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terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A Turma da Recuperação

A Turma da Recuperação

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Chegou o dia do juízo final para Deolindo, Geraldino e Franciano.

Justo eles que fizeram algumas coisas que não deviam tais como filar almoço na casa dos amigos sem ter outro interesse que não fosse à refeição, usaram o telefone para conversar com os seus familiares e amigos, pediram carona e inventaram várias desculpas para conseguir uma folga de cinco minutos a mais no horário do expediente.

Consta que eles também eram experientes em passar o final de semana estando sentado em frente à televisão dos conhecidos, o negócio deles era arranjar desculpas para estarem disponíveis na hora que interessava; mais de mil e quinhentas para arranjarem ocupações quando os outros precisavam deles para trocar os pneus ou arrumar o chuveiro.

Eram pessoas que seguiam as regras próprias inventadas por eles na convivência social, pois tinham certeza de que havia no mundo muito mais pessoas mais inteligentes do que eles.

Nos livros do juízo final havia queixas e reclamações de no mínimo duas mil e oitocentos e cinquenta e sete pessoas, chamando-os de folgados, esculhambados, e ainda mais, tinham a fama de gente que não podia ser levada à sério, pois a vida deles era daquele jeito: um almoço aqui, um lanche ali, uma carta no correio a ser paga no futuro, futuro que não chegou ao tempo deles.

Chegaram os três ao dia do juízo final.

Um deles defendeu os outros dois perante a porta do céu e garantiu a eles que não passariam do purgatório classe C e que jamais chegariam ao inferno da quinta classe, que era a do diabo.

Conversa daqui e conversa dali e o chaveiro, com as chaves na mão, aguardava o julgamento para os mandarem montar os cavalos e galoparem em direção ao local indicado pelo pessoal responsável pelo juízo final.

Terminado o julgamento, foi determinado que os três fossem para o céu.

Eles não queriam ir, temendo alguma arte do pessoal do juízo final como castigo por tudo o que fizeram, pois sabiam que tinham feito todas aquelas coisas das quais eram acusados no relatório do juízo final.

_Algo está errado por aqui, isso não é justo. Alguma coisa nós teremos que pagar.

Mas não teve jeito, tiveram que obedecer e foram para o céu.

Chegando lá, ficaram na portaria e um deles, pediu uma justificativa para estarem lá, dizendo:

_Com todo o respeito que o céu merece, nós não vamos entrar porque sabemos que iremos para o purgatório em seguida. Pensamos que de tanto que nós filamos refeições e caronas, o nosso lugar é no purgatório.

O responsável pela portaria do céu disse que não havia engano, que o lugar deles era ali mesmo e que o céu podia se enganar, mas intencionalmente não enganava ninguém. O caso deles fora proposital e eles foram mandados ao céu.

Volta e meia passava um e outro morador do céu para perguntar sobre a correspondência.

Eles ficavam observando os moradores, que eram pessoas admiráveis, um deles havia ajudado aos pobres sempre que possível e outro deles era um embaixador para assistência à saúde nos países carentes, outra uma senhora que lia a Bíblia todos os dias em horários regulares e a outra ensinava os analfabetos da sua cidade.

Eles estavam juntos àquelas pessoas, e muito desconfiados daquela situação, fizeram de tudo em vida para chegarem ao purgatório.

Passaram-se alguns meses e os três na portaria, esperando que algum dos moradores viesse chamá-los.

Um dia, chega uma moradora, que nada havia feito de excepcional em vida, mas que veio até eles a fim de explicar o motivo pelo qual estavam no céu.

Eles de olhos bem abertos para ver se descobriam onde fora o engano e, ela, percebendo a curiosidade deles, disse:

_Meus amigos, eu sofri muito em vida, mas pedi a Deus que perdoasse aqueles que, apesar de tudo, mal maior não me causaram. Quando se chega aqui se vê que alguns males não passaram de enganos plenamente perdoáveis e outros, dos quais a gente não tinha noção vão para a lista de reclamações. Para colocar as minhas reclamações e perdões, eu acabei por passar por cima das infantilidades que vocês cometeram, pois não passaram de falta de conhecimento de que daquele jeito como vocês se comportaram pareceram piores do que eram. Mas, se eu não ensinei para vocês é porque eu também não sabia que tudo poderia ser diferente. Pronto. Agora vocês estão no céu e podem aprender a se comportar melhor. É esse o motivo pelo qual vocês estão aqui, para adquirirem conhecimento das coisas do Senhor.

Nisso chegaram os professores e os convidaram para entrarem à sala de aula.

Eles agora entendiam o significado de estar no céu, a sala de aula seria o purgatório. Ficaram contentes e conformados.

2 comentários:

XicoAlmeida disse...

Adorei, Yayá.
Pena não nos apercebermos que a vida é uma continua sala de aulas e que cada momento faz sentido.
Bom ano para ti.
Beijos.

Célia Rangel disse...

Aprender sempre ainda que em modesta "sala de aula" diariamente... O céu é o limite: - aqui e agora!
Abraço.