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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Vende-se

Vende-se

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Estava pensando outro dia se, por acaso eu me encontrasse com Solange.

Hoje, Solange deve ser uma senhora, assim como eu.

Contaria a ela que a casa do avô dela está à venda.

Aquela casa construída com argila e pedras britas com areia de rio.

Aquela casa onde eu e ela ficávamos sentadas em cadeiras de madeira polida junto à sua avó, que nos servia sanduíches com shimia (comida típica, uma conserva feita em casa com pouco sal e algum azeite de oliva) e bolinhos fritos na hora.

Aquela casa onde o avô passava com o balde grande carregado de terra de argila e agente via o fio de prumo e as estacas de madeira.

Nós duas ficávamos tanto tempo naquela observação que não tardou e logo chegavam, também para assistir a construção, a minha mãe e a mãe dela.

A construção parecia uma lareira aconchegante, o avô dela construía, a avó dela servia, nós olhávamos e, a minha mãe contava histórias; ela gostava de contar histórias, de falar.

O avô e a avó tinham perdido uma filha, apegaram-se à minha mãe naquele seu jeito conversador.

Acabei por virar neta também e também ouvi os ensinamentos que a Solange recebia.

Solange não tinha ciúmes de nada, a mãe dela não deixava; sabia da dor de perder uma irmã.

O avô chamava os pais e irmãos para ficarem com ele, gostava de ensinar como se fazia a argila para construir uma casa. Meu pai não teve coragem. Não adiantou a boa vontade do homem. Meu pai jamais tentou comprar tijolos e fazer argila, o jeito dele era outro.

Ao fogão de lenha todos nos reuníamos, eram singularidades da existência.

Quantos ensinamentos, meu Deus, quantos!

Havia um respeito, que hoje se pode chamar de santo.

Naquela casa construída de argila, outra família se fez. Nunca mais fomos os mesmos, nunca mais.

A distância entre o campo e a cidade se fez de fato e de dentro para fora. Eles também não foram mais os mesmos, éramos da cidade e a cidade mostra o seu concreto nos edifícios, as micro-ondas e os pratos congelados.

Eles compraram micro-ondas. Depois, lembro que eles se mudaram para outra cidade.

Aquela casa à venda conversa comigo, contando de toda a sua história de construção.

Não, não a quero comprar. Seria saudade demais. Que o comprador possa ser feliz naquela casa de argila, com eu pude ser.

2 comentários:

Jorge Lopes disse...

Pequenos nadas que contam muito nas nossas vidas!
Abrçs.

Evanir disse...

Alegre-se a cada nova manhã pense que com um novo dia pode-se começar uma nova vida.
Mas começar sem medo do que pode vir a acontecer,
viver um dia de cada vez e sempre olhando para frente, simplesmente começar.
Tente se basear no exemplo de um simples amanhecer, embora aconteça todas as manhãs,
são poucas as pessoas que podem testemunhar a beleza que é quando a noite
a noite termina e vem no horizonte o espetáculo do nascer do Sol.
Obrigada pelo carinho desejo um abençoado final de semana .
Beijos ,Evanir..