Lugares Bonitos

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O blog da Nina, menina que lia quadrinhos.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O Retrato

O Retrato

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No corredor de entrada do apartamento há um retrato na parede. Todas as visitas, ao se depararem com o retrato perguntam de quem se trata, quem é que fora retratada.

O retrato é de uma mulher bela e bem vestida, com detalhes de expressão fisionômica exatos, até mesmo o carmim cuidadosamente espalhado nas maçãs do rosto mostra perfeição.

O retrato é de uma antepassada dos proprietários do apartamento.

Quando perguntados sobre o retratista, ninguém o sabe responder. A única referência disponível é uma assinatura no canto inferior, próxima à moldura, ilegível.

Sobre a mulher retratada, igualmente nada sabem os donos do quadro. Sabem que é uma antepassada da família e que o retrato possui qualidades indiscutíveis, pois está nas paredes desde há duzentos anos, passando de geração em geração, de casa em casa, até que entrou naquele apartamento para enfeitar o corredor de entrada do apartamento.

O que se sabe, deduz-se através do figurino fino e da gola alta de organza transparente e do olhar em direção ao horizonte com certa confiança.

Sabe-se, que na época em que fora retratada, as mulheres eram discretas e pouco falavam em público, mas o retrato conta dela, das posses, dos costumes e da vontade determinada de contar de si, através do retrato, para as gerações subsequentes. Provavelmente havia sido uma mulher de espírito forte e resoluto e soube lidar com as funções de mãe de família sem desperdiçar a sua vontade de dizer de si mesma.

Interessante, é observar, que, desde que a fotografia foi criada, todos os familiares da mulher retratada, obtiveram os seus momentos fotografados e as suas lembranças e experiências de vida devidamente guardadas para a posteridade.

Ela, não. Aquela mulher era de um tempo anterior ao da fotografia e, no entanto, ninguém sabe dizer como se chegou ao retrato ou porque ela havia sido retratada.

Aquele retrato estava sutilmente situado entre o zelo e o desprezo.

Zelo, porque estava bem tratado e cuidado no corredor de entrada do apartamento.

Desprezo, porque a bela mulher em trajes de época é uma desconhecida, nenhuma linha é escrita ou falada sobre ela, além ou aquém daquele retrato.

Contudo, o quadro ainda conta histórias aos visitantes e não está à venda.

Quando nenhuma geração não o quiser, ou, quando o retrato se estragar, será posto fora.

5 comentários:

✿ chica disse...

E ele passou " enfeitando" paredes, sem ser conhecida! bjs, chica

Wanderley Elian Lima disse...

Intrigante e misteriosa narrativa. Amei.
Bjux

vendedor de ilusão disse...

Olá Yayá!
Com muita satisfação, lhe comunico que realizarei o 2° Prosas Poéticas – veja notícia no blog e saiba do regulamento. Desnecessário seria dizer que a vossa participação será motivo de muita honra.
Deixando o meu abraço, enfatizo que lhe espero para engrandecer o evento com uma das suas magníficas criações poéticas.
Beijos.

Ivone disse...

Linda amiga Yayá, gostei de ler, amo ler livros antigos que relatam pinturas de retratos e que duram várias gerações.
Acho romântico, mas que pena que esse serve só para enfeitar a parede, com o tempo, ao estragar, será descartado.
Bela narrativa!
Abraços apertados!

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Por vezes apenas isso bastará para que o quadro seja uma pergunta de todos.
A assinatura do autor é que lhe dará o valor.