Rio de Janeiro

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O blog da Nina, menina que lia quadrinhos.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Comprei Óculos

Comprei Óculos

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Eu vejo o mundo torto de fato, foi o médico que disse. Estou com receio que as histórias se tornem sem graça com esses óculos que corrigem a distorção para perto.

Mas, vejam este caso, ou pior, casamento.

Estava eu entre amigos quando chegou o casal. Eu também era jovem.

O Robson apresentou a namorada:

_Oi gente. Essa é a Valesca.

O pessoal elogiou a moça dizendo que ela era bonita.

Ele concordou, mas foi logo dizendo:

_Antes que vocês queiram saber mais a respeito dela, eu mesmo conto. Ela teve um caso. Morou com alguém antes de mim.

Sinceramente? Senti vontade de perguntar o que é que a gente tinha a ver com isso.

Entreolhamos-nos sem saber o que dizer.

A moça disse que o relacionamento deles era prá valer e que gostava da franqueza como dispensa de comentários futuros.

Nessa frase, com todo o respeito, ela chamou-nos de fofoqueiros. A gente não a conhecia! Como é que a gente iria falar dela?

O Robson continuou:

_Queremos que vocês saibam que nos escolhemos porque somos bonitos, frequentamos os mesmos lugares e estamos em idade de casar.

_Ué? Tem idade?

O moço respondeu:

_Tem idade sim. Queremos ter filhos antes dos trinta anos, na data prevista com cesariana para o parto.

Depois dessa, resmungou-se: _Puxa!

O resumo da festa foi que a mesma passou-se em torno deles. Cada resposta parecia agredir a qualquer ilusão romântica que tivéssemos.

Intervalo da autora:

“Aquele enfeite de bolo com o casal de costas um para o outro, dançando flamenco, era esquisito. O noivo do enfeite do bolo de costas para a noiva, com os pés voltados para as pernas dela, a noiva, eu não gostei. Parecia que o noivo estava prestes a... melhor não dizer. Ninguém gostou.”

Voltemos à história:

O tempo passou. Casaram-se. Dividem as despesas, a cada um o gasto do seu bolso, nem um centavo do outro. Cama de casal, refeição separada. Filhos na data prevista conforme planejaram. Levam uma vida matemática.

Outro dia um amigo comum perguntou se eles eram felizes nessa conta.

O Robson disse:

_Somos. A vida é dura e nós sabíamos disso quando nos encontramos. A Valesca tinha levado o fora do amante, por conseguinte não se envolveria com outro homem. Casou comigo! Mulher adorável que nunca precisou de um centavo meu.

A Valesca disse:

_Lógico. O Robson queria uma mulher que fosse dele, mas sem compromissos financeiros, sem despesas. Ele era o que eu procurava depois da bobagem que eu fiz. Cumpro o meu contrato com exatidão. O que ele poderia querer a mais que isso! Amo muito ele pela compreensão que teve para comigo. Vivemos muito bem.

Para eles valeu, mas para quem viu, não valeu não.

Dispenso dizer o que eu acho. Fica subentendido.

Será que os meus novos óculos farão com que eu mude de opinião? Acho que não.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Transparência Auditiva nos Negócios / Crônica de Supermercado

Transparência Auditiva nos Negócios / Crônica de Supermercado

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Eu chegava ao supermercado quando saiu o homem de paletó, colete e gravata e calça impecável compondo o seu visual. O colete num dia agradável, como o de hoje, me chamou a atenção. Provavelmente é um executivo, pensei.

Dei mais alguns passos quando ouvi a conversa, parecia que havia um alto-falante dentro do veículo. O executivo se preparava para manobrar e sair da vaga do estacionamento e falava alto:

_Podem começar que eu estou ligado.

Disfarçadamente diminui o passo depois do grito do homem de dentro do carro dele.

O som do rádio ligado ao celular era inconfundível:

_Podemos começar a reunião? Todos estão presentes ou ouvindo?

O cidadão que, a partir de agora, chamarei de executivo, gritou que sim.

_ Para construirmos, precisaremos de “X” sacos de areia, “X” sacos de cimento, “X” de concreto, “X” milheiros de tijolos. A obra será feita em três etapas; a primeira etapa ficará com o Fulano, a segunda com o Sicrano e a terceira com o Ariovaldo. Ouviu Ariovaldo?

O executivo gritou que sim.

O homem do outro lado do alto-falante continuou a reunião:

_Os custos serão de trezentos e cinquenta mil com vencimento em julho e o nosso metro quadrado será o mais barato da construção. Ariovaldo, você pode conferir os valores e as tomadas de preço hoje à noite?

O executivo gritou que sim, disse também que não iria falar muito porque tinha que sair do supermercado.

De dentro do carro se ouvia o coordenador da construção:

_Ariovaldo, aguarde um momento.

O executivo alongou o tempo para romper o carro e gritou:

_Pode dizer que eu aguardo na linha.

Do carro falante, se ouviu:

_Ariovaldo, siga pelo trajeto combinado e passe em frente aos nossos concorrentes. Eu continuarei a dizer os valores da obra com o material e a mão de obra. O nosso grupo é honesto. Não praticamos superfaturamento. O público pode confiar em nossa empresa, a Holding S.A. Precisamos que os nossos concorrentes e os patrocinadores dessa concorrência saibam dos nossos méritos como construtores.

O executivo gritou que a ideia de ser transparente nos negócios era excelente e que iria prosseguir o seu caminho com a reunião aberta ao público-povo.

_Passarei nos bairros nobres para mostrar que alguns empresários são os melhores. Esse é o nosso caso. Pode prosseguir a reunião que não mais conversarei, estou dirigindo e não infrinjo as leis de trânsito.

A essa altura, eu me segurava para não rir. Entrei no supermercado e fui pegar o pão. Apenas observo que o executivo Ariovaldo corre o risco de conseguir problemas auditivos; logo ele que coloca os ouvidos a serviço dos empreendedores mais transparentes que eu já vi. Ou, melhor, ouvi.

terça-feira, 9 de abril de 2013

O Grito de Horror

O Grito de Horror

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Era uma viagem longa. São mais de quatrocentos quilômetros entre Curitiba e São Paulo. Ônibus que pega a passageira na cidade de Registro, antes de chegar à capital paulista.

Na cidade de Registro entra uma jovem senhora, que, ao verificar o local do seu assento, grita histericamente. Ao lado dela está sentada a tia.

A jovem cumprimenta a tia, surpresa. A tia responde e começa o estranho diálogo:

_Pensei que o seu marido tivesse com amante. Não sabia que você tinha voltado a pintar os cabelos de castanho. Eu o vi enquanto ele te beijava te desejando boa viagem.

A moça tentou mudar de assunto, mas a senhora disse:

_Estou pronta para uma fofoca. O seu marido não tem amante ainda, mas agora que você mudou a cor dos seus cabelos, não demora muito.

A moça ligou para o marido. Ele disse para ela ligar para a sua irmã ou a sua mãe.

Do outro lado da linha as recomendações da mãe e da irmã.

A jovem não dirigiu mais a palavra à tia. O marido, a mãe e a irmã, aguardavam ansiosos que ela chegasse a São Paulo. A irmã dela a esperaria na rodoviária.

Fosse lá como fosse ninguém acreditou na coincidência. Era uma situação constrangedora para toda a família. Ninguém sabia dessa viagem da tia entre os parentes dela.

_Cuidado! Essa atitude não é costume nosso.

A viagem prosseguiu com tia e sobrinha, lado a lado, sem trocar olhares, com alguns telefonemas da família à jovem, apoiando-a.

Prova de que nem sempre os mais velhos estão certos.

domingo, 7 de abril de 2013

Poema Sonoro

Poema Sonoro

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Repetir a música,

Corrigir a frase,

Transformá-la em única,

Acentuar com classe.

 

Arrumar à súbita

Ao trocar a chave,

De tal forma nua

Do agudo ao grave.

 

Assim faz-se a lua;

Se crescer é fase,

De manhã traz sua

Voz ao canto suave.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Selo dos 700 Seguidores

Desenho feito em casa:Selo dos 700 Seguidores

Poema dos Setecentos

Como doce experimentado

D’um sabor afável, gracioso,

Pitoresco e assim desejado,

Setecentos é primoroso.

 

São vocês nesse povoado,

Nesse blogue despretensioso;

Um por um é meu convidado

A essa festa de dia chuvoso.

 

Grata sou nesse meu recado,

Terno abraço bem carinhoso

Dou-lhes já. Sinta-se abraçado;

Fã que sou desse meio virtuoso.

 

Ofereço o selo dos setecentos seguidores aos amigos blogueiros,Yayá

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Leitor

Leitor

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Não tem

Ninguém

Que saiba

Da dor

 

Que vem,

Vintém

Que caia

De amor;

 

E sem

E nem,

Que valha

O suor.

 

Porém,

Um bem

Que caiba

Ao humor

 

Vem sem,

Cai bem,

De graça;

Senhor.

 

Meu bem

Não tem;

Abraça,

Lê a dor.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Sentando Praça

Sentando Praça

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Dia corrido. Compro o sorvete, sento no banco da praça e o tomo para refrescar a blusa de lã desavisada.

Ao meu lado sentam-se mãe e filho, o garoto aparenta a adolescência.

A conversa começa:

_Filho, agora somos cidadãos do primeiro mundo, termino de pagar o tal do notebook no mês que vem. Estou tão feliz por você ter me adicionado na relação dos seus amigos. Você está feliz por eu ser sua amiga nessas coisas chamadas com nomes esquisitos como Orkut?

O filho responde que sim.

_Filho, podemos conversar pessoalmente como se fosse ao notebook?

O filho responde que sim e a aconselha:

_Mãe, eu sei que você não sabe como se escreve banana em inglês, mas não faça pergunta séria pelo computador. Olha lá o que você quer perguntar, me deu até medo de ouvir.

A mãe, serena, continua sem dar atenção ao garoto:

_Vamos aproveitar esses momentos meu filho. Logo você cresce e, se Deus quiser, não precisará servir.

O garoto reage como se tivesse falando com uma extraterrestre:

_O que é isso, mãe? E se eu quiser servir?

A mãe responde que se ele quiser servir, que sirva o serviço obrigatório dos dezoito anos, mas diz a sua preferência:

_Meu filho, se for servir, sirva na Marinha. Passeio de barco, natação, atitudes saudáveis que te deixarão forte e bonito.

O filho olha para frente, para o nada que faz com que não tenha que olhar olhos nos olhos para a sua mãe:

_Será que eu sou filho de alguém cuja inteligência é falha? Que situação difícil essa conversa. Mãe, eu quero voar, acho que vou para a Aeronáutica.

A mãe diz que ver o filho no ar não está nos seus planos, mas os moços que voam também são fortes e têm saúde. Será um sacrifício em prol do filho feliz. Pelo menos não terá que engomaras roupas de treinamento em terra.

Foi nessa hora que o garoto exclamou:

_MÃE! Não me envergonhe. Eu vou para onde tiver vaga. Saiba que eu gosto muito de estratégias em terra também.

A mãe diz que ele ainda é jovem e pergunta se ele quer que ela providencie uma escola preparatória.

_Mãe, por favor, NÃO! Deixe que eu escolha as minhas armas.

A mãe desconversa e volta a falar em notebook.

_Mãe, em vez de falar sobre quando eu crescer, vamos conversar sobre o computador. Você não pode me fazer essas perguntas pelo Orkut. Eu preciso te explicar certas coisas que você não sabe. Como é difícil explicar essas coisas para você, mas com toda a calma a gente chega lá.

A mãe pede para que ele explique as regras do Orkut à noite, antes de ir se deitar.

O garoto entra em desespero:

_Mãe, eu não posso esperar até a noite. Você envia mensagens à tardinha. Tem que ser na hora do almoço.

A mãe responde:

_Você quer que eu aprenda enquanto eu frito o bife? Depois reclama que eu não entendo.

Agora o garoto começa a suar.

_Mãe, escreva o que você cozinha para mim e pergunte o quanto eu gosto da sua comida. Está bem assim?

A mãe sorri:

_Está bem meu filho. Entendi: no Orkut a gente não conversa, a gente se elogia.

O filho diz que pretende elogiar a mãe todos os dias, pede a ela que diga da alegria que é cozinhar para a família.

A mãe diz que não é tanta alegria assim, porque ela interrompe a costura que é do que ela sustenta a casa depois que se separou do marido, mas faz o acordo com o filho.

Ambos se levantam e saem conversando. O meu sorvete tinha acabado e também saí.