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O blog da Nina, menina que lia quadrinhos.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

A Benzedeira

A Benzedeira

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Brasil afora ainda tem muita mãe que leva os filhos na casa da benzedeira pra se curar de mau olhado.

Mau olhado não é febre e nem dor de barriga, é criança impaciente ou provocadora, aquela que não deixa a mãe e o pai sossegarem, faz manha de noite e reina de dia. A reza cuida desse tipo de mal.

Maria Rita era assim, mas também era menina-moça. Se não fazia maldade ou daninheza, também não tinha juízo. Uma brincadeira pior que a outra, pior porque não tinha medo de nada nem da bola nem do mar nem de andar de pé em cima da bicicleta, sem titubear.

A vizinhança dizia à dona Conceição:

_É a idade. Cresceu, passa.

Dona Conceição punha a culpa no mau olhado.

_Vou levar Maria Rita para ser benta por benzedeira boa. Pelo menos faço alguma coisa boa pra ela.

Maria Rita ficou assustada de ter que ir à benzedeira porque não se cansava de brincar.

O caminho para a casa da benzedeira era de terra batida. Ficava longe do centro da cidade. Dona Conceição tinha carro e dizia para a filha olhar como é que a vida era de verdade pela janela do carro.

A menina olhava e comentava com a mãe, que não olhava nada porque dirigia.

_Mãe, quanta pobreza. Como é que você acha que alguém que mora aqui, com janela de tábua de madeira, pode ajudar alguém?

A mãe respondia:

_Pode ajudar porque o sofrimento ensina. Se eles são mais sofridos é porque sabem de coisas que nós não sabemos. Posto de saúde, para eles, é depois dos remédios caseiros. Preciso de uma reza para você, esse é o remédio para que eu venha buscar.

Maria Rita ficou com medo de um lugar do qual ela tinha visto apenas em filme. Mas, logo se distraiu olhando uma mãe dando banho num bebê numa espécie de bacia feita de madeira. A criança tomava banho no quintal e as roupas para a criança vestir estavam penduradas na janela. Perguntou para a mãe o que era aquilo de criança tomar banho no quintal.

_É falta de chuveiro dentro de casa. Luz elétrica é coisa da cidade.

Maria Rita começou a se apavorar e perguntou para a mãe se ela achava que a família dela era rica.

_Temos água encanada, luz elétrica, telefone, escola, passeio e, agora, uma mocinha com falta de juízo que precisa ser benzida.

Maria Rita começou a rezar pela mãe, que achava que ela tinha mal olhado e que a trazia a um lugar, digamos, inóspito. Além disso, onde se viu andar vinte quilômetros de automóvel para fazer uma reza que evitasse que ela andasse de pé em cima da bicicleta. Para a menina, a mãe é que não tinha juízo.

_Mãe, eu vou pedir uma reza para você também. É falta de juízo vir num lugar desses com uma criança. Eu não sei te proteger aqui e nem tenho como chamar ninguém, o meu telefone celular perdeu o sinal.

Dona Conceição olhou para a filha e disse:

_Agora você me deixou preocupada. Enquanto eu dirijo, procure uma mercearia com telefone público na frente do lugar. Observe se há alguém falando ao telefone e me avise.

A menina foi mostrando os locais onde existiam telefones públicos com gente falando ao telefone.

A mãe perguntou em qual deles tinha mãe e criança fazendo compra.

_Minha filha, caso você precise telefonar para alguém, venha até essa mercearia onde tem mãe e criança fazendo compra e chame o seu pai.

Pela primeira vez em seis meses, Maria Rita ficou com medo.

_Mãe, como é que eu venho até aqui para telefonar se eu não dirijo?

A resposta foi sorridente:

_A pé, igual à sua mãe quando era criança.

Maria Rita estava num estado ao qual ela qualificava de pavor total. Rezava para chegar logo na casa da tal benzedeira rezar e tomar o caminho de volta para casa com a sua mãe.

Quando chegaram ao lugar, Maria Rita disse que preferia não descer do automóvel porque havia no lugar um galinheiro e, de longe, avistava-se um chiqueiro com porcos.

A mãe não a obrigou a sair do carro sem antes conversar.

_Filha, veja como a pobreza está remediada nesse lugar. Você sabia que nas chácaras eles somente precisam de sal? Olhe mais adiante, veja a plantação de milho, de feijão e de arroz. Ouça o silêncio do lugar, veja a linha do horizonte. É campo que não acaba mais. Respire esse ar puro e sinta a diferença do ar da cidade.

Maria Rita abriu a porta do carro para sair. A mãe sorriu e desceu do carro.

A benzedeira nada mais fez do que rezar o terço seguido por meia hora sem parar. Fazia o sinal da cruz e pedia pra Deus dar juízo pra menina.

Maria Rita pediu pra benzedeira rezar para a mãe dela também.

Conceição riu-se e consentiu a reza.

Benzedeira honesta não cobra, pede pra deixar ajuda se a pessoa quiser.

Uma hora depois estavam mãe e filha benzidas e ajuda dada.

Eram vinte quilômetros até a cidade.

Chegaram a casa antes do anoitecer. Maria Rita se curou do tal do mau olhado para o resto da sua vida, criou juízo. Parecia morar em casa nova, abria a torneira da pia e se maravilhava, ligava a luz da sala e percebia a sala mais bonita.

Combinou com a mãe de nunca mais voltarem lá.

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