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sábado, 13 de setembro de 2014

Cadê Ana Tereza?

Cadê Ana Tereza?

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Batem à porta. É o juiz da comarca junto com o promotor de justiça, acompanhados do cartorário que chegam ao povoado do distrito.

Atende a porta uma mulher elegante, mas d’uma elegância diferenciada, com gestos diferentes daqueles da região.

_Por gentileza, a dona Ana Tereza se encontra?

A mulher, pausadamente, responde:

_Ana Tereza sou eu. O que desejam, prezados senhores?

_Exatamente conforme nos descreveram, disse o promotor ao juiz. O cartorário controla as lágrimas.

_Entrem, por favor, vamos conversar, disse Ana Tereza.

Eles, o promotor, o juiz e o cartorário, entram e aceitam o convite para sentarem-se ao sofá.

O promotor, costumeiramente eloquente, pergunta como foi que os fatos se deram.

Ana Tereza sorri, como que aliviada por se importarem com o assunto.

_Não tive oportunidade sequer de pensar, foi questão de sobreviver. Como uma lebre que foge em dia de caça, fugi. Não havia enfrentamento possível. Eram muitos e ferozes.

O juiz interveio, dizendo que se foi assim, ela estava bem.

O cartorário advertiu que estava bem, mas que não restava sombra do que ela havia sido anteriormente. Ele a conhecia há muitos anos e, agora, nem mesmo os gestos eram semelhantes aos de outrora.

_Senhor cartorário, como disse a pouco, não houve tempo para pensar. Houve gente que chorou a minha morte no momento em que percebeu a situação, não quero dizer quem, pois bem sabe o senhor com quem tenho convivência. Quando choraram a minha morte e eu me percebi viva, fato que a minha artrose lembra diariamente, o meu instinto aguçou-se e, me salvou.

O juiz a felicitou enquanto que o promotor cochichou ao cartorário que havia um problema.

Ana Tereza observa o promotor e o cartorário e olha para o juiz, surpresa:

_Senhores, eu estou bem. Refiz-me quase que por inteiro, até mesmo sinto-me renovada; não há por que se preocuparem.

O juiz pede ao promotor que se cale por alguns momentos, e diz que ele mesmo contará da situação.

Ana Tereza observa com curiosidade a situação enquanto que o cartorário se comove.

O juiz, com o tom de voz calmo, paciente e, também de olhar benevolente dirige-se à Ana Tereza.

_Dona Ana Tereza, eu compreendo que a senhora se saiu bem e folgo em saber do seu bem estar. No entanto, nós temos um problema legal. As situações de risco devem ser noticiadas à justiça e não houve notificação de parte nenhuma. As polícias civil, militar e judiciária não foram notificadas da situação de risco. Houve a ilegalidade.

Ana Tereza se preocupou com a direção da conversa e disse que estava à disposição deles para qualquer esclarecimento.

O promotor riu-se de tal desconhecimento da legislação por parte de Ana Tereza.

O juiz também esboçou um sorriso, mais discreto, quase disfarçado.

O cartorário olhou para Ana Tereza com bem querer e disse:

_Antes não fosse necessário estarmos aqui.

Ana Tereza, polidamente, pediu a eles que explicassem a ela a situação, porque era de fato leiga e precisava entender o que se passava.

O juiz disse:

_A senhora, agora, está sob a proteção da justiça.

O promotor complementou:

_A situação de risco não notificada às autoridades precisa de esclarecimentos. A justiça tomou conhecimento tardiamente, fato que fica fora dos padrões do sistema e não podemos fingir que ninguém soube de nada, sabemos que não é verdade. Temos as nossas obrigações a cumprir, mas a senhora esteja tranquila, viemos aqui para informá-la da situação.

O cartorário, com a postura de amigo, a abraçou e a felicitou por se encontrar bem.

O promotor levanta-se e diz:

_Não se preocupe mais senhora. Com ou sem o nome de Ana Tereza, haverá a prossecução necessária.

O juiz acrescentou, ao se despedir:

_Aprecio o seu comportamento senhora.

Ana Tereza agradeceu a visita, não sabe o que dizer diante de tal consideração e respeito.

Seguem pelas ruas os homens, quando o juiz e o promotor reparam a emoção do cartorário.

O promotor pergunta ao cartorário o motivo de tal comoção, visto que está tudo conforme precisa estar e, afinal, Ana Tereza não terá nenhum prejuízo ou desgosto, chega a indicar que o cartorário se excede na emoção.

O cartorário não mais se contém e chora a morte de Terezinha:

_Vocês sabem quem, ou, como, era a Terezinha? Sabem da diferença entre a amiga Terezinha e a amiga Ana Tereza? A situação não tem volta, ela é outra!

O juiz responde que tudo será esclarecido e o promotor ergue a cabeça, resoluto.

Ninguém disse mais nada.

4 comentários:

Ingrid disse...

deixo beijos de bom Sábado...

Célia Rangel disse...

Com todo esse aparato legal... jamais eu esperava um "The end" assim! Sensacional!
Abraço.

Rosemildo Sales Furtado disse...

Pelo visto, os ferozes operaram uma mudança radical na Terezinha.

Beijos e um ótimo final de semana para ti e para os teus.

Furtado.

aluap Al disse...

Que historia! Fiquei sem saber o que realmente aconteceu com D. Ana Tereza! Fisicamente parece que ficou bem - tirando a artrose - mas por dentro não é mais a mesma mulher. Acontece a muitas, diga-se!
Bom fim de semana.