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quarta-feira, 22 de maio de 2013

O Guarda-Chuva

O Guarda-Chuva
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Maria e Ana eram irmãs. A mais velha era Maria, tinha seis anos de idade, e a mais nova era Ana, que contava os seus quatro anos de idade nos dedos.
Perto da casa onde moravam havia a loja de brinquedos, onde estavam as mais lindas bonecas, as douradas caixinhas de música e todas as miniaturas desejadas pelas meninas tais como carrinhos de bebês, conjunto de xícaras para brincar de casinha, um sonho para as garotas.
As irmãs gostavam de ir à loja não apenas com o intuito de comprar, mas para verem a disposição dos brinquedos na loja e escolherem as suas preferidas para quando chegasse à época de ganharem os seus presentes.
Antes de entardecer, porém, a mãe delas, Penélope, as levava para casa e fechava as portas e as janelas antes de preparar a janta das meninas.
Certo dia, estando a avó das meninas e mãe de Penélope enferma elas ficaram na casa da avó até às cinco horas da tarde. Embora se sentindo triste, Penélope levou as meninas à loja de brinquedos para distraí-las enquanto dispersava a melancolia.
A dona da loja as recebeu com carinho e atenção. Da mesma maneira não deixou que Penélope saísse da loja enquanto não estivesse melhor de ânimo, deixando a tristeza para o destino do entendimento que todo o ser humano possui.
À despedida, Maria e Ana não entenderam a oferta do guarda-chuva por empréstimo oferecido à sua mãe por parte da dona da loja. Não chovia e não havia nuvens no céu.
Penélope disse que a casa era próxima e que iriam apressar o passo, e que antes do anoitecer estariam em casa e em segurança.
A dona da loja pediu a elas que tomassem cuidados porque estava na hora deles acordarem e, olhando para cima, observou:
_Olhe ali, próximo ao telhado! Um deles já apareceu.
A mãe das meninas viu o morcego e às pressas disse que depois terminariam a conversa.
_Deem-me as mãos a acompanhem os meus passos.
O guincho do animal foi horrível e ele sobrevoou sobre as suas cabeças.
Maria e Ana até aquele dia não tinham visto o rato voador. Gritaram.
Penélope pegou Ana nos braços enquanto a Maria corria ao lado dela nessa quadra que pareceu medir um quilômetro.
Abriu a porta da casa, colocou as meninas na despensa, que era fechada por uma cortina. Pediu às meninas que não abrissem a cortina antes dela fechar a casa e verificar se nenhum dos morcegos adentrara a casa.
As meninas ouviram o barulho da vassoura varrendo o forro de madeira e chamavam o tempo todo pela mãe, quando esta deu permissão para as meninas saírem do lugar.
_Um deles entrou, mas o empurrei para fora com a vassoura. Foi a sorte o dono de o armazém ter me convencido a comprar esta vassoura de teto.
Penélope, no entanto, estava com os olhos fixos na pequena janela da porta. Esperava o marido chegar.
Naquela noite ele se atrasou. Quando chegou, porém, ela abriu a porta e o abraçou aflita.
_Que bom que você chegou! Os morcegos apareceram de novo.
Ele a tranquilizou e explicou que pela presença deles por todo o bairro ele não saía de casa sem o guarda-chuva. Quando algum deles o tentava atacar, ele se defendia com ele. Disse que as luzes da cidade deixavam os morcegos confusos e o ajudavam a afastá-los.
Esta preocupação com ele fez com que ele se lembrasse de perguntar sobre a mãe dela que estava adoentada e a mulher respondeu que a doença era ruim e que progredia, apesar do tratamento.
Se Maria e Ana estavam assustadas, arregalaram os olhos com a notícia sobre a avó.
Penélope explicou rapidamente algum fato sobre a doença da avó, quando Maria mudou de assunto e, aliviou a conversa.
_Morcegos são bichos maus?
Antes de responder à Maria, o marido diz à Penélope:
_Soube que eles estão atacando cachorros e gatos que dormem fora de casa à noite. Os moradores do bairro estão com medo e vacinando os seus animais, mas o biólogo que veio fazer a pesquisa pediu para que esperássemos pelos resultados dos testes para sabermos se esses morcegos são frutívoros ou não. Agora, se alguns animais foram atacados, parece óbvio que os bichos são perigosos e que ele tenta evitar o pânico entre os moradores.
Maria repetiu a pergunta e a mãe abraçou a ela e à Ana colocando-as no sofá junto a si.
O pai, em frente a elas, respondeu com muita atenção ao que a menina perguntava:
_Bichos não são bons e nem maus. Eles não possuem o discernimento necessário para essa qualificação de raciocínio. Bichos são inofensivos ou perigosos, e é a natureza deles que determina a necessidade de cuidados para se lidar com eles. Esses, dos quais vocês fugiram, são perigosos, se alimentam de sangue e transmitem doenças.
Maria entendeu a resposta, mas entendeu do jeito que criança entende. Assim, perguntou:
_Papai, vovó está doente e os morcegos ainda querem o sangue dela?
Penélope interveio na conversa e lembrou ao marido da idade da Maria.
Ana ficou curiosa e disse:
_Papai: conte, conte e conte porque eu quero saber.
Antes de continuar a conversa, o pai puxou a cadeira e sentou-se defronte a elas, para dialogar.
_Os morcegos, quando aparecem, são seres para se temer. O que eu quero que vocês guardem com vocês deste susto é a lembrança de que existem momentos nos quais nos encontramos fragilizados por algum motivo. São momentos comuns a todas as pessoas, e no nosso caso, todos os moradores estão com medo desses bichos. Nesses momentos é que surgem aqueles que tentam se aproveitar da situação e, se puderem, conduzem o nosso raciocínio para a conclusão errada, aumentando os perigos diante das circunstâncias. São humanos que agem como se morcegos fossem. Cito o biólogo que veio aqui e pediu para não temermos os morcegos antes da verificação. O resultado desse comportamento, se seguido à risca, pode ser danoso a toda população do bairro. Nesses momentos, precisamos dos nossos guarda-chuvas abertos, temos que nos proteger e evitar o contato com os morcegos; a sobrevivência nos obriga a esse comportamento. Não os atacamos, mas nos defendemos desses monstrinhos.
Maria prestou atenção àquilo que o pai dizia, mas observou que sendo menina, queria uma sombrinha e não um guarda-chuva.
O pai das meninas concordou e disse à Penélope para providenciar uma sombrinha para Maria. A mãe disse que estava na hora de todos irem se deitar para dormir.
Com o episódio resolvido e a proteção providenciada, passa-se algum tempo em paz.
Não tardou muito tempo e a mãe de Penélope teve seu estado de saúde agravado e foi levada ao hospital. Naquele dia o marido não foi trabalhar, iria com a mulher ao hospital enquanto a dona da loja de brinquedos, que anteriormente se oferecera para tomar conta das meninas em caso de necessidade, foi buscá-las para que ficassem com ela na loja.
Aquela tarde das meninas foi feita de brinquedos. Ana escolheu a boneca que estava na prateleira para brincar, enquanto Maria quis o carrinho de bonecas com uma boneca dentro dele. A dona da loja serviu-lhes lanche com bolo e leite.
Às cinco horas da tarde em ponto, o pai das meninas foi buscá-las. Agradeceu a atenção da dona da loja dedicada não somente para as meninas, mas para a família. Penélope havia ido para casa antes, havia perdido a sua mãe; ela precisava do seu espaço de tempo para desabafar. Agradeceu em especial por não ter tido que levar as meninas ao hospital:
_Não se leva crianças ao hospital para as horas das despedidas.
Naquela noite o pai das meninas ficou com elas até que elas fossem dormir, afinal, o guarda-chuva deveria ser aberto em dias de chuva também. Contou que a mãe delas estava triste porque a vovó tinha morrido. A chuva caiu durante a noite inteira. O sol voltaria a brilhar, mas noutro dia qualquer.
Deixaram a chuva vir e passar, sabedores que, no dia seguinte, ao entardecer, teriam que se cuidar com os morcegos.
Na semana seguinte, porém, os moradores se reuniram e chamaram o biólogo de novo. Os testes feitos demonstravam que não eram os morcegos frutívoros e que seria necessário o controle da população dos morcegos na região e que demoraria algum tempo até que o problema fosse solucionado.
Demoraram dois meses até que a população sentisse que diminuía a quantidade e o ataque dos bichos. Ainda assim se cuidavam.

5 comentários:

Wanderley Elian Lima disse...

Se eu morasse nessa cidade provavelmente já teria morrido. Tenho verdadeiro pavor de morcegos. Belo texto, onde a solidariedade se faz presente.
Bjux

manuel marques Arroz disse...

Bonito texto.

Beijo.

Élys disse...

Você escreve de uma forma fácil e muito agradável de se ler.
Beijos.

Artes e escritas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Artes e escritas disse...

Corrijo o erro de ortografia e explico: frutífero é o fruto da árvore e frutívoro é o que se alimenta dos frutos dessa árvore. Obrigada a vocês pela compreensão. Um abraço, Yayá.