Lugares Bonitos

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O blog da Nina, menina que lia quadrinhos.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Foi Assim

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Marina fugiu para se casar com Nelson. O pai dela não aceitou o namoro, mas Nelson queria casar.

O pai dela disse:

_Nesta casa ela não mais pisará, desrespeitou a minha casa e escolheu um malandro, um oportunista. Ela que conheça a vida de mulher de malandro sem o meu apoio, que aprenda com a vida.

O pai dele disse:

_O meu filho não tem dinheiro para se sustentar agora, mas é honrado. Dou a casa dos fundos para eles morarem e uma cesta básica até eles se ajeitarem.

Quando nasceu a neta Mara, um ano e meio depois de casados, o pai dela disse:

_Cuidarei da minha neta sem que a minha filha saiba.

O pai dele disse:

_A nossa amada Mara é mais uma boca para alimentar, a minha neta será bem nutrida. Economize para a educação dela, faça-me este favor.

Marina ouviu a conversa e disse que tinha arranjado um emprego e que iria ajudar nas despesas. Nelson a abraçou orgulhoso da mulher que era a mãe da sua filha.

Mas Nelson não teve que pagar estudo nenhum, a menina parecia ser querida de todos e ganhou bolsas de estudos em várias escolas. Ele e a mulher escolheram o colégio onde a mãe havia estudado que além de conhecido era afamado pela alta qualidade de ensino.

Em contrapartida, Nelson não progredia, estacionou no lugar onde estava quando se casou. Com família para cuidar, estudar era difícil e ele desistiu. Na cidade pequena, os amigos do pai de Marina aceitaram a idéia que ele era malandro e concluíram que não adiantaria ajudá-lo, vício de caráter não tem cura. Marina era recepcionista de uma clínica de estética, local ao qual se adaptou com certa facilidade, mas também não alçou voos maiores na carreira.

Mara crescera bonita e saudável, logo arranjou um bom emprego. Esse bom emprego jogava a realidade das vidas a Nelson e Marina. Ele sentia um misto de vergonha, raiva e culpa pela vida que levava. Ela se realizava na filha e matava a saudade dos tempos fartos na casa do pai contando da mocidade à moça. Contava também da fuga e da mudança radical no estilo de vida, mas dizia que tinha valido a pena.

Mara conheceu um jovem industrial e se casou com ele. No dia do casamento, na festa paga pelos noivos, o pai se sentia um convidado de honra no seu terno escuro e na gravata sóbria no tom prata, e nada mais do que convidado ao casamento da própria filha onde exerceria a função de apresentação da noiva. O vestido usado por Marina, alugado, era verde-escuro com bordados de pedrarias em tom de cristal com um barrado amplo, decote V na frente e uma gota terminando o decote nas costas. Acompanhava um sapato de salto alto forrado com o mesmo tecido do vestido e uma bolsa niquelada no tom prata. Marina sentia-se fantasiada de “como seria se não fosse”.

No dia seguinte ao casamento da filha, Nelson sai de casa e vai embora. Antes de ir, pede à Mara que cuide da mãe quando voltar de viagem, que dê a ela algo melhor que a vida medíocre que ele proporcionava a ela. Marina não queria acreditar no que via, mas a atitude dele foi forte e ela não pensou duas vezes antes de ficar só.

Não adiantou nada quando o pai dele disse:

_Você não encontrará ninguém que seja desprendida do conforto quanto Marina.

O pai dela soube e comentou:

_Agora ela aprenderá a dar valor ao que jogou fora. Talvez com o malandro fora da área, ela saiba o que é sensatez.

Em poucos meses Marina adoeceu. Nelson veio vê-la, mas os dois decidiram pela separação apesar da tristeza. Ele queria ficar longe da filha e do genro, cuja presença o angustiava e dava razão ao sogro. Ela queria a companhia da filha e do genro sentindo-se uma mãe realizada com a educação primorosa dada à filha.

Idade e doença são coincidências previsíveis, mas Marina chega à velhice. Ainda hoje diz que não se arrependeu da vida que teve. Nelson vem visitar a sua velhinha, mas a quer como amante, esposa nunca mais.

18 comentários:

Marly Bastos disse...

E Nelson usufrui de toda mocidade dela e a deixa na velhice,que é quando a pessoa mais precisa de companhia, por causa da solidão...
No fundo, talvez o pai dela tivesse razão.
Boa história Yayá.
Beijokas doces

Bípede Falante disse...

Cenas da vida real em perfeita prosa dos nossos dias.
beijoss

Andre Martin disse...

Bem escrito.
Pode ser um roteiro de filme? rs
Quantos Nelsons e Marinas não sabemos existentes pela vida, não é mesmo?
Mas pais como os deles são raros! rs
Mara teve sorte... compensação?

Jopz_B1B disse...

muito triste...

MARILENE disse...

Talvez os pais tivessem razão... talvez não. A ajuda que deram não foi em apoio, nem em crescimento.
Muito bom seu conto.

Bjs.

Zélia Cunha disse...

Gostei muito de seu conto. Realmente, existem muito Nelsons e Marinas por aí e o que falta muitas vezes é vontade de crescer, confiança, companheirismo.
Beijos

Luís Coelho disse...

Tópicos da vida real de tanta gente perdida por este mundo azul para uns e para outros apenas de ilusão.

O final deixa uma nota azeda.
Ele visita a amante e não a mulher que ele não ama.
Estará a dar razão ao sogro e às outras pessoas porque é um malandro e não gosta de trabalhar...??

CEM PALAVRAS disse...

Gostei do Nelson. Tinha orgulho de Marina e esperou a hora certa para seguir seu rumo, depois da missão cumprida - criar a filha. Livrou-se do cotidiano, mas continuou com a "manutenção básica".rsss
beijos

Ivone Poemas disse...

Muito boa mesmo essa cronica, é real, da vida de modo geral, pois quem pode saber que vida terá?!
O casal foi vítima da insatisfação na vida!
Triste mesmo, muitíssimo triste!!!
Ivone poemas
henristo.blogspot.com

Artes e escritas disse...

Esse conto foi muito bem conversado antes de ser escrito. Grata pelos comentários e um abraço, Yayá.

Dan disse...

Amo ler você Yayá!

Deixo um beijo.

Aclim disse...

E a Marina aceitou o fracote como amante? Mulheres...

Abraço

BRISA disse...

AMIGA AMEI A HISTORINHA. SEMPRE EXISTEM NELSON E MARINAS.
JA SOU SUA SEGUIDORA VIU. MEU MUITO OBRIGADO PELA SUA VISITA.

Que os anjos da paz
Desenhem em tua face
Um sorriso eterno
E velem teu caminho
Por onde quer que passe.
Que eles circundem teu lar
De aconchego e união
E encham de luz
O teu coração...
BRISA

Artes e escritas disse...

Aclim: São tantas Marinas, são tantos Nelsons que você não imagina...Um abraço a você.

Jorge disse...

Histórias da vida. Bom. Gostei.

Sonia Guzzi disse...

A eterna ambiguidade humana...
Gostei Yayá.
Bjs, em divina amizade.
Sonia Guzzi

Parole disse...

Um conto triste, mas muito bom com um desfecho impressionante.


Beijo

denise dutra disse...

pau que nasce torto, morre torto. nelson nunca quis assumir responsabilidade de pai de familia, e só se envergonhou disso quando viu que a filha estava bem encaminhada na vida..... e por mais fraqueza ainda, abandonou tudo, deixando a responsabilidade ainda mais pra cima da filha....
que pessoa fraca!