Depois de tantos aprendizados no mês de setembro, longe do cotidiano, sendo acompanhante de hospital por dez dias, o que não é brinquedo para ninguém e, no entanto, parte da vida de todos nós, a rotina se fez recomeçar e as idas ao supermercado também.
Fiz a lista do que faltava na despensa e fui com boa vontade enfrentar a minha amada fila de textos para serem contados em forma de crônica aqui no blogue.
Coincidente com a falta de imaginação, não enfrentei filas, mas havia uma campanha para doação de alimentos não perecíveis e eu comprei, prestem atenção, “comprei um quilo de arroz para doar”. Não custa nada e ajuda alguém. Não li, comprei e na saída, sem fila, perguntei onde deixaria o arroz.
_A senhora deixe com a representante da instituição que se encontra perto da porta.
Peguei o arroz, embalado para deixar com a senhora representante da instituição.
Ela estava com dois carrinhos: um recebendo os alimentos; o outro doando textos bíblicos. Não, não eram marcadores de livros com versículos, não eram apenas brindes; eram Salmos, literatura bíblica para crianças e o Novo Testamento em linguagem atualizada. Pediu-me que escolhesse o livro que mais me atraísse. Escolhi decidindo o que seria melhor para a minha vida, o meu futuro, a minha condição.
Escolhi o Novo Testamento, sempre Novo a cada leitura. Ela, a senhora, não tem a mínima ideia do bem que me fez. Se eu pudesse não compraria mais um quilo de arroz, compraria arroz até não poder suportar o peso e doaria àquela instituição.
Aquela senhora nunca me havia visto e nem imagina o quanto a gente se distancia do cotidiano, da cidade, morando uma semana num hospital. Por mais que se tenha rádio, ou, até mesmo televisão, a cidade parece distante. O próximo são as enfermeiras, os médicos e os outros pacientes e a realidade é outra, muito diferente. O cansaço é enorme e a gente ouve rádio como se estivesse plugada na internet, a cidade, do lado de fora, é virtual, pelo menos assim foi para mim, que naquela semana saí de lá apenas por uma hora e meia.
Que presentão! Deixei sobre a mesa disponível a quem aqui vier. Aliviou o meu cansaço de forma inesperada, como se tivesse sido atingida por um raio de sol num dia cinzento.
Existem fatos que não tem explicação, acontecem. Vem na hora certa e renovam o ânimo da gente.
Observem que não disse o nome da instituição e por que não disse? Para não conduzir raciocínios, para deixar que flua a esperança a todos, para que a todos seja permitido esse raio de sol e em quaisquer circunstâncias.
Assim deu-se a volta à Crônica de Supermercado. Bonita, desejando que haja instantes felizes a todos vocês, cansados ou aflitos.



