Lugares Bonitos

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O blog da Nina, menina que lia quadrinhos.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Cochicho de Carnaval

Cochicho de Carnaval

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A microempresa de confecções atrasou a produção das calças coloridas de verão, corria o risco de atrasar a entrega das peças aos atacadistas.

A dona da empresa combinou o plantão no feriado de Carnaval com as costureiras. Todas as funcionárias aceitaram a ideia prontamente.

Chega o sábado de Carnaval e todas estão à espera da abertura da porta para ligarem as suas máquinas de costura.

Ao abrir a porta, a chave se quebra. Nos dias de hoje não se pode deixar grandes quantidades de produtos à mostra, o risco de uma ou outra peça ser furtada é grande. A dona da loja, Cremilda, chama o plantão de chaves para fazer a cópia e se garantir de toda e qualquer possibilidade de chuva.

O chaveiro chega e Cremilda o atende pessoalmente deixando as funcionárias lá dentro trabalhando.

O cochicho começa e Cremilda, no entremeio da conversa sobre o preço da chave, ouve os comentários das senhoras:

_Eu não ligo para Carnaval, nunca dancei. Ficar de plantão é muito melhor.

A outra responde que também não gosta de festa e complementa:

_A festa eu não gosto, o que talvez seja motivo de reclamação seja a salada em pacote e os sanduíches da hora de almoço. Em dia normal, a gente pega marmita, mas durante os feriados os estabelecimentos fecham.

De cochicho em cochicho tecem a magreza da Cremilda:

_Eu acho que ela não come nos dias normais.

A outra diz que se a dona Cremilda adoece não tem quem cuida da indústria:

_Ela deveria se cuidar e pensar que da disposição dela dependem os nossos empregos.

A outra repara a sombra nos pés da porta.

_Será que ela está escutando atrás da porta?

Dona Cremilda, conversando com o chaveiro e ouvindo parcialmente a conversa, pede licença ao homem para colocar os pés para dentro da sala de costura e diz:

_Eu não sou surda minhas queridas amigas de trabalho, eu ouço o que dizem. Será que ela está ouvindo não é a pergunta certa. Estou cuidando de vocês ao comprar esta chave. O chaveiro é um homem sério, percebo. Porque se ele fosse de índole duvidosa, os seus comentários o deixariam á vontade para me vender uma chave usada, trocada recentemente por alguém. Amigas, esperem a conclusão da colocação da chave antes dos comentários.

As funcionárias ficaram sem graça e voltaram ao que faziam: costuras.

O chaveiro falava em cochicho com ela, quando a funcionária esticou as orelhas:

_Dona Cremilda, estará o banheiro das funcionárias adequado para entrar, estou precisando ir até lá.

A funcionária fica sem graça e sai.

Cremilda disse que o chaveiro poderia usar o banheiro. Disse á funcionária que se contivesse:

_O amor precisa de certeza para sobreviver, não podemos nos deixar levar pelas desconfianças enquanto cozemos. Você desconhece a minha realidade e o quanto eu aprecio o seu capricho no acabamento das peças. Agora sabe. Comporte-se. São muitos anos comandando essa empresa. Conheço os cochichos de todos, do chaveiro também. Não é fácil você organizar as ideias, selecionar os moldes, as máquinas, as funcionárias, os atacadistas e o tipo de público consumidor desejado.

O chaveiro a chama de tola, polidamente e sem ofendê-la, pois conversar nesse tom amistoso com as funcionárias pode fazer com que elas percam o respeito pela chefia.

_Foi nesse tom amistoso que o senhor me pediu para ir ao banheiro. A chefia não prescinde da compreensão dela por parte dos empregados. Esse é o meu estilo de comando, ou todas elas são boas colegas umas com as outras, ou não duram no emprego, eu verifico pessoalmente o bom ambiente de trabalho porque ele garante parte do meu lucro e a quase totalidade da minha saúde, também preciso de médicos para saber como estou independentemente dos negócios da empresa. Eu tenho consciência da minha importância na vida delas e quero que elas saibam que são importantes para mim.

As funcionárias voltam ás suas máquinas e o chaveiro segue ao banheiro. Enquanto Cremilda espera o homem sair para pagar a chave, ela pensa no que a motivou ao plantão do feriado e chegou à conclusão que ela precisava se livrar desse medo de não cumprir as metas planejadas. Reflete que colocou todas as funcionárias de plantão mais em função desse medo do que da realidade; horas extras ao final do dia resolveriam a produção. Subjetivamente, quem precisava estar com as costureiras era ela; as microempresas dependem do dono delas, não há gerente que dê jeito porque não há como contratar um profissional desse gabarito. De quem ela tinha medo? Do gerente, da possibilidade de precisar dele e não ter como. Descoberto o medo, ela se sentiu melhor preparada para enfrentar o desafio de ser a dona e a gerente de si mesma. Também era humana, frágil, feminina, também tinha filhos para cuidar e o pior, era o bicho-papão de si mesma. Agora o fantasiado bicho-papão dormia dentro de si, poderia sorrir.

Ao encerrar o dia, fez um elogio a cada uma delas, ressaltando as qualidades particulares de cada uma delas. Todas saíram contentes naquele dia, não era cochicho, era grito de Carnaval.

Um comentário:

luís rodrigues coelho Coelho disse...

O trabalho de uma empresa resulta mais perfeito quando todos trabalham em união e quando os donos conseguem formar uma boa equipa.

Gostei do texto. Penso que este exemplo é para ser seguido ou copiado