mudar as diretrizes. Alguns dos meus secretários se lançarão a candidatos de governo e junto com eles irá parte do secretariado atual. É chegada a hora do julgamento dos integrantes do meu governo e de mim próprio. Que vença aquele que teve menos falhas na condução da sua pasta. No entanto, se aprovaram o meu governo como um “todo”, agradeço ser reconduzido para o lugar que amo. Agradeço e encerro a audiência pública. Agradeço a presença de todos, mesmo sendo obrigatória.

No meio do povo, que está lá embaixo, além das gramíneas do palácio, alguns moradores da cidade tecem comentários.

José, o fabricante de ferraduras e selas para cavalos diz ao Terêncio, fabricante de velas e lamparinas:

_Quem será que se queixou dos secretários? Quem reclamou do governo? O governo muda, mas o rei é o mesmo.

Terêncio retrucou:

Eu é que não sou burro para reclamar do Sr. Jumento. O governo é que permite o comércio. Às vezes, até financia.

Os cavalos, as éguas, os jegues e as mulas, que estavam estacionados no pátio do palácio esperando os seus respectivos donos, ergueram uma das patas dianteiras, olharam bem para o conforto que a ferradura proporcionava ao casco e relincharam e zurraram, todos concordando com o José e o Terêncio, que se sentiram prestigiados. Cada animal valia um voto a mais para o dono.

Estavam lá a Ernestina, a fabricante de jóias na cidade e a dona Severa, proprietária da maior e melhor escola da região.

_ Severa, minha dileta amiga, eu jamais tive interesse em assuntos de política, mas se eu tivesse a oportunidade de trabalhar na Secretaria das Minas e Energia, eu faria todo o possível para baratear o custo do ouro.

_ Ernestina, querida amiga, eu aproveitarei o pronunciamento do senhor governador para incentivar debates e palestras na escola. Dos debates surgirão os novos líderes e, da minha escola sairão os futuros secretários, daqui a dez anos. Eu mantenho um relacionamento profícuo com a Secretaria de Educação e Cultura para aprimorar a escola nos moldes das necessidades governamentais. As mudanças nos currículos e grades de matérias a serem estudadas são feitas com a antecedência necessária para que eu mantenha a minha escola no melhor padrão na região. Penso em convidar o secretário para fazer uma palestra aos meus alunos e os mais capazes que a aproveitem para iniciar uma carreira.

Uma semana após as determinações de palestras e debates na escola, as professoras fizeram uma festa e inauguraram uma placa comemorativa com o nome da dona Severa na sala da direção.

Dessa maneira, de setor em setor, a ganância e os interesses pelo poder invadem Ourópolis. Os quadrúpedes fazem campanha junto aos donos das carruagens e das carroças; as professoras fazem campanha junto aos pais e familiares dos alunos.

Ernestina se casa com o Terêncio, o fabricante das lamparinas e oferece uma ajuda de custo para que ele se candidate a secretário de Minas e Energia na chapa do atual governador, o Sr. Honório Jumento.

_ O rei cuida da nobreza, da burguesia e dos súditos. Me diga um motivo para votarmos em outro candidato? Para nós não faz diferença, diz a esposa ao marido.

Terêncio concorda.

José se afasta de Terêncio. O candidato dele é outro. É o Gilson Rodas, fabricante das rodas para todos os tipos de caleças. Empreendedor, experiente e atual Secretário das Estradas e Rodagens do reino.

Dona Severa está em campanha para o Secretário de Educação e Cultura, Murilo Li Sobrinho.

As eleições “Aclamação Popular do Reino do Vale Verde” se dão da seguinte maneira: cada morador pendura uma faixa com o nome do governador e dos secretários escolhidos na porta da casa. Os fiscais do reino e dos candidatos passam nas casas e recolhem as faixas para a posterior contagem e verificação. Todos os cidadãos votam, mas o voto é aberto e todos sabem quem votou em quem.

Numa das vilas dos moradores súditos do reino moram João e Madalena. Eles possuem uma pequena empresa de bordados. Ele recebe os fregueses e a encomenda. Ela borda. Eles sabem das eleições e combinam uma resposta temporária, que é “Até lá decidiremos”. A porta da casa deles é aberta ao público o dia inteiro. Para eles, o freguês não tem partido político, tem é que pagar na hora que receber a encomenda.

O casal abriu a loja de comércio de bordados para preencher o vazio de uma casa sem crianças. Ela não conseguia engravidar e não havia crianças para adotar em Ourópolis. Eles formam um casal e isso tem que bastar para eles. As sugestões, propagandas e até práticas como ameaças de perder clientes alteravam a rotina de trabalho do casal naquela campanha para a “Aclamação Popular”.

Antes que o comércio falisse em virtude da campanha eleitoral, João decidiu falar com o seu jegue, seu fiel companheiro nas estradas do reino, numa das idas ao centro a fim de comprar os fios de bordado.

O jegue falou que conhecia um cavalo que trabalhava no palácio do governo. O cavalo Fogo nas Ventas era um cavalo para os exercícios matinais do governador Honório Jumento. João estava em situação tão constrangedora, que raciocinou: antes um jegue que me carregue que um cavalo que me derrube.

Na manhã seguinte, na hora da cavalgada matinal, Fogo nas Ventas, com muita cortesia, reverenciou o governador.

_É com muita honra que levo Vossa Excelência praticar exercícios.

_Você, cavalo, está feliz? Eu o sinto com o trotar pesado hoje. Parece um cavalo cansado.

O cavalo respondeu que estava triste porque alguns donos dos amigos cavalos estarem na antevéspera de falir.

_ Falir? Aqui em Ourópolis é o rei que decide quem faz o que e quem compra onde. Assim ninguém sequer entra em concordata.

O cavalo aproveitou a oportunidade para contar a situação do João e da Madalena.

_ Se votarem no senhor, os outros candidatos deixarão de mandar tecidos para bordar; se votarem no Rodas e o Rei souber, não bordam mais; se votarem no Sobrinho terão que estudar até não vencerem as encomendas e os estudos. Eles não pertencem a grupos sociais, eles atendem a toda a cidade e não são animais. Portanto, eles não podem ser vendidos para outros donos. Esse é um privilégio dos quadrúpedes.

O governador Honório Jumento disse que iria pleitear junto ao rei o direito de se abster de votar.

O rei não permitiu a abstenção. Todos os cidadãos devem votar para contribuir condignamente na cidade que habitam. O Rei Sombrinha, um conhecedor de Platão e da República, permitiu aos súditos manifestações diversas nas faixas de votação com uma condição: que não houvesse palavras injuriosas contra o Rei, o reino, poder instituído ou contra os governantes e que desestimulasse a vocação do cidadão para o voto, a escolha, o discernimento. O rei, que ninguém conhecia, que era proferido com letras maiúsculas, minúsculas e pelo apelido, era sábio e previa a república. Ele acreditava que uma vez concebida, a ideia cria a sua voz e segue até encontrar o homem que a transforme em ação.

Chega o dia da “Aclamação Popular do Reino do Vale Verde”. É procedido o recolhimento das faixas, a grande maioria delas com os nomes dos candidatos escolhidos, algumas com votos de louvor ao rei, pela permissão de manifestações diversas. Havia uma faixa enorme com uma carta ao rei. Essa faixa chamou a atenção dos conferentes de faixas.

“Perdoe-nos o Reino e Vossa Majestade. Não votamos com voto aberto. Os que assim o fazem pertencem a grupos que certamente não os deixarão em má situação após a apuração das faixas de votos. Outrossim, a nossa proteção é contarmos um com o outro durante os nossos dias e as nossas noites neste reino bem conduzido por um Rei justo. Contamos com eleições regulamentares com votos secretos para a próxima “Aclamação Popular”. Contamos com leis que não permitam aos derrotados saberem os votos dos seus parentes e amigos, vizinhos e empregados ou patrões.”

A faixa com a carta foi levada ao Palácio Real para análise. O Rei Sombrinha publicou em edital um agradecimento ao casal pela coragem do manifesto não ofensivo, mas contundente e persuasivo.

O casal sobreviveu à “Aclamação Popular do Reino do Vale Verde”.

Quem ganhou as eleições foi o Rodas. A população votou contra os dez anos a mais para um governante. Chegou ao fim a era Honório Jumento.

O Li Sobrinho se perdeu em conferências e obteve poucos votos, mas é encarregado das políticas culturais do Reino de Vale Verde e trabalha com Sombrinha, contavam as professoras.

Um político precisa ser ágil. Rodas, o governador eleito convida Ernestina para trabalhar como chefe de gabinete da Secretaria de Minas e Energia. As fogueiras chegaram ao fim para a alegria de todos os súditos do Reino de vale Verde. Junto à peste negra vem a renascença. A liberdade e a responsabilidade de mãos dadas.

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