Não É Propaganda, mas... / Crônica de Supermercado

Domingo chuvoso, daquela chuva miúda com um vento que incomoda. Fui pegar o pão em outro horário, à noite quero passar roupas.
No estacionamento, os garotos que recolhem os carrinhos e os colocam no lugar certo para que os fregueses os peguem para as compras.
Certo silêncio me permite ouvir a conversa deles:
_As garotas compram muito chocolate, depois se queixam que ficam gordas.
_Deixe que comprem. As gordinhas são as minhas favoritas, escolho entre elas a mais jeitosa e saio com ela.
O outro disse que ele estava brincando.
_Eu não estou brincando, você é que não imagina o quanto é bom namorar uma gordinha.
O outro pediu para que ele continuasse contando a história.
_Quando eu era guri eu tive como ídolo o Renato Aragão, do programa televisivo Os Trapalhões, no papel de “Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgino Mufunbba”. Agora não, porque sou homem, tenho dezoito anos e trabalho aqui no supermercado.
O outro perguntou e daí?
_Ocorre que o Didi sempre elogiou as mulheres carnudas, digamos assim. Ele dizia que “tinha onde pegar” e que tinha “refeição boa” porque elas, as gordinhas, eram boas em forno e fogão.
O outro resmungou: Hum, hum.
_Eu completei dezesseis anos e me pus a namorar. Namorei uma magrinha e tudo não passou de ilusão, osso, osso e mais osso. Ela sentava no meu colo e eu ficava com as marcas do ilíaco dela nas minhas pernas. Não gostei. Terminei o namoro com ela.
O outro, desconfiado, pediu ao conversador que prosseguisse.
_Estava desiludido com as garotas quando conheci a gordinha. Rapaz, que mulherão! O bom é que ela gostava de lanchonetes e os meus dias ficaram mais apetitosos. Agora que é só trabalho, dou valor a ela. Pensando bem vou voltar a namorar ela.
O outro disse que era lorota dele, que ele queria se mostrar.
_Não é não. Talvez esta conversa seja a melhor maneira que eu encontrei de apresentar a minha namorada a vocês. Depois do horário do mercado. Estou feliz e não quero que ninguém diga a ela para emagrecer. Grande Didi que salva a minha mocidade com as melhores garotas que existem.
O outro o depreciou, dizendo que para quem gosta do amarelo não há argumentos, gosto não se discute.
_Olha o respeito, cuidado com o que diz da minha garota.
A essa altura as filas com os carrinhos de compras estavam formadas e eles se foram para dentro do supermercado. O outro desconfiado; o conversador, feliz.
Que domingo gostoso!