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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Adúltera / Miniconto

Adúltera

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Juraci era uma moça casada com duas filhas, uma de cinco e outra de sete anos de idade. Moça inteligente, trabalhadora, educada. Não era bonita de rosto, infelizmente conservava a cicatriz das espinhas espremidas com as mãos, tinha estilo ao se trajar de modo que se parecesse como moça comum; saltos baixos e calças comuns de lojas comuns combinadas com blusas também comuns no corpo bem delineado, porém sem exageros. Era tão normal aos olhos dos outros que ninguém sequer imaginaria o que ela acabou por fazer.

Chegou ao emprego, disse bom dia aos colegas e, depois, como quem toma um cafezinho displicentemente, contou a todos que tinha um amante.

Ninguém quis acreditar, os colegas deram risadas.

Juraci continuou a contar o caso, dizendo que era para verem que ele a pegaria na saída do escritório, que todos poderiam ver.

João José, indignado com a brincadeira, pediu a ela que parasse com aquela história. Ele era casado e não havia tido sequer uma amante em doze anos de casamento.

Juraci, como se estivesse num estado superior ao humano, respondeu calmamente:

_Se quiserem, podem contar ao meu marido. Ele não acreditará em nenhum de vocês. Ele trabalha o dia inteiro, assiste o jornal na televisão, diz boa noite às meninas e me espera para dormir e eu não falto aos meus compromissos.

Outra colega disse que se fosse verdade, ela que tivesse juízo e parasse com aquilo.

_Nunca se sabe a reação de quem sofre uma traição!

Juraci não parou com a história e disse que sairia de casa em julho, quando tiraria férias no emprego.

Os colegas ouviam e não levavam a sério o que a colega de trinta e dois anos dizia.

Passa-se o mês de julho e ela volta das férias.

_Juraci, você se separou?

Para todos, com toda a classe e elegância, Juraci contou o mês de julho:

_Eu saí de casa, o meu marido ficou triste, mas eu deixei as meninas com ele para que ele se conformasse com a responsabilidade compartilhada. Visito as minhas filhas nos finais de semana, elas estão bem cuidadas, por ele e pela minha antiga sogra que está fazendo o papel de mãe com perfeição. O meu novo namorado, quando viu que eu estava morando sozinha, foi embora. Estou sem amante, conforme vocês o chamavam. Penso que ficou com medo de ter que assumir compromisso comigo.

João José, aquele que havia intervido na conversa anteriormente, perguntou?

_Você viu que não valeu a pena? Entendeu agora o que eu tentei te dizer?

Juraci, com a voz calma e suave, respondeu:

_Estou livre agora. Sem marido, filhos, casa para cuidar, amante para me distrair, agora posso me dar o devido valor. Acredite: estou bem.

Os colegas a olhavam naquele sorriso superior, como se estivesse acima do bem e do mal.

João José, ainda assim, insistiu:

_Você quer largar o emprego também?

Todos boquiabertos ouviram a resposta:

_Não quero largar ou mudar de emprego. Quero levar a minha vida, namorar, sair, comer e deixar a comida em cima da mesa até o dia seguinte. Pensarei somente em mim, mais ninguém.

Os colegas se entreolharam e voltaram a trabalhar, pensando neles mesmos. Aquele caso da colega não era para eles, era, talvez, para a psicanálise. Difícil para eles era aceitar essa frieza de ânimos numa pessoa tão comum, tão igual a eles. Sorte é que a moça era colega de trabalho, nada, além disso, mas metia medo.

15 comentários:

Célia Rangel disse...

Pelo menos essa "Juraci" foi corajosa e não ficou enrustida...
Abraço, Célia.

IDERVAL TENÓRIO disse...

Minha mestra,belo texto e que fundo social, o homem enquanto homem não gosta de muita responsabilidade, quanto é chamado para assumir um entretenimento casual ,um entretenimento fugaz foge.

O homem gosta de aventuras ,responsabilidade só com a oficial,com a mãe dos seus filhos. O bom mesmo é não precisar deste expediente, o bom e´viver oficialmente e com responsabilidade. Um abraço e boa lição.Iderval.

Fernando Santos (Chana) disse...

Bela história...Espectacular....
Cumprimentos

D. Garcia disse...

A coragem assusta. Toda mudança, na meia idade é vista como algo 'fora do normal'. São poucos os que ousam. E estes vencem. Porque a vitória é de todos, mas somente os arrojados é que vão buscar.
Linda crônica, Yayá! Parabéns!
Estou gostando dessa tua nova fase de reflexões.
Abraços. Daniel.

Maria Teresa Fheliz Benedito disse...

Yayá que inspiração fantástica!
Adorei.
Corajosa a sua personagem, muito incrível sua ideia.
Parabéns!
Um abraço carinhoso.

edumanes disse...

Inteligente,rabalhado e educada
Não era bonita infelizmente
Seria com certeza muito amada
Ou abandonada indiferente?

Lá na empresa
Tomou um cafezinho muito contente
Respeitada com certeza
Pelos colegas não indiferente!

Boa quinta-feira para você,
amiga Yayá,
um abraço
Eduardo.

Filha do Rei disse...

É uma história cada vez mais comum.
Tenha lindos dias. Bjs

manuel marques Arroz disse...

Liberdade,egoísmo!não sei não.

Gostei do texto.

Beijo.

Mona Lisa disse...

O cansaço da rotina!!!

Belíssimo texto que retrata uma realidade, normalmente, sem um final como este.

É precisa coragem!

Beijos.

Maria das Graças Lacerda disse...

"alguém que acorda disposta todos os dias para fazer arte e sonhar que é possível."

Yayá, que linda descrição de você, minha agora amiga! Não pude deixar de mencionar...Parabéns!

Sua personagem é ousada! Corajosa por demais!
Conheci alguns casos assim, em que a pessoa se desvencilha de casa, filhos, marido, compromissos de anos e depois o "dito cujo" não a assume...o conhecido "gostar enquanto é difícil"!
Caso para especialista mesmo.
Gostei muito do modo como você escreve, Yayá. Quero voltar mais vezes, agradecer sua visita, e dizer que não tenho andado muito frequente nos blogs dos amigos devido aos estudos, mas tão logo termine, eu retorno, pois tenho muitos amigos maravilhosos aqui, e um deles agora passou a ser você!
Abraços, querida
e venha sempre.

Paulo Sotter disse...

A felicidade alheia incomoda, inquieta. Ela estava tentando buscar a sua felicidade livre de convenções e regras. A normalidade é sempre castrante. Lindo texto. Um abraço Yayá

Jonatan Israel Quadros disse...

Se as pessoas tivessem a coragem da Juraci poderiam mudar suas vidas... REVOLUCIONAR....

"você faz suas escolhas,
e suas escolhas fazem vc"

Nãolembro quem disse, mas parece apropriado, parabens pelo conto que nos permite refletir.

JOPZ

aluap disse...

Bem é preciso muita coragem para mudanças de casa e de...mentalidade!

Bom Fim-de-Semana.

Graça Pereira disse...

Psicologia complicada a dessa moça...Ás vezes penso que há gente que já nasce ao contrário!!
Beijocas.
Graça

CORAÇÃO QUE PULSA disse...

YAYÁ...
EU, não pensei na MULHER, pensei nos filhos.Dali para frente...qual será o conceito deles de FAMÍLIA, de RESPEITO, de HONESTIDADE, de FIDELIDADE, de AMOR?...
Ser FELIZ...é ser VERDADEIRO.
Ela poderia ser LIVRE desse casamento, sem precisar da TRAIÇÃO.
UM CASTELO...JAMAIS PODERÁ SER CONSTRUIDO DEBAIXO DE RUÍNAS DE UM CASEBRE.
Clélia