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sábado, 18 de agosto de 2012

Carta ao Mestre

Carta ao Mestre

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Querido mestre,

Espero que o senhor esteja bem, lendo os seus livros e jornais. Escrevo para comentar sobre as suas aulas, na época eu era adolescente, boa aluna, mas fui tão boa aluna que guardei as suas aulas até hoje, na meia idade.

Lembra quando o senhor disse que éramos iguais a leite, pasteurizados? O senhor nos disse que todos nos vestíamos com jeans, iguais, que deveríamos ser diferentes. O senhor disse que deveríamos ser autênticos e usarmos todos os tecidos e todas as roupas. Ah! Foi difícil, mas segui os seus conselhos. O senhor de terno e gravata todos os dias querendo que nós fôssemos autênticos, não fôssemos reacionários como o senhor. Que falássemos com jornalistas, esses seres que além de lerem, passam os dias descobrindo o que possa nos interessar. Realmente, eles são geniais.

Mas o senhor provocou mais; o senhor disse para descobrirmos se a notícia era tendenciosa ou não, que soubéssemos dos patrocinadores, dos interesses econômicos. Ah, professor, éramos quase crianças! Estudioso naquela época foi o senhor. Mas aprendi a ver mais do que queria, a ler mais a condução das ideias nas entrelinhas. E a condução das ideias realmente pode nos levar a conclusões errôneas, talvez pior do que se fossem erradas, porque o que está errado tem como se corrigir através das erratas de rodapé, mas as errôneas nos induzem a acreditarmos em fatos que não são verdadeiros.

O senhor era a favor da criatividade, que resolvêssemos os nossos problemas seguindo os nossos padrões, que nem por isso desrespeitaríamos a ética, a qual deveríamos conviver em consonância, como parte da conduta diária. O senhor era “prafrentex” (gíria dos anos 70). Mas era avançado em teoria, na prática o senhor era conservador pelo que pudemos constatar nas provas bimestrais. Devo admitir que as suas ideias contaminassem a mim, aos colegas e à escola. Íamos quase todos, é verdade, para escutá-lo. Depois vinham as gozações escolares, aquelas que talvez o senhor nem tenha sabido, ou, não tenha ligado.

O senhor teve a ousadia de criticar outra escola, a que ensinava a malícia entre os colegas além de exigir um comportamento de estudo e excelência durante os dias da semana. Lembro-me que o senhor dizia que toda a energia reprimida durante a semana iria acabar mal nos finais de semana. O senhor estava certo, eles extravasaram em excesso e os colegas que encontro estão bem, se levarmos em consideração àqueles que se conheceram daquela escola com a qual rivalizamos. A nós era permitido fazer a bagunça organizada na hora do recreio, supervisionado e bem humorado. Concluo que a direção era conivente com a sua filosofia. Extravasamos menos aos finais de semana, mas valeu o ensino contra os preconceitos.

Sabe professor, não é à toa esta análise. Hoje me lembrei de um amigo de infância que morreu com onze anos de idade. As crianças pouco brincavam com ele porque ele tinha um irmão excepcional, as famílias não queriam presenciar o fato pronto e acabado do retardamento mental, modo bastante estúpido de se dizer, mas comumente dito, infelizmente. Ele brincava sozinho na rua e não viu quando o carro veio. Não era tão criança, no nosso pensamento, afinal, com onze anos íamos a pé até a escola. Naquele tempo o trânsito não era perigoso como é hoje e tínhamos a nossa pequena responsabilidade de chegar no horário por nossa conta. Não havia moleques nas ruas e não tínhamos medo de usar o tênis conga azul marinho, obrigatório, nas aulas de educação física.

Na nossa escola havia crianças excepcionais e se sentavam nas carteiras como iguais, um deles concluiu o ensino básico igual aos outros. ÀS VEZES REFLITO SE A ESCOLA PEQUENA NÃO OFERECE MAIS OPORTUNIDADES DE APRENDIZADO, É NESSE PEQUENO MUNDO QUE AS TRANSFORMAÇÕES SÃO POSSÍVEIS. Escolas grandes são vulneráveis aos interesses, escolas pequenas amam mais devido à proximidade entre alunos e professores. Talvez esteja equivocada, mas hoje eu não ficaria bem se não conversasse com o senhor aguardando desde já a sua contestação e discussão sobre o tema.

Grata pela leitura, Yayá.

12 comentários:

Luís Coelho disse...

Boa memória que conserva ainda as lições e o professor.
Ensinamentos sempre actuais.
A Escola é a entrada numa sociedade onde todos aprendemos com todos e não apenas com os livros e os professores.

✿ chica disse...

Mestres verdadeiros ficam marcados em nossas vidas e tomara tantos assim para homenagear tivéssemos.

Lindo!! beijos,tudo de bom,chica

MA FERREIRA disse...

Yaya..belo mestre vc teve!!
Me emocionei aqui..
bjs e bom domingo..

Célia Rangel disse...

Um tema contagiante para quem é professor e "professa" o dom de saber ouvir, aprender para depois ensinar... Nas escolas de hoje, em sua grande maioria, alunos são meramente números, catracas que os recebem, câmara oculta que os vigia e, contato humano, pouco ou mesmo quase nada. Alunos que vão à escola pela merenda, pela venda de drogas e outros trambiques, e dela saem semianalfabetos... Professores sem noção do que fazem e como fazem, pois se submetem a "trabalhar" também, quase pela merenda, por algumas agressões de pais e alunos retornando para seus lares sem oferenda maior à seus familiares, que lamuriações, e desistência da "pseudovocação" sabendo que nada muda! Aquele professor era "prafrentex"... os de hoje, fogem da "bala perdida" e não filosofam mais... mesmo porque não há ouvidos que queiram "ouvir"... Ministérios / Secretarias da Educação são elementos utópicos que verbalizam magias que não se concretizam...
Parabéns, pelo texto com excelente reflexão irônica e muito real para a época em que vivemos.
Bj. Profª Célia Rangel.

Mona Lisa disse...

A escola deve ser a base da evolução social.

Belíssimo texto!

Beijos.

Paulo Francisco disse...

Lindo texto! Linda homenagem!
Gosto da escrita forte e com personalidade que encontro sempre por aqui..
Muito bom.
Uma semana bacana pra ti.

Marisete Zanon disse...

Esperando para ouvir o que o professor diria da situação. Quando estamos indignados com alguma situação, fazemos de tudo para tentar solucioná-la, até divagamos numa crônica. Gostei.
Tenha uma semana cheia de alegrias e inspirações.
Bjos

Jossara Bes disse...

Oi, Yayá!

Que texto gostoso de ler! Entre lembranças e reflexões, a "cara" da realidade!
"Conga azul" me deu saudade!
Tenha uma ótima semana!
Beijos!

Mariangela disse...

Muito lindo seu texto!
E que bela homenagem!
Tenho saudades dos meus mestres...
E tomara que as crianças de hoje também tenham.
Um beijo!
Mariangela

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Minha querida

São memórias que ficam gravadas em nós e que nos preparam para a vida.
Uma linda homenagem a quem nos ensina tanto.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

Jopz_B1B disse...

"ao mestre com carinho"

IDERVAL TENÓRIO disse...

SOU PELA FEDERALIZAÇÃO DO ENSINO PRIMÁRIO PARA TODOS


A Educação de um povo é o principal pilar para o exercício da cidadania e o maior impulso para a sua plena independência .

Como alicerce e radier é o ensino primário acoplado ao ensinamento familiar ,a bandeira principal e a raiz da árvore educacional de um cidadão.

Baseado nestes princípios abordarei alguns fatos que poderão despertar o debate entre os responsáveis pela área educacional.

É sabido que no Brasil ,a Escola Primária é de responsabilidade do Município por entender que é neste território que o cidadão mora.

Acontece que este limitado e autônomo sítio é dirigido por um cidadão chamado Prefeito.Dirigente este oriundo de qualquer camada social ,viciadamente eleito por interesses de alguns seguimentos da população desde quando seja escolarizado e que tem plenos poderes de dar o destino que lhe convier a este nível educacional.
Antes de ser Paulistano,Soteropolitano, ,Juazeirense,Canudense,Piripiriense,Caxiense ou Santista o Cidadão é BRASILEIRO , não devendo sofrer qualquer tipo retaliação ,seja regional, financeira,religiosa,de raça,gênero sexual ou preferência política, ele tem direito por lei a um ensino básico de qualidade em qualquer recanto que viva,um ensino homogêneo em todo o território nacional. Sendo nesta fase da vida a Escolaridade Primária considerada uma atitude de Estado ,uma atitude pétrea e não de Governo.

Acredito que com esta configuração o pais em breve sairia deste pesadelo educacional e deste boom de marginalidade, fruto da pouca escolaridade e da pouca ocupação dos adolescentes em todos os níveis sociais.

Teria o pais uma conduta equânime ,cada cidadão teria direito à mesma carga de ensino, a verba seria pulverizada nacionalmente independente da arrecadação do município..A Escolarização Primária seria responsabilidade do Governo Federal, só assim seria assegurado a cada cidadão , as mesmas ferramentas para se enfrentar a tão concorrida vida ,dando cabo a este famigerado fosso social.

Iderval Reginaldo Tenório
Salvador Janeiro de 1996