Filosofando

Todos os seres vivos recebem um corpo físico para exercer a vida, o ser humano também. Talvez o ser humano não seja o mais inteligente dos seres vivos, mas o fato dele poder se comunicar e se fazer entendido pelos demais da mesma espécie, o faz diferente pelo alto grau de cognição.
A verdadeira moradia de este ser, a sua casa real é o seu corpo e a sua casa virtual é o que se denomina de alma, o ser invisível que nele habita. Esta casa é inteiramente viva e se movimenta continuamente, mas tem limites. Limites estes que a alma, ou, o espírito do ser que raciocina leva em consideração em cada gesto ou palavra proferida.
Enquanto a palavra, geralmente, é subjetiva, o gesto e a atitude, no entanto, produzem efeitos físicos. O ser humano oxida e gasta, se renova. Basta dizer que em três meses a pele que recobre o corpo é nova e que foi refeita sem que sequer se tome conhecimento do fato; o ser humano perde as células mortas e outras, novas em folha, estão no lugar daquelas que se foram. Não se pretende entrar no assunto da anatomia, o que se pretende aqui é entender a casa em movimento. A alma é a gerente dessa casa e, como todo gerente, ou faz o melhor para o lugar, ou leva a casa a falência.
É preciso que alma e corpo caminhem juntos em busca do equilíbrio porque o espírito se supera e se transforma, enquanto a tendência natural do corpo é o desgaste. A função dessa alma talvez seja ajudar o corpo a cuidar do desgaste e não pensá-lo como material descartável. É dever de essa alma conhecer os limites e traduzir ao corpo em forma de viver em harmonia, pois é o desequilíbrio entre o espírito e o corpo que produzem os conflitos que prejudicam a ambos. Embora de natureza e origem antagônicas caiba à alma pensar o corpo e ao corpo sentir e se ressentir dos pensamentos e emoções dela. Nascem com funções próprias a alma e o corpo, pensando igualmente nos objetivos dessa união nata.
A função do ser, em princípio, é a vida; por conseguinte, a morte é uma disfunção natural.
Se o corpo come, quem escolhe o cardápio é o espírito, que também se alimenta. Dizem alimentar o espírito os livros e a música, mas se sabe que é muito mais que isso. O espírito se alimenta de emoções e razões. Creio que estar bem consigo mesmo e fazer ao outro pensando o bem, acresce o bem estar tanto ao corpo quanto a alma. Existe uma expressão em inglês que traduz melhor o significado dessa disposição a se fazer feliz, no sentido de diminuir o sofrimento e a dor, do que na nossa amada língua portuguesa. É a expressão “In a mood”, ou seja, com humor. Quando o espírito acorda com humor para praticar o bem, mesmo que esse bem seja colocar o lixo na rua organizado para quando o caminhão de lixo passar parece que os acontecimentos do dia serão bons, porque o bom tempo está dentro da alma. O corpo sorri satisfeito quando a alma está com esta disposição.
No entanto, quando o corpo reclama e diz que não está bem, ele sinaliza para que o espírito, ou, o gerente, tome providências. E a alma, sorridente, não pode ignorar essa reclamação, muito menos desconhecer que o corpo tem limites. Nesse desequilíbrio, o espírito exerce a função de policial e determina onde procurar auxílio, localiza os locais e julga de acordo com os seus critérios, subjetivos, o que fazer. A busca da alma é manter o corpo em plena atividade para o seu gozo palatável. Percebe-se que um dos prazeres da alma é a vida do corpo em condições satisfatórias. Para estar bem, a alma recorre às estatísticas, às condições matemáticas, aos estudos das situações e controla as emoções porque conhece os limites do corpo, embora as emoções subvertam o raciocínio para o ideal. A emoção planeja o ideal, desconhece o corpo, tem vontades e infiltra-se ao raciocínio com facilidade; mas a razão se cerca de cientificidade para não prejudicar o corpo. Aqui a alma se subdivide em dois, para cuidar e, ao mesmo tempo amar aquilo que protege.
O espírito tem a propriedade de recorrer às energias e delas se serve, é a religião que cada um professa diante da realidade vivida pelo corpo. O corpo físico e as suas experiências influenciam direta e positivamente no caminho da fé, da ética, da postura tomada diante de problemas complexos e espirituais. O corpo comunica ao espírito o caminho a seguir na sua religiosidade e independem das influências externa ou meio ambiente, educação, etc. A experiência do corpo com o espírito é única e a decisão da alma para com o corpo é de extrema subjetividade, faz-se o melhor levando-se em consideração todos os fatores supracitados; porém, o corpo é prático, ele simplesmente existe e a sua função é a existência e necessita desse espírito para desempenhar a sua função biológica.
Para concluir, a função da vida é a vida, embora todo o mistério da alma venha a perturbar essa natureza prática.