Lugares Bonitos

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O blog da Nina, menina que lia quadrinhos.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Deixa Prá Lá

Deixa Prá Lá
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Fazia tempo que o cachorro do Geraldo não latia daquele jeito à noite. O chacreiro acordou assustado e em seguida acordou a sua mulher, Lucinda.
_Mulher, será que tem ladrão por aqui? Da última vez que o Cuíca latiu assim eram ladrões no galinheiro. Vou ver o que está acontecendo.
A mulher pediu para que ele tomasse cuidado, nunca se sabe o que se vai encontrar vindo do mato, ainda mais que passavam das dez horas da noite.
Quinze minutos depois Geraldo volta e diz que não viu nada, estava tudo normal no galinheiro, no chiqueiro e na coxia. Disse também que o tratador dos animais estava acordado e que conversou com ele, dizendo que também não viu nada de diferente e também estranhou o latido.
Passaram-se alguns dias e o Cuíca latiu à noite novamente. Geraldo acordou e acordou a Lucinda:
_Mulher, alguma coisa está acontecendo por aqui. O cachorro não late assim se não for onça, raposa ou morcego, precisamos nos cuidar.
Na quarta vez em quinze dias, Geraldo disse à sua mulher que não iria deixar passar mais nenhuma semana sem averiguar o que acontecia na chácara durante a noite. Tinha contado as galinhas, os porcos, os cavalos e as ovelhas recém-adquiridas e não faltava nenhuma. As laranjeiras estavam carregadas e as laranjas passadas caíam do pé.
Montou o seu plano de averiguação: a mulher cuidaria da chácara de dia mentindo que ele estava indisposto para os empregados e, à noite, ele ficaria de vigia na porteira de entrada até que o cachorro latisse de novo.
Passaram-se alguns dias e, a dona Romilda, senhora de mais de cinquenta anos de idade, viúva e frequentadora assídua da igreja, chega até a porteira. Ele, Geraldo, de vigia escondido na moita. O cachorro late e o tratador aparece e abre a porta para a dona Romilda.
Romilda entra na casa do tratador. Barulho de panelas e chaleiras é ouvido lá fora.
Geraldo se sente na obrigação de descobrir o que se passa lá. Na maior sem cerimônia bate à porta do empregado e pede para tomar um copo de água. Disse que o cachorro latiu e que ele se sentia bem disposto para convidar o tratador para percorrer a chácara.
O tratador de animais disse que não podia sair naquela noite e explicou:
_O senhor sabe que o meu pai caducou e eu o trouxe para morar aqui. O senhor sabe que eu o levei ao médico e o doutor sugeriu que ele se alimentasse diretamente pelo nariz até o estômago para que não morresse de fome. Enquanto eu pegava as guias para a comida encontrei a dona Romilda e ela veio me ensinar a dar de comer. Sabe que está dando certo! Não é que ele não consiga comer porque não consegue engolir direito. O pai come que nem bicho preguiça, conforme a dona Romilda está me ensinando. A gente dá uma colher de sobremesa de arroz esmagado com o garfo coberto com purê, caldo de feijão coado, frango desfiado e espera ele engolir. Depois ele toma um gole de água. Demora mais de quarenta minutos até ele almoçar ou jantar. Durante o dia a gente complementa com banana amassada, leite batido com maçã, doces moles e bolo úmido de fubá. O pai conseguiu engordar e recuperar as forças. Peço desculpas por não lhe avisar, mas a dona Romilda está aqui porque, enquanto eu durmo para levantar cedo e trabalhar, ela alimenta o pai, que dorme pouco e quando acorda, tem fome.
Geraldo disse que não tinha vindo até a casa dele por desconfiar dele, mas ouviu o cachorro e estava atrás do motivo dos latidos noturnos.
_O senhor pode deixar que ao que amanhecer eu vasculho toda a chácara para ver se eu encontro um motivo para o Cuíca latir desse jeito.
Geraldo voltou para a casa a fim de dormir o sono mais tranquilo das últimas semanas. Deixou o homem verificar todos os bichos, foi melhor para ambos. Ignorou os latidos dali em diante, a casa estava guardada pela dona Romilda.

8 comentários:

Célia Rangel disse...

... kkkk... minha mente viajou nas artimanhas dessa dona Romilda! Muito caridosa, ela hein?!
Bj. Célia.

manuel marques Arroz disse...

Tudo está bem quando acaba em bem...

Beijo e bom fim de semana.

Ingrid disse...

boa...
sempre há..
beijos e bom final de semana.

Jossara Bes disse...

Olá, Yayá!

Bonita cronica, repleta de "senso de solidariedade".
Tão bem escrita, que me senti fazendo parte do cenário descrito.
Tenha um lindo fim de semana!
Beijos!

O Profeta disse...

Sopram ventos de melancolia
Transparente é o cinza que a tua alma encerra

A minha pobreza é a falta de um par de asas
Encontrei um lugar de reinvenção das sombras
Pensei virar as costas ao tempo e ao deslumbramento
E aí houve estranhamente o amanhecer das minhas palavras

E passei para te deixar


Um mágico beijo

Jorge disse...

Como diz Jossara, "senti-me fazendo parte do cenário" o que prova o bem escrito que está.
Um abraço.

aluap disse...

Yayá,
Este texto fez-me lembrar uma altura que devido ao rigor do inverno e falta de alimentos os lobos andavam esfomeados e avançavam sorrateiramente a ponto de entrarem na nossa aldeia. Os cães ladravam, mas os lobos acabavam por os comer, por isso acabaram por usar umas coleiras pontiagudas para evitar o ataque deles, que lhes “ferravam” o pescoço. Embora eu nunca tivesse visto os lobos, mas de tão falados nas histórias que me contavam, hoje restam as recordações deles, como património imaterial nas narrativas dos mais velhos e sua maneira de escrever continua a impressionar-me e atira-me algumas vezes para a minha infância.
Mas com isto já me ia a esquecer da caridade da D. Romilda. Acho que fascinados que andamos com as obras de grande vulto, quase esquecemos as obras de caridade que são também GRANDES.
Abr./aluaP

La Gata Coqueta disse...




Después de un largo periodo de tiempo, tiempo que a veces no se comporta como nosotros quisiéramos y si como le preceden las situaciones…

Regreso emocionada a recrearme por este vergel, donde las rosas acompañadas de las letras se mecen creciendo bajo la luz de tu sonrisa.

Te dejo como bienvenida, un abrazo de golondrinas interpretando los trinos del cariño y la fantasía.


Atte.
María Del Carmen