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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Livro Pós-Moderno Sincronização

LIVRO PÓS-MODERNO.

_O que você fez comigo? Nada até agora. É um tédio a vida de uma página em branco. Uma página precisa ser preenchida e você aí nessa internet se distraindo com spams. Spam é droga, você sabia disso. Isso vicia. Enquanto isso eu fico aqui olhando, olhando você com esse seu jeito aparvalhado lendo uma coisinha aqui e outra ali. Nada que me interesse.

O texto surge de repente na tela branca do “Word” do computador. O jovem vê aquilo e não se admira. Devia ser um “spyware” ou um vírus e ele não acessou “sites” que pedissem documentos, senhas ou coisas assim.

_Dane-se, pensa em voz alta Jeremias.

A página em branco continua se completando automaticamente:

_Jeremias, preste um pouco de atenção em mim. Você tem tudo o que eu preciso, ou seja, imaginação, bom domínio da língua escrita e gosta de histórias desde o tempo que a sua mãe lia a Bíblia para você. Por que esse seu comportamento de indiferença comigo?

Entre um “spam” e outro, Jeremias olhava o texto reclamão e insubordinado lhe afrontando os nervos e o impedindo de fazer o trabalho de literatura da escola. Tinha vontade de ler um pouco dos clássicos da literatura, mas não tinha tempo.

_Pensando no tempo que você perde com os “chats”, os “blogs”, os “emails”, com as fotos das meninas? Escreva sobre tudo. Coloque no papel, ou melhor, coloque aqui mesmo. Se você não gostar, você “apaga” e ninguém fica sabendo. É um segredo seu, eu juro.

Jeremias se sente um escritor e vai digitando as suas idéias no papel. No começo da segunda página, a tela do computador o interrompe:

_Quanto estrangeirismo você colocou aqui. É verdade que eu sou americana, mas você já pensou na reação dos nacionalistas e defensores da flor do Lácio? Piorando as coisas, pense na professora de português. Dessa maneira você está condenado ao ostracismo ou a “nota zero”, se você preferir. Mude um pouco esse texto.

Foi nesse ponto que o garoto se irritou e disse que fosse lá o que fosse, era assim que a comunicação se dava. O pastor da sua igreja usava normalmente essas palavras. Tinha 15 anos e justamente por saber lidar com o “PC” e com os termos relacionados a ele é que fora convidado para visitar e talvez trabalhar numa empresa de grande porte durante as suas férias, depois que fizesse o vestibular e isso aconteceria em dois anos.

A tela, meio sem graça concluiu o raciocínio do garoto:

_Não coloque nada que fale mal do sistema. Parece censura isso, eu sei. É mesmo censurado conte o que a sua imaginação quiser. Vale tudo. Bugigangas, sexo, a ditadura dos marginais. Tudo, menos questionar o sistema. Senão eu tenho um “bug” e apago tudo o que você escrever aqui.

_Eu sou conservador! Grita Jeremias para a tela preenchida aos poucos.

A tela vibra com a convicção conservadora do rapaz.

_Eu gosto do conservadorismo e do homem certo no lugar certo, do bom humor. Eu sei me divertir, admito. Jeremias, pelo menos me faça um favor: LEIA ALGUMA COISA ATÉ O FIM.

O garoto pensa sobre a cultura americana e os seus costumes. De repente, ele percebe que não entende nada de política e pergunta para a tela o que é isso.

_Democracia e o direito do cidadão de buscar a sua própria felicidade. Mesmo que não a encontre. O cidadão tem o direito de passar a vida querendo ser feliz sem que ninguém o impeça, cumprindo os seus deveres e exercendo os seus direitos. Sem coação. Eu sou americana e acredito nos meus sonhos e te dou agora a oportunidade de sonhar. Em português, brasileiro, da cor que você for, do sexo que você quiser e a droga dessa necessidade de escrever sem parar. Esqueça-me, faça de conta que eu não existo e eu serei o que você for capaz de imaginar. Mãos a obra que o tempo é curto e também, quem sabe, algum dinheiro para ser gasto.

Jeremias se convenceu que a conversa da tela do computador valeu à pena e o seu presente de natal naquele ano foi um dicionário completo da língua portuguesa num cd para computador.

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