Rio de Janeiro

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O blog da Nina, menina que lia quadrinhos.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Ponto de Referência / Miniconto


Ponto de Referência

     Aquele teatro é o ponto de referência da cidade. Todos na cidade têm histórias para contar sobre aquela edificação.
     O engenheiro idealizador do projeto tomou todo o cuidado para que a característica memorial permanecesse como era na data em que fora construído.
     A lembrança do inconsciente coletivo permanece mesmo quando um novo teatro é construído para que os frequentadores do local possam ter mais conforto.
     Peças desconhecidas, mas de agrado do público local, tornaram-se inesquecíveis.
     Amizades e inimizades iniciaram-se naquele ponto da cidade.
     São histórias simples como a da moça que bate à porta da casa de um conhecido e pede para que ela e o namorado durmam na frente de uma casa cenográfica, pois os seus pais não querem o namoro. O dono da casa expulsa moça e namorado porta afora e a moça sai chorando dizendo que somente queriam uma boa noite de sono ao luar de verão.
     Algumas histórias de preconceito e ideologias como ir ou não ao teatro, quem pode assistir a uma peça e quem não pode, uma crítica à sociedade e as suas conveniências, mostrando o quanto um ambiente pode influenciar positivamente ou negativamente para a boa educação filantrópica.
     Outras histórias de quem, naquele teatro, era capaz de se emocionar, quando a vida real lhes exigia a competição.
     Mais histórias de sátiras políticas onde se comentava nas ruas os novos acontecimentos, quando era arriscado emitir opiniões. Os homens galhofavam nas ruas desse teatro do que lhes era intangível na realidade.
     Foram tantas histórias que o teatro é impedido de fechar definitivamente. É uma desconsideração tanto para com os idealizadores quanto para os seus construtores.
     Quando o jornal mostrou a possibilidade de fechamento do teatro, começaram as maledicências, as conotações sexuais dos desejos pecaminosos que, de tão exagerados, mereceriam uma nova peça de teatro.
     No entanto, o público precisa de conforto e a decisão é difícil.
     Começa a gritaria: Difícil para quem não pensa, porque este teatro é muito bem construído e constitui um marco histórico da cidade.
     O gerenciador do patrimônio pede a opinião do conselho e este delibera com determinação:
     _Congela! Todos os aparatos não serão demovidos do local, nem mesmo um par de chinelos velhos e cansados que estejam entre os pertences desse teatro. O novo teatro será diferente e, à medida em que as peças forem montadas, a sua nova história será construída. Esse teatro se transforma em patrimônio protegido pelo conselho da cidade e nem mesmo um copo de plástico dele será removido.
     O gerenciador concorda.
     Para o gerenciador, aquele teatro se transformou em palco de emoções, um lugar com muita energia, energia essa mantida pelos seus frequentadores.
     O progresso vem acompanhado da história. Esse teatro é a história de toda essa gente que dele fala e sente.
     Essa é a energia daquele teatro: sentimentos diversos,mas aos poucos, a peneira do tempo se faz e se decide a melhor maneira dessa preservação cultural.
     É uma atitude necessária antes que se nominem as mães dos presentes com palavras chulas ou se chamem os mais delicados cervos para a reunião. Cervos com "C", frisa o gerenciador.
     A discussão continua acalorada, quando chega o missionário evangélico e lembra do feriado da Páscoa:
     E, passado o sábado, Maria Madalena, e Maria, mãe de Tiago, e Salomé, compraram aromas para irem ungi-lo.
E, no primeiro dia da semana, foram ao sepulcro, de manhã cedo, ao nascer do sol.
E diziam umas às outras: Quem nos revolverá a pedra da porta do sepulcro?
E, olhando, viram que já a pedra estava revolvida; e era ela muito grande. Marcos, 16, 1-4
          O teatro fica como está e o um novo teatro se ergue para que novas memórias sejam edificadas.


Um comentário:

Célia Rangel disse...

Edificar memórias - esse é o Tempo do Templo e dos Teatros...
Feliz Páscoa, Yayá!
Abraço.