Comprei Óculos
Eu vejo o mundo torto de fato, foi o médico que disse. Estou com receio que as histórias se tornem sem graça com esses óculos que corrigem a distorção para perto.
Mas, vejam este caso, ou pior, casamento.
Estava eu entre amigos quando chegou o casal. Eu também era jovem.
O Robson apresentou a namorada:
_Oi gente. Essa é a Valesca.
O pessoal elogiou a moça dizendo que ela era bonita.
Ele concordou, mas foi logo dizendo:
_Antes que vocês queiram saber mais a respeito dela, eu mesmo conto. Ela teve um caso. Morou com alguém antes de mim.
Sinceramente? Senti vontade de perguntar o que é que a gente tinha a ver com isso.
Entreolhamos-nos sem saber o que dizer.
A moça disse que o relacionamento deles era prá valer e que gostava da franqueza como dispensa de comentários futuros.
Nessa frase, com todo o respeito, ela chamou-nos de fofoqueiros. A gente não a conhecia! Como é que a gente iria falar dela?
O Robson continuou:
_Queremos que vocês saibam que nos escolhemos porque somos bonitos, frequentamos os mesmos lugares e estamos em idade de casar.
_Ué? Tem idade?
O moço respondeu:
_Tem idade sim. Queremos ter filhos antes dos trinta anos, na data prevista com cesariana para o parto.
Depois dessa, resmungou-se: _Puxa!
O resumo da festa foi que a mesma passou-se em torno deles. Cada resposta parecia agredir a qualquer ilusão romântica que tivéssemos.
Intervalo da autora:
“Aquele enfeite de bolo com o casal de costas um para o outro, dançando flamenco, era esquisito. O noivo do enfeite do bolo de costas para a noiva, com os pés voltados para as pernas dela, a noiva, eu não gostei. Parecia que o noivo estava prestes a... melhor não dizer. Ninguém gostou.”
Voltemos à história:
O tempo passou. Casaram-se. Dividem as despesas, a cada um o gasto do seu bolso, nem um centavo do outro. Cama de casal, refeição separada. Filhos na data prevista conforme planejaram. Levam uma vida matemática.
Outro dia um amigo comum perguntou se eles eram felizes nessa conta.
O Robson disse:
_Somos. A vida é dura e nós sabíamos disso quando nos encontramos. A Valesca tinha levado o fora do amante, por conseguinte não se envolveria com outro homem. Casou comigo! Mulher adorável que nunca precisou de um centavo meu.
A Valesca disse:
_Lógico. O Robson queria uma mulher que fosse dele, mas sem compromissos financeiros, sem despesas. Ele era o que eu procurava depois da bobagem que eu fiz. Cumpro o meu contrato com exatidão. O que ele poderia querer a mais que isso! Amo muito ele pela compreensão que teve para comigo. Vivemos muito bem.
Para eles valeu, mas para quem viu, não valeu não.
Dispenso dizer o que eu acho. Fica subentendido.
Será que os meus novos óculos farão com que eu mude de opinião? Acho que não.

