Lugares Bonitos

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O blog da Nina, menina que lia quadrinhos.

domingo, 25 de setembro de 2011

Belo Almoço de Domingo

Belo Almoço de Domingo.

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Sabrina nasceu e cresceu em Londrina, completou dezoito anos com o seu segundo grau completo e a não aprovação no vestibular após um ano dedicado aos estudos. Esqueceu-se dos sábados e domingos em estudos, mas não entrou na universidade.

Na sua festa de aniversário, em frente à família reunida, Paulo Freitas, o seu pai, entregou a chave do apartamento para ela e disse que esse presente representava a confiança alcançada por ela dentro da família, que ela era uma jovem dedicada e responsável e merecia um presente pela conclusão do segundo grau.

_Desejamos que você continue do jeito que é, esforçada e estudiosa. Todos fomos cúmplices nos seus estudos e presenciamos a sua dedicação. Sabemos que você entrará para uma faculdade e que precisará estudar mais seis meses ou mais um ano inteiro. Acreditamos em você.

Sabrina se emocionou com o presente e disse que iria estudar até entrar numa faculdade de odontologia. Dentro dela havia uma tristeza de não ter passado no vestibular, uma sensação de que nem sequer havia concluído o segundo grau, um sentimento de derrota.

Esse dia 15 de fevereiro de 2.001 era para não ser esquecido. Mostrava-se agradecida e humilde. A chave da porta de entrada do apartamento veio em um chaveiro de acrílico branco comprado pela mãe, Soraia, em concordância com o marido. As iniciais S. F. estavam gravadas em dourado e foram artesanalmente grafadas por um calígrafo da cidade. Veio em uma caixinha de música comprada ali mesmo, em Londrina. Era uma caixinha de metal em formato de coração, sem bailarinas ou enfeites caros. A caixinha fora comprada simbolicamente pelos seus dois irmãos mais novos, O Paulo Júnior, de 15 anos e o Célio, de treze anos.

A festa segue até os convidados, seus parentes, irem embora. Louça limpa, casa arrumada, todos vão se deitar.

Sabrina derrama lágrimas ao travesseiro. Foi para ela a festa mais significativa da sua vida.

A moça acorda às sete da manhã, mas não levanta. Pega a caixinha de música com a chave ao lado da cama e a coloca em suas mãos. Brinca de ser adulta na imaginação. Sair para as aulas do cursinho com as chaves da casa nas mãos é algo engraçado. Ela sorri.

Soraia bate à porta do seu quarto:

_Sabrina, levante-se. Já passam das nove horas da manhã.

_Estou levantando mãe.

Soraia está desempregada e faz um ano e meio que ela desempenha as funções de mãe e de dona de casa. Os filhos estão em férias escolares e as aulas começam em março.

Na hora do almoço, o pai sugere que Sabrina estréie a chave.

_Não tenho o que fazer. Estou em férias.

Os meninos, mais animados do que ela, querem ir ao cinema assistir um filme repleto de efeitos especiais.

_Os filmes que eles gostam são demais para mim. Fico em casa.

O pai olha para os meninos e pisca.

_Eles assistem o filme que quiserem e você assiste o filme que escolher.

_Sozinha, pai?

_Sozinha com a chave da casa te dando segurança. Se vocês forem ao shopping, eu os levo, vocês assistem os filmes e voltam para casa de ônibus. Você abre a casa para eles entrarem em casa.

A mãe, Soraia diz que vai sair e que conta com ela para ajudar em uma tarefa nada difícil.

Os dois garotos e a irmã vão ao cinema. Os meninos para uma sala de exibição, Sabrina vai para outra sala de exibição.

Sabrina entra devagar na sala, observa que tem outras pessoas desacompanhadas lá dentro. Essas pessoas parecem satisfeitas com os seus sacos de pipoca e refrigerantes. Celulares são desligados um a um. Ela também desliga. Acaba o filme. Ela sai para se encontrar com os irmãos. Eles a alertam para que sorria o melhor sorriso porque estão sendo filmados. Dirigem-se ao ponto de ônibus em pilhérias um com os outros.

_Sabrina, não demore tanto para achar a chave. O Célio precisa ir ao banheiro.

Assim passam esse fim de semana. Passeios com a chave de Sabrina.

Na segunda-feira a mãe pede para a filha ir ao banco descontar um cheque que o seu pai deixou para as compras no supermercado.

_Banco? Eu tenho medo de lidar com o dinheiro da família.

_Pois, hoje você perderá o medo. A vida não é fácil filha, não se pode ter medo de ser adulta.

No fim de semana seguinte, algumas amigas ligam e a convidam para uma festa.

_Sabrina, deixe a chave na caixinha de música. Eu te levo e te trago na hora que você quiser, é só chamar que o pai te pega.

_Pai, eu já sou adulta!

Paulo Freitas queria saber mais sobre a festa e verificar o ambiente antes de deixar a filha.

_Sabrina: quanto mais nós somos filmados e sorrimos, maior a insegurança em que vivemos. Sua mãe e eu voltávamos a pé das festas, olhávamos o céu enluarado, ríamos, conversávamos e o pai dela sabia que chegaríamos bem em casa. Ele esperava a gente na frente da casa para que não namorássemos no portão. Não éramos filmados e tínhamos confiança nas autoridades. Londrina hoje é bem diferente daquela na qual eu e a sua mãe vivemos. Eu te levo e eu te trago.

Começam as aulas e Sabrina recebe algumas recomendações especiais.

_Filha, tome cuidado com a chave. Não deixe a chave solta dentro da pasta nem para ir ao banheiro. Leve a chave, a carteira de identidade e o celular com você, mesmo para ir ao banheiro. Tem malandro que tira a cópia e depois apronta. É perigoso.

Sabrina voltou às aulas descobrindo que ser filmada não era a melhor coisa do mundo e, que o mundo precisava ser filmado porque nem todo o mundo era bom.

O Paulo Júnior observava atentamente às instruções dadas a irmã mais velha. Um dia, em no começo de abril, durante o lanche da noite, ele pergunta ao pai:

_Pai, quando eu fizer dezoito anos eu ganho a chave da casa?

_Ganha sim, filho. Hoje, no entanto, você vai preencher a declaração do meu imposto de renda.

_O quê? Eu não sei fazer isso!

_E eu não sei jogar no computador. Tenho que fazer a minha declaração e quero que você a preencha para mim. Eu te ajudo. Depois, você me ensina um jogo que seja fácil de jogar e nós jogamos juntos.

_Não sei se eu faço tanta questão assim de ter comigo a chave da casa. Responde Paulo Júnior.

_Um dia você vai precisar dela filho. Um dia você será, talvez, o dono dela.

O ano corre e algumas poucas tarefas de adulto são cuidadosamente planejadas para o Paulo Júnior. Essas tarefas não prejudicam a vida de adolescente, fase que ele também precisa viver.

Em agosto, Soraia consegue um emprego na secretaria de uma escola. São sei horas por dia, começando ao meio-dia e terminando às seis da tarde. Ela contrata uma empregada para auxiliar nas tarefas do lar.

_Filha, a mãe vai trabalhar. Essa moça é uma estranha para nós e nós somos estranhos para ela. O relacionamento é de trabalho, coisa que você não sabe o que é. Cuidado com a tua chave. Ouvi umas coisas ruins lá no salão de beleza, disseram que algumas delas tiram cópias das chaves para depois assaltarem os patrões. Às vezes me dá raiva da atualidade! Dizer essas coisas para você me revolta, mas eu tenho que dizer. Se você notar alguma coisa estranha nela, me avise, mesmo que seja implicância da sua parte, eu tenho que verificar. Haja paciência com isso!

O ano corre, a empregada se adapta à família e vice-versa.

Chega o fim do ano. A tensão pré-vestibular recomeça, mas a família finge estar bem. O fingimento é tanto que eles riem ao evitar a palavra V E S T I B U L A R.

Sabrina faz as provas e confere o gabarito com as respostas certas. Ela se sente bem, verifica que acertou mais do que errou.

Paulo Júnior continua observando a irmã. Ele se sente responsável, capaz e confiante. Pensa em não ficar nervoso quando chegar a sua vez. Pensa que os homens são mais calmos na hora da prova.

Para o Célio, o ano foi normal, escola com direito a atividades extras dentro do colégio tais como esportes e curso de espanhol para ingressar em relações internacionais quando crescer.

Dezembro chega com a força de um final de ano bem trabalhado e bem produtivo. Agora é festa. Sabrina e Paulo, agora juntos observam a vida de Célio. É domingo. Os irmãos se olham, olham para os pais e perguntam:

_O Célio ficará sem obrigações de adulto? O Célio ficará sem os milhares de conselhos e cuidados que recebemos durante o ano? Por quê? Podemos saber?

A mãe, com ar maroto, pisca para o marido e responde:

_Vocês não sabiam que caçula mama mais? O mais novo da família aprende com os pais, com os irmãos mais velhos, recebe mais cuidados. Vocês o mimam perguntando o que ele quer e de que jeito ele vai fazer ou se precisa de algo mais. Ele recebe mais e não é culpa dele. Não é culpa nossa tampouco. É assim mesmo.

Célio, vendo que a mãe, o pai , a irmã e o irmão olhavam para ele com carinho naquele momento, achou que era o momento de participar da reunião familiar.

_Percebo que todos estão finalmente preocupados comigo, que milagre, é o espírito de natal. Época em que lembram dos que são os mais comportados durante o ano. É o momento de dizer que quero uma bicicleta nova de presente de natal. Perdôo a todos pela falta de atenção que dispensaram a minha presença nesta casa no ano que está para terminar.

_Você merece uma bicicleta nova, filho. Disse Paulo Freitas.

Todos concordaram que ele foi um amor o ano inteiro e merecia uma nova bicicleta.

Belo almoço de domingo!

6 comentários:

Célia disse...

Reunião familiar recheada de ensinamentos é um curso para a vida toda! Feliz de quem tem família assim estruturada! Não se aprende em nenhuma faculdade! Os doutores de tais ensinamentos são "os pais" - alicerces da família! Parabéns, Yayá pela reflexão!
[ ] Célia.

Ana_Paula disse...

Família, nossa primeira escola. É dela que vem a "alfabetização do caráter"...
Belíssimo texto!

Grande abraço.

Bergilde disse...

Gosto desses encontros em família.Trazem sempre belas lições pro nosso progresso pessoal.Hoje as famílias andam tão dispersas e frias...
Abraço carinhoso,boa semana!

Severa Cabral(escritora) disse...

Boa semana prá vc e familia!
Por ser nossa estrutura...
bjssssssssssss

Monja de Clausura Orden de Predicadores disse...

Yayá, discúlpame que hoy no te lea,
Amiga , No he dormido en toda la noche intentando resolver una advertencia de Google de amenaza de virus de un blog de manualidades infectado y que está ya avisado de que nos infecta http://entreagujasehilos.blogs.com así que hoy tengo la cabeza embotada y esta noche dormiré por dos.
Gracias, por estar a mi lado
Le dejo un beso grande
Sor.Cecilia

@ Escritora disse...

Um conto gostoso de ler, me fez relembrar muitas cenas em família.

Obrigada pelos cometários sempre muito carinhosos.

Bjão