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terça-feira, 17 de setembro de 2013

Negócios Bruxuleantes – Conto

Negócios Bruxuleantes

 

Amanda saiu da cidade por um período de tempo para cuidar do seu sítio, pois a cerca do galinheiro estava ruída, o pasto das ovelhas sem viço, o cavalo precisava de um domador e a vaca de ordenha.

Lidava na roça e tratava dos bichos de dia e lia à noite.

Terminado o trabalho no sítio, voltou à cidade, ciente que o sítio ficaria bem cuidado pelas pessoas que ela contratara.

Amanda nada soube da sua cidade enquanto esteve no sítio. Ao se aproximar da cidade, porém viu a névoa branca que a encobria e logo desconfiou que tivesse algo a ver com a Gisah, a bruxa da cidade.

Gisah tinha dito que iria parar o tempo na cidade.

Amanda recordava que o amigo Expedito dizia que ela era uma empresária perigosa. A bruxa fabricava e vendia tachos de cobre, mas os produtos eram tão bons que duravam muitos anos e o seu negócio ameaçava falir. Foi nesse tempo que ela começou a se interessar por feitiços e começou com as bruxarias que apavoravam os moradores da cidade.

Um dia, sem mais nem menos, disse aos moradores que iria parar o tempo da cidade até que os tachos ficassem inúteis e eles precisassem de novos tachos dentro de casa. Avisou que criaria a névoa para encobrir o lugar por tempo indeterminado, até quando ela pensasse e pudesse voltar a fabricar e vender os tachos em grandes quantidades.

Amanda entrou na cidade e foi à casa do Expedito. Ele ouviu bater à porta, mas não sabia quem era. Ela, igualmente, não o viu, mas sabia onde estava e disse quem era.

_Como vai você, Amanda? Quando é que você vai ao sítio para deixá-lo em ordem? Se o sítio depende de você, você tem que ir lá e deixar tudo certo. Anime-se e resolva o seu problema antes que ele não tenha solução.

A moça ficou surpresa e disse que acabara de regressar de lá e tudo estava no seu lugar e que tudo estava feito conforme pensou em fazer. Era difícil conversar naquela situação de desencontros temporais. Ela se despediu dele para ir à quitanda dizendo que voltariam a conversar noutro momento.

Na quitanda, fingiu não saber a data e perguntou a ele que dia era o dia de hoje. Ele respondeu que era o dia da bruxa fazer o feitiço para a cidade e que ele duvidava dos poderes dela.

Amanda, ao perceber que o feitiço fora feito e havia funcionado, decidiu voltar ao sítio para que o seu tempo não parasse também, mas, se houvesse alguma maneira de desfazer o feitiço, e o tempo voltasse a correr como as estações do ano mudam, ela voltaria para ali a fim de deixar o tempo do jeito que deveria ser.

Amanda saía da cidade, quando avistou um circo montando as suas instalações nos arredores do centro urbano. Preocupada com a possibilidade de haverem mais pessoas enfeitiçadas, foi até lá e avisou-os para não entrarem na cidade, dizendo que a mesma estava sob o domínio da bruxa.

Quem a recepcionou foi o palhaço, que ao ouvir a história dela, ficou sério e disse:

_Farei a bruxa rir a tal ponto que ela mesma desfará o feitiço.

Amanda disse ao palhaço que a situação não era para piadas e que ele tomasse o devido cuidado caso entrasse na cidade para conversar com a Gisah.

Ele pediu o endereço da Gisah e o obteve prontamente. Caso ele conseguisse desfazer a magia, Amanda pedia para que ele avisasse ao Expedito para ir buscá-la e, para tanto, deixou o endereço do moço com o palhaço.

Amanda seguiu rumo ao sítio enquanto o palhaço pedia à trupe que não adentrasse a cidade enquanto ele não desfizesse o feitiço. Ele sabia que um conselho, no circo, vale tanto quanto a ordem mais severa recebida de uma autoridade disciplinada; valia a vida.

O palhaço bate à porta da bruxa e ela o atende perguntando o que ele quer por aquelas bandas.

_Soube que aqui mora a mulher encantadora do tempo e quero convidá-la para encantar o tempo do circo, deixando a magia no ar e nos corações de todos aqueles que assistirem ao espetáculo.

A bruxa coçou a cabeça:

_Basta ao circo que se instale dentro da cidade. Para que sintam o efeito da magia serão necessários três dias consecutivos, pois ao quarto dia o feitiço estará completado.

O palhaço argumentou dizendo:

_Ocorre senhora encantada e encantadora, que eu não sou o dono do circo. Terei que ir até lá e demonstrar o efeito dessa neblina para que o proprietário acredite no que digo. Peço a gentileza de sua senhoria, senhora encantadora, que me ceda ao menos uma porção da sua neblina para que eu a leve até o circo e a teste.

Gisah disse que não adiantaria nenhuma névoa enfeitiçada a ele.

_Minha admirável senhora, quanto custa um tacho de neblina? Quem sabe eu até o compre.

Ela respondeu, diminuindo a zanga, que custava um rio a ferver e se evaporar, até subir as montanhas para se transformar em gelo, com mais uma noite para esperar, até que o dia o venha a derreter e criar a névoa.

_Este é um preço muito caro para um palhaço que vive de sorrisos e palhaçadas. Por acaso a senhora encantadora não conhece alguma neblina que caiba no bolso deste palhaço?

A bruxa esboçou um sorriso ao dizer a ele que poderia adquirir a máquina de fabricar gelo seco e deixá-lo ligado por setenta e duas horas seguidas em volta do circo.

O palhaço respondeu:

_Fico muito feliz em contar com o seu feitiço genérico, mas como saberei que ele está causando o efeito desejado?

Gisah contou que, sem poder enxergar algo pouco adiante de si mesmo, os integrantes da trupe se ocupariam daquilo que estivesse próximo a eles, das suas coisas e, enquanto isso o tempo passaria sem ser visto ou sentido.

_Minha gentil senhora encantadora, sabedor que sei agora de como o feitiço acontece, logo trarei o circo inteiro para dentro da cidade.

A bruxa desatou a rir, pois acabara de enganar o palhaço. Nenhuma máquina de gelo seco conseguiria o efeito desejado; seria necessário ferver o córrego que passava ao lado do lugar, isso caso o palhaço tivesse dito o lugar correto de onde o circo se instalara.

O palhaço voltou ao circo e pediu permissão para montar uma sorveteria junto ao circo, assim o circo se sustentaria nos dias de poucos frequentadores. Os trapezistas, os malabaristas e as domadoras gostaram da ideia e, o dono do circo, concordou com eles. Perguntaram de onde viria o gelo para manter os sorvetes na temperatura adequada ao consumo, não havia gelo no circo.

_Pegaremos o gelo da montanha! Toda a noite a montanha fica coberta de neve e iremos até lá apanhar o gelo.

O negócio foi feito e a madrugada era de gelo para a trupe, mas não havia sessões matutinas e eles poderiam dormir até mais tarde, porém antes dos ensaios para a sessão vespertina.

A cada dia o palhaço solicitava mais gelo, a cada dia ele ia com os amigos até a montanha para encherem os baldes. O gelo que sobrava, transformava-se em água e corria ao córrego em direção ao rio da cidade.

Gisah não conseguia vencer o rio cada dia mais líquido e a montanha a cada dia mais verde. A névoa se desfazia devagar e constante, fazendo com que a paisagem mudasse até o dia em que os habitantes conseguissem de novo ver as suas próprias casas, a sua vizinhança, as suas ruas e voltariam a viver como antes. O dia chegou e todos olharam os seus relógios, os calendários e perceberam todo o tempo que passou.

O palhaço foi ao encontro do Expedito e contou sobre a conversa que tivera com Amanda antes dela partir. O moço foi buscá-la, conforme a mensagem recebida. Embora o palhaço pudesse mentir, ele gostaria de rever Amanda e o endereço do sítio ele sabia e conferia com o fornecido pelo palhaço. Restou ao Expedito a esperança que o palhaço trouxe.

A fábrica de gelos ia de bem a melhor quando a montanha parou de produzir gelo.

O palhaço disse à trupe que resolveria a questão do gelo e bateu à porta de Gisah novamente. Desta vez ela estava muito mais zangada do que antes e, ao vê-lo, disse que iria pessoalmente até ao circo para enfeitiçar a todos.

_Caríssima senhora encantadora: parar com os feitiços pode se transformar na sua fortuna.

A bruxa recolheu-se e se arrumou. Ordenou ao palhaço que a levasse ao circo.

_Brava senhora encantadora, poderei levá-la assim que a senhora me ouvir, quem sabe, com carinho.

Gisah disse para que ele dissesse o que queria dizer, mas bem depressa antes que ela o transformasse em ingrediente de gelo.

_Vim até a sua casa para lhe oferecer a oportunidade de um grande negócio.

Ao ouvir a expressão grande negócio, ela se interessou.

_Precisamos comprar tachos para fabricar sorvete, precisamos de alguém para fornecer o gelo. Proponho que a senhora expanda os seus negócios e seja a fornecedora de tachos e gelos para a nossa sorveteria.

A bruxa quis saber o quanto ela levaria de lucro nessa proposta.

_A senhora será a nossa fornecedora e lucrará o preço de mil tachos por mês, mas será impedida de fazer magias e terá que voltar a ser humana. Fora desses mil tachos por mês estão descontados os valores necessários para a recuperação da cidade, que a senhora mesma deixou envolta em névoa. A pessoa indicada para a necessária atualização da cidade esteve fora dela nesse período, foi a única que viu o tempo passar com todas as suas transformações e, a senhora não negociará com ela. O circo dará as diretrizes, mas o seu lucro é garantido. Igualmente, a senhora terá que viajar conosco, ou seja, com a trupe, para onde o circo for. São negócios e viagens pagas pelo circo, vantajosos para a senhora.

Gisah coçou a cabeça mais uma vez. A proposta era tão interessante ao ponto de deixar a magia de bruxa para viver a magia do circo, eterna lembrança das famílias felizes.

A bruxa foi-se com o circo.

Viva o palhaço!

2 comentários:

Artes e escritas disse...

O meu blog foi invadido por propagandas não autorizadas e avisei ao Google. Peço desculpas aos leitores. Um abraço,Yayá.

Célia Rangel disse...

Yayá... você com seus contos transporta-me à minha infância divertida e muito cantada... Feitiços e bruxarias atormentavam-me... E, o circo, hipnotizava-me!
[ ] Célia.