Desconhecidos

Desconhecidos meus porque os casais se conheciam socialmente. Vinham conversando na fila do caixa aguardando o atendimento e, coincidência, eu estava na frente deles.
Aquela conversa de fila, com algo mais, um perguntava ao outro onde trabalhava atualmente, como iam os filhos, onde morava atualmente, um questionário interminável, penso que não se viam há muito tempo.
Entre uma pergunta e outra, um dos maridos, para diminuir o ritmo das perguntas, vira-se para a esposa e pergunta se ela havia reparado na televisão de vinte polegadas que estava com desconto de trinta por cento. Ele disse que havia pensado na filha, a Simone.
A esposa disse que ao ver a televisão, lembrou-se da filha.
_Quando voltarmos aqui, compramos!
O outro casal, para não interromper o questionário, perguntou se não seria melhor trazer a garota ao supermercado para escolher.
A esposa disse que a promoção era imperdível e que seria uma surpresa a filha. Num descuido de linguagem disse também que a filha precisava de uma televisão para se distrair e parar de comer biscoitos no quarto.
Desta vez, o marido exclamou:
_Nós precisamos comprar uma televisão para presentear a nossa filha porque ela come biscoitos na cama? Você acha que ela deixará de comer biscoitos e tomar refrigerante na cama para assistir TV?
A outra mulher aproveita a deixa?
_A Simone engordou?
A esposa responde sem pestanejar:
_Não, a Simone não engordou. Eu tenho medo que as migalhas de biscoitos atraiam insetos para o quarto dela.
O marido cortou a conversa das duas, dizendo ao amigo (entre aspas literalmente falando):
_Homem é bicho burro! O que é que eu tinha que mencionar a televisão? Sou ou não um asno?
O amigo meneou a cabeça como se estivesse em dúvida se responderia ou não.
O homem defendeu a mulher e a filha dizendo em alto e bom som:
_Eu sou burro, agora terei que comprar a televisão, agora gastarei o meu dinheiro com algo que não necessitamos.
A mulher tentou remediar dizendo que o aparelho não era para eles, era para a filha.
Até chegarem ao atendimento o homem se autoproclamava um burro e não deixou ninguém mais abrir a boca até se despedirem. Um bom homem e uma boa esposa e mãe, agora quanto à “burrice” dos dois também fiquei em dúvida.