Rio de Janeiro

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O blog da Nina, menina que lia quadrinhos.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Uvas Verdes

Uvas Verdes

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As uvas verdes na parreira

São tantas, doces, que as rosadas,

Até e talvez, a vida inteira,

As subestimem penduradas.

 

Todas as uvas são sombreiras

Das esperanças ancoradas

N’algum terreno de meleiras

Das muitas luzes cobiçadas.

 

Estão maduras e altaneiras,

E continuam esverdeadas;

E, sem nenhuma com ciumeira,

Todas no cesto vão irmanadas.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Caqui

Caqui

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Se o ganhei de ti,

Não o devolverei;

O bem fica aqui,

E o recordarei.

 

Gostar é de si;

Alegrias terei.

Ao obter um caqui,

Café que alcancei.

 

Assim, aqui e ali,

O pressuporei

No livro que li,

Rindo ao já-te-vi.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Parada da Degustação / Crônica de Supermercado

Parada da Degustação / Crônica de Supermercado

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Boa degustação: pão com creme de ricota e café.

Formou-se uma pequena fila em torno das moças.

Com as mãos ocupadas, deixamos as compras junto a nós, mas sem a segurarmos, ninguém consegue degustar e segurar as compras nas mãos ao mesmo tempo. Rimos.

Uma senhora disse para que não nos preocupássemos porque as compras ficariam exatamente ali, à nossa espera.

Eu disse a ela que ela estava certa, aquela pausa nos faria bem, além do bate-papo descontraído que nos fazia bem.

Ela me olhou nos olhos com o olhar emocionado e contou a sua história

_Eu fiquei viúva cedo. Eram três filhos para encaminhar. Tudo correu bem e eles fizeram as suas vidas, se casaram e me deram netos. Eu continuei a cuidar de tudo para eles. Eu me importei com o horário da escola de cada uma das crianças, ajudei na escolha da babá, fiquei com as crianças para que os casais saíssem para namorar, eu era tão atenciosa com todos e achava que era a minha obrigação de mãe, não me importando quando eles diziam que eu exagerava nos meus cuidados.

Os olhos dela estavam úmidos, mas ela se controlou e continuou contando.

_Um dia, sem mais nem menos, tive um treco. Os meus filhos me levaram ao hospital. Fiquei internada em observação. Como os exames deram bons, o médico diagnosticou estresse. Dali em diante foram dois anos para aprender a não fazer tudo por eles. Eu não podia controlar a vida deles como se eles ainda fossem crianças; aprendi a ser a avó dos meus netos quando eu estava querendo ser a mãe deles.

Ela olhou para o carrinho de compras e ele estava superlotado. Instintivamente, olhei para o carrinho de compras dela e, sorri.

Ela sorriu ainda emocionada.

_Está bem, o meu carrinho é para oito pessoas. Eu me desapeguei bastante, você não imagina como é que eu era antes. Todas as manhãs eu passava na casa dos três e perguntava em que eu poderia ajudar. Assim começava o meu dia e, como todos gostam de carinho de mãe, eu ajudava a todos, a nora e os genros incluídos nessa lista.

Eu perguntei:

_E agora, como é que é?

Ela me disse que agora ela se contentava em receber os netos e deixar que as famílias que os filhos criaram fossem do jeito que eles quisessem. No entanto, se ela visse que algo não iria dar certo, ela não hesitava em avisá-los.

_Eu me acostumei com esse novo estilo de vida, embora eu ainda sinta vontade de cuidar de todos. Eu tive que descobrir atividades para me distrair, não foi fácil. Foram dois anos de acompanhamento médico até que eu me libertasse dessa obrigação, que, afinal de contas, eu cumpri e faz tempo.

Lições de vida com creme de ricota, pão e café.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Improviso

Improviso

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Improviso futilidades,

Distrações dessa hora de agora,

Mas evito facilidades;

Compromissos estão de fora.

 

Experiências são essas verdades

Que permitem o fato, embora,

Não contar com essas vaidades

Seja o caso dessa vanglória.

 

Improvisos são atividades

Necessárias, a chuva e a flora,

São essas tantas atividades

Que o relógio deu agora a hora.

domingo, 3 de agosto de 2014

A Hora e a Vez da Psicóloga

A Hora e a Vez da Psicóloga

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Há muitos anos atrás, na porta de entrada de um cinema havia um cego que pedia esmolas para comprar ingressos para que ele assistisse a um filme, do qual todos falavam que era bom.

Naquela época o politicamente correto não existia e um gaiato disse ao cego:

_Para que você quer ingresso para entrar no cinema se você não pode assistir ao filme.

Ele respondeu:

_Eu preciso de dois ingressos: o meu e o do narrador do filme que é um amigo meu. Em dupla, eu assisto ao filme igual a vocês.

O gaiato que fez a pergunta, foi até a bilheteria do cinema, comprou os dois ingressos e disse para que o cego chamasse o amigo para entrarem no cinema.

O cego não teve dúvida e gritou olhando em direção aos carros:

_João: pare de se enrolar aí na sorveteria que eu consegui os ingressos.

O João atravessou a rua, deu o braço ao cego, segurou a bengala e entrou contente ao cinema com o amigo cego.

Passam-se anos e aparece uma jovem cega e pede para passear com as amigas.

_Vamos! Eu te ajudo com a bengala e o lanche.

A jovem responde:

_Não é o que eu quero. Eu quero que você me conte tudo o que você observar em cores e detalhes.

As amigas responderam que aí não seria um passeio, seria um atendimento. Elas não se divertiriam juntas, pois uma estaria a serviço da outra.

A jovem cega questionou por que motivo ela não poderia olhar a paisagem com os olhos das amigas.

_Nós podemos te contar o que vemos, mas não estaremos à sua disposição para o que nos emocionar; as lágrimas impedem a exatidão das descrições e passaremos uma falsa imagem do que observamos.

A jovem cega disse que imaginava a partir das descrições.

_Uma fotografia e um sofá são os lugares apropriados para as descrições. Os passeios são para troca de ideias, sorrisos, queixas e lanches. O comentário de toda a festa geralmente ocorre no dia seguinte. É uma tarefa quase impossível.

A jovem cega ficou ressentida.

Uma das amigas disse:

_Amiga, nós podemos fazer excursões sensoriais e juntas conversarmos sobre as emoções não visíveis, mas tocadas. O que você acha?

A jovem não aceitou.

A não aceitação da jovem era com relação à situação dela mesma. Era complicado para as amigas proporem diversões, quando o que ela realmente queria era jamais ter ficado cega.

Agora, outra situação:

Um homem aposentado teve uma doença que o deixou cego. Dinâmico, tudo que ele pedia aos conhecidos era a carona até o centro de ensino aos cegos.

Ele aprendeu a ler em Braille, a manufaturar cestas de vime trançadas à mão, feitas em cima da mesa.

Era um homem resoluto e, perguntado por que se levantava cedo nas manhãs frias e se dirigia às aprendizagens, ele respondeu:

_Naquele lugar eu esqueço que sou cego. Eu leio, escrevo troco emails, bato papo no Messenger, trabalho e doo toda a produção das cestas de vime em prol da instituição porque não preciso de dinheiro e nem de emprego e fiz uma boa amizade com uma cega que também frequenta o lugar para me ver. Estou com alguma idade e, antes que os meus filhos e as minhas noras pensem em me colocar numa casa de repouso, eu mesmo a arranjei. Entro junto com a zeladora às sete da manhã e saio quando encerra o horário de funcionamento, às sete horas da noite. Como tudo o que peço é a carona e dentro do horário deles, eles me levam e trabalham sem preocupações comigo.

Esse também era um homem bom de papo, sentava-se quando chegavam visitas para os filhos e lanchava com todos.

Ainda brincava, dizendo a todos:

_Sou cego, mas não estou morto.

A complexidade da personalidade dessas pessoas chama a atenção, é caso para psicólogos. A pobreza do primeiro cego e a riqueza do segundo não foram fatores determinantes no comportamento deles. A jovem que queria as descrições precisava de ajuda, mas como ajudá-la?

Dessa vez fiz um texto dirigido a eles e elas, contando com a ajuda dos psicólogos.

sábado, 2 de agosto de 2014

Conveniência

Conveniência

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Malemolência que não é minha;

Mesmo não sendo espelho, admiro.

A conveniência não é sozinha,

Acompanhada está d’um giro.

 

A simpatia parecia vinha

De uvas maduras d’um retiro

Ensimesmado, que retinha,

Todo um valor que então respiro.

 

E, desconfiada, o que convinha,

Não dispensei um doce suspiro,

Nessa bondade, que é vizinha,

A me dizer que assim me viro.

 

Se não fala a letra que é minha,

Também não diz nenhum vampiro;

Se não me espelha, não amesquinha,

Bonito é o espelho que não adquiro.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Descanso

Descanso

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Por que tanto querer,

Se nada explica o mar

Nesse seu contemplar

Navios ao entardecer.

 

Observar é se ver,

Distante, se espelhar,

Nas águas a passar

Em vagas, não sofrer.

 

À música, o render,

Louvores ao ondular;

À areia nos pés, passear,

Descansar, se entreter...