Rio de Janeiro

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O blog da Nina, menina que lia quadrinhos.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Deus que o Valha!

Deus que o Valha!

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Deolinda era a moça solteira da família, as irmãs se casaram e ela? Nada, em namorado tinha. Aos trinta e dois anos, na cidade do interior começava a ser chamada de tia. Era moça rica, estudada e inteligente.

Pensou consigo mesma que sem marido não ficaria. Procurava um moço com as seguintes qualidades: interesseiro, solteiro e estudado.

Pesquisa dali e pesquisa daqui e achou o marido.

Casada, teve filhos. O marido, para conseguir casar com ela teve que aceitar o emprego na firma dela. Ela o empregou e ele gostou do emprego, da família e do jeito simplista de pensar da moça. Sabia que ela queria marido.

Dinheiro, dinheiro e mais dinheiro conseguiam.

Conhece um blogueiro, amigo do marido. Não acredita no que vê.

Em conversa íntima com o marido à noite, pergunta:

_Quanto é que ele ganha com esse blogue?

O marido responde que absolutamente nada.

Ela pensa e pergunta:

_Escuta bem, se blogue não é para ganhar dinheiro, para que serve?

Ele responde que serve de lazer, contato social e novos conhecimentos.

_Amor, tem escola para que as pessoas adquiram conhecimentos. Qual é a vantagem de ficar contando história?

O marido explicou que ninguém conta história em blogue para levar vantagem. Explicou que existiam blogues culturais e blogues de vendas. Eram situações diferentes.

_Eu sei que se pode colocar propaganda em blogue. Por que ele não coloca propaganda em blogue?

O marido disse que era para que as pessoas não saíssem do blogue para fazer compras.

_Amada, os publicitários convencem ao mostrarem os seus produtos. Quem quer se distrair, se distrai. Quem quer comprar que se dirija ao site de vendas. Ele pensa assim.

A mulher não se conforma:

_Assim ele não ficará rico como a gente.

O marido conta que nem todo mundo quer ficar rico nessa vida. Alguns querem a vida sossegada, tendo que cuide dos negócios para ele:

_Tem gente que consegue se divertir sem pensar em dinheiro.

Se não fosse o dinheiro, eu não teria te conhecido.

_Exatamente. Eu não quero ter amigos tão bons quanto eu nesse negócio de dinheiro. O mercado é competitivo. Gosto dele do jeito que ele é.

A mulher disse que ele gostava do amigo porque era ciumento dela.

_Outra igual a você eu não arranjo, isso é certo.

A mulher com o olhar distante e sorridente completou:

_Como é que pode ter gente assim, gente que não enxerga um palmo adiante do nariz. Escritor a gente compra, livro a gente compra, que perda de tempo.

O marido, incomodado, pediu para mudarem de assunto. Eles eram casados e tinham obrigações a cumprir.

Ela sorriu feliz, muito feliz.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Viagem Entre Amigas

Viagem Entre Amigas

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Sílvia reúne as quatro amigas para um final de semana em Paquetá. Aluga um quarto com cinco camas para que elas possam conversar à noite. Sonhava em apresentar umas às outras.

Pensava nas qualidades de cada uma delas: a segurança, a teóloga, a médica e a camareira.

A chegada, sexta-feira, foi ótima. Todas saudosas dela, curiosas em conhecerem as outras amigas, desejando a amizade futura nesse convite.

A camareira providenciou mais bebidas para o frigobar e disse às outras:

_Gostaria de me hospedar num hotel 5 estrelas, mas deixarei o frigobar igual ao do hotel onde trabalho.

A segurança advertiu:

_ Não quero bebidas aqui no quarto!

A camareira respondeu:

_Você não precisa tomar da água mineral francesa que eu trouxe para o final de semana para presenteá-las. Deixarei as águas minerais da região para você.

A teóloga disse que a água era uma dádiva e tomaria aquela que bastasse à sua sede. Agradeceu à camareira o presente.

A médica completou que o importante seria tomarem oito copos de água por dia para que se mantivessem saudáveis.

Todas silenciaram e dormiram. Às quatro da manhã acorda a médica que tomava remédios para a tireoide em jejum. Vê a segurança segurando a sua bolsa aberta e revistando os seus pertences e diz:

_O que é isso? Você está mexendo nos meus pertences?

A segurança disse que era rotina e, que embora fosse amiga da Sílvia, gostaria de saber mais sobre as outras antes de se entrosar com elas.

A camareira apoiou a segurança:

_No hotel onde trabalho, o gerente pede para avisarmos se virmos algo muito diferente sobre as camas do hotel. Esse é o risco de se trabalhar em hotel, não sabemos com quem lidamos.

A teóloga abre a janela e diz que o dia clareia as ideias. Pede às outras que se acalmem.

Às seis da manhã, todas acordadas para a oração em conjunto. Depois da oração a médica surpreende com testes de colesterol, triglicerídeos e glicemia:

_O meu presente a essa reunião são exames de saúde. Além de ser a minha profissão é a minha maneira de conhecer melhor as pessoas.

A segurança, depois da noite que proporcionou às amigas disse que o presente dela seria manter todas elas em segurança.

A teóloga disse que o Senhor estava cuidando dela, a segurança, também.

Devagar, Sílvia se arrepende de tê-las convidado para o final de semana por conta dela.

No parque de diversões a segurança testa e verifica os brinquedos antes das outras participarem.

Durante o almoço a médica diz à teóloga que cinco camarões equivalem ao filé de picanha.

Chegando para o descanso do almoço a camareira organiza o quarto como se ela estivesse no ofício do hotel cinco estrelas.

À noite de sábado Sílvia chega à conclusão que ela deve ser exigente demais consigo mesma ao escolher as amizades, a experiência de reunir as amigas está péssima.

Domingo pela manhã, elas se arrumam para almoçar para depois deixarem o hotel.

Durante o almoço Sílvia agradece às amigas:

_Eu tenho mais autocrítica do que vocês e, agora estou certa disso. Eu me contive e não interferi nos diálogos presenciados. Agradeço a todas vocês, não pelas conversas, mas por tudo que deduzi a meu respeito. Espero que vocês tenham adquirido algum conhecimento durante este tempo e com todo o amor que tenho por vocês, como amigas, peço-vos que aprendam que os caminhos são desiguais. Peço à minha amiga da segurança que acredite mais nas suas amigas, peço à minha amiga médica que separe a medicina da vida social, peço à minha amiga camareira que deixe a perfeição de lado e aproveite a convivência descontraída, peço á minha amiga teóloga que compreenda as nossas imperfeições e, finalmente, peço a mim mesma que tenha mais ideias brilhantes como essa para saber como eu sou e com quem convivo.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Eu gostaria de entender…

Eu Gostaria de Entender...
Por que os erros se repetem. Hoje não posso fazer crônica que não seja sobre o incêndio da boate Kiss na cidade de Santa Maria no Rio Grande do Sul.
Incêndios em boates como os que aconteceram em diversas partes do mundo, onde a tragédia se repete chega a ser inaceitável sob o ponto de vista de quem foi jovem e viu o fechamento de boates para jovens pelo risco de incêndio e sem portas para as saídas que dessem vazão ao público presente sem o pisoteamento de pessoas.
Saí, fui ao supermercado e vi na televisão o desespero das pessoas.
Perguntei o que havia acontecido.
_O que? Aqui no Brasil? De novo? Mas esses espetáculos haviam sido proibidos pela falta de segurança!
Escrevo quase que indignada pela recorrência dos fatos. Parecem umas histórias ruins repetidas inúmeras vezes. Li sobre a Boate Station em Rhode Island, que se transformou no livro Killer Show John Barylick (agência Reuters).
No entanto a repercussão é mundial, parece sensacionalismo, mas é a necessidade de avivar a experiência terrível para tentar se evitar mais repetições desse fato trágico.
Hoje não poderia ficar sem comentar este assunto.
A homenagem do blog fica por conta de Ravel.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

O Catador de Latas

O Catador de Latas

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Saiu para se divertir, o trabalho martelando na cabeça. Tinha muitas tarefas a cumprir, mudariam a gerência no mês seguinte. O ambiente estava tenso nos últimos tempos. Os colegas se acusavam mutuamente pelo atraso na entrega da correspondência de cobrança. Não faltavam reclamações de cobranças duplas no balcão da loja.

_Eu paguei o carnê, como é que vocês colocaram o meu nome no SEPROC!

Horácio se distraiu, mas a segunda-feira tinha jeito de ressaca, mesmo sem beber.

A chefia mudou a gerência, o atraso terminou, mas os colegas cobravam uns aos outros o dia inteiro. Era como se fosse obrigação deles a responsabilidade de organizar a loja.

Horácio continuava a sair para não apoquentar o juízo.

Aquilo não era se livrar dos problemas do emprego. Se ele não suportava aquele emprego, tinha que procurar outro. Decisão difícil a ser tomada. Sair de vez, não dava. Tinha mulher e filhos, tinha as prestações da casa para pagar. Tinha que ir ao médico, a sua pressão subia e o médico dizia que era emocional. Ele sabia que era emocional, mas o médico dizia para ele aprender a lidar com as pressões do emprego.

Para se acalmar, lembrou-se da sua habilidade em transformar latas de leite em pó vazias em objetos decorativos. Vaso de varanda pintado à mão, que, aos poucos foi se transformando em outros objetos: portas-treco para quartos de mulher, porta objetos para escritórios.

Ao entregar as latas redecoradas, fazia contatos com outras pessoas, obtinha a vastidão de opções com as quais sonhara em encontrar, mas não sabia como o fazer.

De contato em contato firmou o pensamento no novo emprego. Outra loja o convidou para fazer parte da equipe de escritório. Ele se interessou, mas não sem conhecer o ambiente: trocar elas por elas não o interessava.

Durante as férias aproveitou o emprego temporário útil para o lojista e para ele.

Mudou de emprego e continuou com as latas das oportunidades não vistas.

Agora sim, pode sair para se divertir. Menos latas resolveram a questão, parar com as latas seria impossível depois da recompensa.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Doce Educativo / Crônica de supermercado

Doce Educativo / Crônica de supermercado

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Comprei um bolinho industrializado para matar a fome da gula. Abri e tinha um passatempo dentro que consistia em procurar cinco favas de mel para o personagem.

Não procurei os cinco favos de mel e pensei na possibilidade de encontrar cinco colmeias de abelhas. Saberia eu lidar com cinco colmeias?

Comi o mini bolo delicioso que satisfez a minha gula antes do sono vir.

Vieram-me tantas reflexões a meu respeito, posso dizer que me conheci melhor.

Hoje posso garantir que para cada favo de mel existe uma colmeia. Existem abelhas sem ferrão, existem abelhas agressivas, existem abelhas rainhas.

Abelhuda fui eu ao comprar o bolinho, abelhas somos nós, mulheres, que amamos a quem nos rodeia. Será que o mel compensa o ferrão? Não acredito.

Na fila do pão tinha um senhor que escolheu alguns pães em meio às dezenas da cesta do mercado.

Engraçado como os gostos diferem de pessoa para pessoa. Atrás de mim a senhora escolheu alguns pães igualmente; eu apenas os comprei sem escolher; preferi a conversa que alimenta o meu espírito. Ou, melhor, pedi à moça que escolhesse aqueles que pareciam ao ponto: crocante por fora e macios por dentro. Pensei em trocar o bolinho industrializado pelo da padaria, mas preguiçosamente deixei o bolinho na minha cesta de compras. Outro dia eu compro o bolo deles, cortados em pedaços e fatias.

Rimos todos aos pães e bolos ofertados. Delícias do cotidiano.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Amargo Anoitecer

Amargo Anoitecer

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A mulher era bonita, casada com sonhador, da vida queria flores, nada mais.

São Paulo e flores, um absurdo para Fabíola. Mas tinha se casado com ele, que fossem flores caras, arranjos sofisticados. Ela não queria subir na vida, queria lugares famosos e sofisticados. Ele cedeu, todas as flores tinham valores muito além do preço, valores de emoção nas cores, nos arranjos e seus significados espirituais.

Fabíola entregou as flores e conheceu lugares incríveis. Com ambição chegou aonde queria, no seu lugar sofisticado.

Ele continuava sonhando, ela também. Ele com flores, ela com amores.

Houve a separação. Ambos ficaram bem de vida.

Fabíola arrumou um amante, ele construiu outra chácara florida.

O amante era submisso, não tinha vontades; era do tipo de obedecer às ordens da mulher endinheirada. Ela percebeu. Sorveram todas as gotas do orvalho que deixavam as flores bonitas, ela mandava. Amor faltava naquela submissão.

Foi aos sessenta e cinco que começou a se distrair com bebidas enquanto mandava no marido, que, no entanto lhe era fiel. Ele gostava dela como se mãe dele fosse embora não fosse mais novo que ela.

Dos primeiros goles ao vício e à tristeza da ressaca pouco tempo se passou.

Ele cuida dela, ela aceita. Ele a defende como se fosse o seu bicho de estimação adorado na dependência da aceitação dele naquela casa.

Ela bebe, ele aprova a embriaguês embora a proíba de beber na sua frente, talvez como o homem que nunca chegou a ser dentro daquela casa.

Ela se trata periodicamente dos males da bebida, ele cuida dos remédios; o amante enfermeiro nesse querer esquisito. Às vezes pensa nela com o primeiro marido e nem quer pensar nos riscos que correu ao se aproximar dela enquanto era casada.

Ela queria o homem sofisticado, encontrou o subordinado. Duas relações fracassadas e a bebida a atormentar a sua mente. Quando sóbria, sai às ruas fazendo pose, mas o corpo não esconde o acanhamento corroído pelo problema. Todos a recebem nas mansões, todos a recebem com o marido e a admiram; fingem não saber de nada.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Quadro Monalisa de Supermercado / Crônica de Supermercado

Quadro Monalisa de Supermercado / Crônica de Supermercado

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Às vezes a fila surpreende. Desta vez na fila do supermercado uma senhora elegante acompanhada das netas. O sorriso enigmático não escondia a satisfação ao ver as netas discutirem a sua vida emocional.

Desta vez, não apenas eu, mas a fila inteira parou a conversa para ouvir o quadro familiar:

_Vovó não esconda ele de nós caso ele seja um mendigo. Vovó, ele tem como se sustentar, não tem?

_Vovó não nos esconda se engravidar.

_Vovó passa o número do seu namorado para nós! Queremos saber mais sobre ele.

_Vovó, não namore atrás da igreja, isso é muito feio e contaremos à mamãe. Mamãe é sua filha, lembre-se.

_Vovó, não acredite em convites para jantar. É desculpa para as más intenções.

Ninguém na fila soube perceber se era verdade ou brincadeira de moças. O tempo para aquela vovó fez milagres, ou, cirurgia plástica.

Fiquei admirando o vestido lindo da vovó que aparentava os seus sessenta anos. Muito lindo o vestido de linho com o decote até a metade das costas que a senhora trajava. As gordurinhas nos lugares certos mostravam que ela se cuidava e que gostava de ser admirada pela elegância e pela maquiagem impecável; provavelmente uma profissional liberal bem sucedida nos seus sapatos de saltos altos e atuais.

O supermercado e a enorme fila feita de pessoas que retornavam de suas viagens. A vovó estava dourada de sol. A atenção na conversa era engraçada, parecíamos num teatro e trocávamos olhares de acordo com a conversa ouvida em bom som pela vontade das protagonistas.

Passávamos a fila em revista, eu e o público em geral. Nesses trinta e dois minutos de fila, a avó não disse uma única palavra. Sorria silenciosamente para as netas e entre dentes dizia a palavra talvez às moças naquele indecifrável sorriso de Da Vinci.

Seja lá quem for a tal senhora, deixou a sua presença na fila marcada.

_Vovó, é a nossa vez.

Ela foi pagar as compras e nem aí emitiu alguma palavra ou observação.

Há dias em que me sinto em Veneza.